

A DISCIPLINA DO AMOR

Grandes da Literatura Brasileira

Lygia Fagundes Telles
A DISCIPLINA DO AMOR

CRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413
01051 So Paulo, Brasil

Edio integral

Copyright  1980 Lygia Fagundes Telles

Direitos sobre o texto "A literatura como um ato de amor"

gentilmente cedidos por Ricardo Ramos

Capa: Natanael Longo de Oliveira

Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Editora Nova
Fronteira S.A.

Venda permitida apenas aos scios do Crculo

Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado pelo Crculo do Livro
S.A.

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Para meu filho Goffredo


Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambguas diante dos
apaixonados. Aproximam-se
deles, dizem coisas amveis, mas guardam certa distncia, no invadem o
casulo imantado que
envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita
cautela ao pisar nesse
terreno. com sua disciplina indisciplinada, os amantes so seres
diferentes e o ser diferente  excludo
porque vira desafio, ameaa. Se o amor na sua doao absoluta os faz mais
frgeis, ao mesmo tempo
os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do
Paraso, provaram da rvore
do Conhecimento e


agora sabem.


Os gatos

Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluda, uma leve poeira de
ouro no fundo. E no
obedeceria porque gato no obedece. s vezes, quando a ordem coincide com
sua vontade, ele atende
mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato no  humilde, traz
viva a memria da liberdade
sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servido. Nem servo de
Deus. Nem servo do Diabo.

Mas espera, j estou me precipitando, eu pensava naquela fbula da
infncia:  que Deus Nosso
Senhor pediu gua ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos
e mesuras foi lev-lo ao
Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido
escolheu um copo todo rachado,
fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mo
divina.

Acreditei na fbula, na infncia a gente s acredita. Mais tarde,
conhecendo melhor o gato, descobri
que ele jamais teria esse comportamento, questo de feitio. De carter.
Ele ouviria a ordem e
continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar,
recolheria as patas como o
chins antigo recolhia as mos nas mangas do quimono. E mergulharia no
sono sem sonhos, gato
sonha menos do que cachorro que at dormindo se parece com o homem. Outro
ponto discutvel: dando gargalhadas? Mas gato no d gargalhada, s
cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que  o jeito
natural
que eles tm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca
arreganhada at o ltimo
dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e
apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse o sorriso do
gato  bicho sutil! Indecifrvel. Inatingvel.

Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? No, ele
nem se d ao trabalho de fingir. Preguioso, isso sim. Caviloso. Essa
palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, no existe melhor
definio para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e
olham. Olham.
Cavilosidade sugere esconderijo, cave - aquele recncavo onde o vinho
envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro
se expe, inocente.

Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para
os vestibulares da
Academia do Largo de So Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem
vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Ento ouvi um
rudo brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrs da
minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando
devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato
malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu tambm
perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu
apartamento era no primeiro andar de um prdio cercado de casario e essa
janela da sala
dava para o telhado de uma casa velhssima, por onde transitavam os gatos
do bairro.

Por onde andam hoje os gatos que no encontro mais nenhum. Naquele tempo
havia gato  bea

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nos muros, nos telhados. " que a vida apertou e gato d um BOM cozido",
explicou o jornaleiro. A
fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles
ficavam tomando sol?
Caando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulao,
fortalecidos. E os gatos, onde
esto os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e
pretas num fundo branco.
E os olhos. Por alguma razo obscura, escolheu minha casa: estendi a mo
afeita a acariciar cabea de
cachorro. Mas cabea de gato no  cabea de cachorro - primeira lio
que ele deu ao recuar com
uma soberba que me confundiu. A conquista do gato  difcil, embrulhada,
no tem isso de amor
repentino: mais um movimento de aproximao e ele fugiria ventando.

Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e
continuei a ler o romance da
virgem dos lbios de mel mas em voz baixa, intu que ele preferia o
silncio. Ele ou ela? Sexo de gato
no  ntido como sexo de cachorro, outra diferena importante. Leva
algum tempo para a descoberta
do sexo, da unha e da idade. Gato ou gata, vai se chamar Iracema,
resolvi. E deixei o meu hspede, a
casa  sua.

Ento ouvi o rudo delicado, ele bebia


leite mas no como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor.
O gato  discreto. H
que am-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.

"Tudo passa sobre a terra!" - estava escrito no final do romance que
achei triste. Olhei para a outra
Iracema que dormia no meio do tapete. Tambm voc vai passar? Tu quoque,
Iracema?! No sabia
ainda que permaneceria infinita na minha finitude.

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17 de janeiro

Me alinhei ao lado dos humildes e descobri que no era bastante humilde
para ficar junto deles, falsa
a minha curvatura, falso o despojamento. Me alinhei ao lado dos fortes e
vi que no era
suficientemente forte para sustentar por mais tempo aquela arrogncia,
representava planar sobre os
outros porque acreditei que assim no seria esmagada pelo rolo
compressor. Teria que subir acima
desse rolo, pisar nele
- ah, meu Deus, mas era isso o que eu queria?

No, tambm no era isso. Quis ficar s para ser verdadeira, agora queria
apenas ficar s e ento
sonhei que era uma rainha num coche desgovernado, em vo chamei por
algum que eu sabia por
perto, onde? E o coche rodando para trs, para os lados, sem cavalos e
sem cocheiro. Consegui descer
e encontrei uma gata cor de mel com seu gatinho, me aproximei
enternecida, e o pai? perguntei e
apareceu um leo de juba desgrenhada e olhar de pedra. Corri, tinha uma
mulher na casa mas a mulher
gesticulava e no podia fazer nada enquanto o leo ia fechando o cerco,
acordei com as


pisadas na minha retaguarda. Mas quem me detesta tanto assim para me
atacar at no sonho? quis
saber e nesse instante vi minha imagem refletida no espelho.

18 de janeiro

Volto  antiga cidadezinha em busca dos meus fantasmas. Entro no velho
Hotel dos Viajantes sem
viajantes e vejo que ningum me reconhece e eu no reconheo mais
ningum. Saio sem ser vista. J
 tarde e o Largo do Jardim est deserto na noite fria. Fecho o casaco e
me sento num banco. A igreja.
O

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coreto. Olho as casas fazendo um crculo em redor do jardim e no sei
mais qual delas teria sido a
nossa, so parecidas na decadncia e no escuro. Me levanto num susto: no
era detrs daquela figueira
que minha pajem gostava de se esconder? Procuro o Beco das Cocadas. A
casa da velha desapareceu
mas ficou o muro arruinado, coberto de musgo. Passo a mo no musgo mido.
Parece emitir certa
luminosidade e penso que minha me pode estar atrs desse muro, dou a
volta correndo e no
encontro nada. No encontro viva alma, ela usava essa expresso, no tem
vivalma. Nem viva nem? .
. . Sigo pela rua principal que vai dar no cemitrio. Por aqui iam os
enterros importantes com meu pai
na frente entre o padre e o prefeito, ele era o mais alto de todos e
falava alto, as passadas largas, o
padre tinha que arregaar a batina para acompanh-lo. A casa da esquina:
aqui morou o tio que foi
assassinado num comcio, pai da priminha que entrou para o Convento das
Carmelitas Descalas e
morreu logo depois,


eu s queria andar descala quando ela morreu. Fiz no poro um altarzinho
com seu retrato, ia l
acender vela e rezar todas as tardes. Na procisso, no quis minha roupa
de anjo, queria uma roupa
igual  de Santa Teresinha do Menino Jesus. Depois, no pensei mais nem
nela nem no altar, ganhei
um par de patins. O porto preto com as rosceas de ferro, corolas de
quatro ptalas de hastes
entrelaadas nas grades. Espio. No quintal onde brincvamos juntas tudo
est escuro e quieto. Passo
as pontas dos dedos na mureta onde ficava o prego com a chave do cadeado,
encontro o furo do prego.
Olho para trs. O que julguei ser o vulto do tio  apenas a sombra da
minha sombra que a lua verde
projeta na calada.

No dia seguinte, enquanto me serve o caf da manh, o dono do hotel conta
em voz baixa que na noite
passada foi visto o fantasma de uma mulher

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que atravessou o jardim, vagou pelas ruas e becos e sumiu na direo do
cemitrio.

No princpio era o caderno

Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d'alma
(em prosa e em verso)
nos dirios de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou
pombinhos brancos levando
um corao no bico. Nos dirios mais simples, cromos coloridos de
cestinhos floridos ou crianas
abraadas a um cachorro. Depois de casadas, no tinha mais sentido pensar
sequer


em guardar segredos, que segredo de mulher casada s podia ser
bandalheira. Restava o recurso do
caderno do dia-a-dia, onde, de mistura com os gastos da casa
cuidadosamente anotados e somados
no fim do ms, elas ousavam escrever alguma lembrana ou uma confisso
que se juntava na linha
adiante com o preo do p de caf e da cebola.

Os cadernos caseiros da mulher-goiabada. Minha me guardava um desses
cadernos que pertencera 
minha av Belmira. Me lembro da capa dura, recoberta com um tecido de
algodo preto. A letrinha
vacilante, bem desenhada, era menina quando via minha me recorrer a esse
caderno para conferir
uma receita de doce ou a receita de um gargarejo. "Como mame escrevia
bem! - observou mais de
uma vez. - Que pensamentos e que poesias, como era inspirada!"

Vejo nas tmidas inspiraes desse caderno (que se perdeu num incndio)
um marco das primeiras
arremetidas da mulher brasileira na chamada carreira de letras - um
ofcio de homem.

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Sur mon coeur amoureux

Durante o dia, como os vampiros, Iracema ficava completamente sumida,
chegava com a noite. Ento
eu abria a janela e ela entrava silenciosa, limpa. Nunca perguntei pelos
seus negcios l fora:
aceitava-a simplesmente. Tudo bem, Iracema? Ela andava um pouco pela
sala, roava o focinho
pesquisador nos mveis, fixava-se mais em algum objeto e depois de
verificar que as coisas
continuavam sem novidade, como na vspera, infiltrava-se por entre meus
ps, traando um meio
crculo


- um afago? Deitava-se no centro do pequeno tapete e ali ficava na sua
posio de esfinge, as patas
dianteiras recolhidas contra o peito, os olhos luminosos. Sua presena
tranquila agia em mim como
um tranquilizante, tudo bem, sim. Tudo bem.

Comprei duas tigelas de barro, uma para o leite, outra para a carne.
Comia sem se afobar, com
elegncia, sem demonstrar qualquer fastio, o que seria indelicado: o
apetite exato. Depois, a toalete,
as patinhas brancas to brancas, intactas as luvinhas de arminho que
recolhia, como os mandarins
escondendo nas mangas as pontas dos dedos.

Os mandarins. Quando andei pela China, eles j tinham desaparecido.
Tambm no vi nem cachorro
nem gato. Mas por que em Pequim no tem gato? perguntei a Mister Wang e
ele sorriu o chamado
sorriso amarelo: "No podemos sustentar bichos domsticos, madame.
Estamos reconstruindo nosso
pas, esses luxos ficam para o Ocidente". Tive vontade de lhe dizer que
no gostaria nada de morar
num pas sem bichos: cachorro ou gato  sempre um fragmento do Paraso
Perdido. Como viver sem
um pouco desse fragmento nas cidades de cimento e ferro?

Iracema era a presena do Paraso na nossa sala

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de visitas sem visitas, estvamos pobres. E pobre no tem mesmo atrativo,
a atrao maior ainda era
eu com a minha juventude e minhas aflies, muito cedo para se falar em
angstia existencial e outras
angstias, a moda viria mais tarde.

Voc sabe latim? Me ajuda no latim  pedi lhe mais de uma vez.


Nunca teria feito pedido igual a um cachorro, mas gato tem um certo ar de
latinista que vai at a raiz
das coisas, me ensina! supliquei rodopiando com ela no ritmo de valsa,
tinha uma valsa no
toca-discos. Pulou do meu colo, gato no gosta de dana, gosta de poesia,
rios de poetas foram se inspirar em gatos com suas emanaes de
sortilgio. Magia.
Fragmento do Paraso, eu disse. "Mas tem parte com o Diabo" - disse minha
tia que chegou a se
benzer quando Iracema, do fundo da noite, varou como uma seta a nossa
janela e - vupt! - foi cair de p no meio da sala. Sagrados e profanos.
Por que s vezes as orelhas se aguavam para trs, pontudas, malignas, e
o plo se eriava eltrico, o rabo na vertical. Tambm o olho diferente,
o verde invadido pelo negro da pupila dementada, retida apenas por um aro
de brasa - por que a metamorfose? De curta durao, ser Diabo  por
demais laborioso e ela era uma indolente, companhia voluptuosa dos
contemplativos. Das bruxas cismarentas. Dos amantes na idade da razo e
depois ainda, memria e cinza. Amei meu gato quando descobri Baudelaire,
viens mon chat, sur mon coeur amoureux. . .

Meu corao queimando e Iracema impassvel, a carta que no chegava e
Iracema, o telefone mudo e
ela - vai, Iracema, fala por que ele no me ama, fala!? E o beau chat
desligado. Brigamos, ou melhor,
eu briguei. Um cachorro teria vindo me consolar, lamber minhas lgrimas,
fazer piruetas para eu rir,
mas Iracema era uma comodista, voc  uma como-

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dista, uma aptica! Eu aqui rolando de aflio e voc com essa cara de
lata, ah! por que no tenho um
cachorro. Ela ento me deu as costas e ficou voltada para fora, olhando a
lua. Depois, sem uma
palavra, pulou a janela e sumiu.

Dei-lhe dose dupla de leite quando descobri que estava grvida, era mesmo
gata. Ficou mais bonita,
mais suave. Os grandes olhos midos me interrogavam com certa
insistncia, acalmei-a: este  o
caixotinho que preparei para voc, est vendo? Vai ficar aqui junto da
janela, voc vem e pula nele,
forrei com panos, veja que quentinho. Ela aprovou. Forrei o cho com uma
espessa camada de
jornais, fiz recomendaes  vizinha que ficou com a chave do apartamento
e partimos para minhas
frias de janeiro.

Quando voltei, o porteiro do prdio veio me dizer com aquela indiferena
to indiferente que minha
gata tinha morrido. Achou-a de manhzinha no telhado, ao lado da janela
fechada, na pressa da
viagem minha me esqueceu de deixar ao menos uma fresta. Estava morta com
os dois gatinhos
prematuros, na vspera tinha desabado uma tempestade.

Outras casas, outros bichos, mas aquela Iracema. Vejo-a em pensamento
arranhando o vidro da
janela, tentando entrar e peco-lhe perdo pela janela fechada. E por
aquela nossa briga, quando me
deu as costas e ficou olhando a noite.

17 de janeiro frica

Nas minhas andanas, fui parar na frica e l conversei com aqueles


homens da UNESCO, os bons, no os burocratas. Um deles me disse: "Cada
vez

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que morre um velho africano  uma biblioteca que se incendeia".

Fiquei pensando no nosso ndio. Pensando na Amaznia, ndio, escritor e
rvore - as trs espcies em
processo de extino. Condenadas ao aniquilamento, o ndio
principalmente. Ser que antes de
chegarmos  soluo final do nosso problema indgena teremos tempo de
captar um pouco da sua arte
e de sua vida, nas quais o sagrado e a beleza se confundem para alimentar
nossa cultura e nosso
remorso?

Senso de humor

Na minha idade de ouro, costumava fazer - e refazer - uma hierarquia de
valores e nessa hierarquia a
coragem ocupava o primeiro lugar. A virtude maior. Coragem de amar e
desamar, coragem de morrer
e desmorrer, coragem da clera, da tristeza
-  Deus! - at nos enterros as pessoas to contidas, to exemplares. Se
controlando para no chorar
alto porque se o choro fica forte, j vem algum com a plula, a injeo,
o analista: fechar as portas, as
janelas, os buracos. At os anjinhos de Giotto se desesperaram diante de
Jesus crucificado, l esto
eles no cu, arrancando os cabelos, os olhos inundados de lgrimas. Mas o
homem tem que ficar no
nvel, sem transbordar. Sem claudicar: claudico, claudicas, claudicavi,
claudicatum, claudicare. A
origem naquele imperador Cludio, que mancava. Ento se a gente d uma
mancada, j vem a terapia
de apoio: pisar


firme. No chore, no tussa, no ria, isto , ria discretamente porque
seno o prximo j vem pegar no
seu brao, ficou de porre? No, no

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 isso no,  que estou contente, com vontade de cantar, queria cantar,
posso?

Medo de desafinar - ai! - que duro o julgamento desse prximo, medida de
todas as coisas. To atento
o nosso prximo. Atento e desatento: condena, absolve, aconselha,
desaconselha e depois vai tomar
chope, esquece. O objeto do julgamento - o ru - levando tudo to a
srio, fazendo e desfazendo. E o
outro, como no poema, tirando ouro do nariz.

Neste sistema burgus, onde s tem importncia a aparncia, com todos
defendendo ferozmente essa
aparncia, incluindo-se os neurticos mais angustiados ainda porque
reprimidos - dentro desse
mecanismo, comecei a superestimar a coragem. Emocionada com o rei que
antes do grito da criana,
"mas ele est nu!", espontaneamente se reconhece em sua nudez, exposto
por inteiro, face e corao:
aqui estou.

Mudei de pensar. Melhor ainda do que ter coragem  ter senso de humor,
dom mais raro. E mais
ntido. H todo um leque de ambiguidades na conceituao do comportamento
corajoso,  coragem
cortar os pulsos? Se atirar de um vigsimo andar? E o soldado que acerta
em cheio a bomba de
napalm no vilarejo e recebe medalhas e tratamento de heri

- esse  um bravo? Desertar pode indicar coragem. Tambm ficar.

No reconhecimento do humor no h equvoco. Ou existe ou no existe e seu
portador sabe disso, o
portador e os que esto em redor. Tente fingir BOM humor perto de uma


criana. De um cachorro. Faa aquelas caras, a voz postiamente mansa. O
cachorro vem, fareja os
fluidos, sente o peso da aura

- uma barra - e vai saindo com o rabo entre as pernas. BOM humor  charme
e as pessoas querem ser
charmosas, os polticos em primeiro lugar, no 

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com vinagre que se apanha mosca. Mas se esmerando embora na
representao,  difcil para o
fingidor sustentar por muito tempo a mscara do BOM humor, o mascarado se
cansa e acaba se
descobrindo.

Sense of humour. Mas o que vem a ser afinal esse senso de humor? Difcil
a definio. Mas sabese o
que ele no : no  a graa irreverente das anedotas na boa tradio
lusitana ou carioca, o repertrio
pornogrfico do anedotrio oral e escrito  delirante, includas as
histrias em quadrinhos. Mas no se
trata disso: nem piada obscena nem bem-comportada. O humor tambm no
reside no humor negro
do anedotrio tragicmico. No confundir ainda o senso de humor (que pode
ser adquirido e, nesse
caso, maior o mrito) com o humorismo profissional de teatro ou
televiso, o profissional ri e faz rir
por ofcio. Longe do pblico, fecha seu repertrio, est descansando. E
no descanso pode ser at um
malhumorado, um chato.

Em seu estado puro, o senso de humor no  negro nem vermelho nem azul
mas tem as sete cores do
arco-ris numa faixa s. Nem


ertico nem puritano, no tem implicaes de ordem tica mas esttica, o
bem-humorado  um esteta.
Uma filosofia de vida? Digamos, uma doce filosofia que nos permite
vislumbrar uma certa graa nas
coisas desengraadas. Sem sarcasmo, que o sarcasmo  cruel. Sarcasmo 
veneno. E o senso de humor
 que nos impede de virarmos uma esponja de fel, a casa pegou fogo? O
louco bem-humorado d uma
volta em tomo, tira o cigarro do bolso que no existe e acende o cachimbo
numa brasa do fogo.

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Os visitantes

Quando acordei, vi um diabinho montado no meu peito e outro no teto,
dependurado no lustre.
Coava o ouvido com o rabo. Olhei para um, olhei para outro e no senti
nem medo nem curiosidade,
no senti nada, absolutamente nada. Ausncia de emoo de qualquer
espcie, o oco. Inerte, branca,
fiquei olhando e meu olhar era exaurido como um sol apagado, s memria
do outro sol mas sem
nostalgia. Sem sofrimento. O diabinho mais prximo viu minha indiferena
e ficou de p no meu
peito, se desmanchando em caretas para me impressionar. No me
impressionei: tinha chegado o fim
do amor e desse incndio no restara pedra sobre pedra, osso sobre osso,
Roma de trs para diante
com letra por letra queimada e reduzida a carvo. Ora, que me importa, eu
disse. Vocs a, que me
importa. Rolei a cabea no travesseiro e minha cabea era opaca sem o
gorro de pedras fulgurantes


que durou enquanto durou a aventura. Fiquei olhando a parede vazia, os
olhos tambm vazios.
Quando os abri de novo, os diabinhos j tinham ido embora, podia imagin-
los murchos, de rabo
entre as pernas, saindo em fila do quarto. Perdi meus demnios, pensei.
Infernizada, eu poderia voltar
 luta, reagir na clera e quem sabe ento a esperana, ei! onde  que
vocs esto? chamei-os. Voltem,
pelo amor de Deus, no me abandonem, voltem! A janela se abriu e o vento
espalhou o punhado de
cinza fria que restara no meu peito. O cheiro de enxofre foi
desaparecendo.

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A nave dos loucos

com muita nfase um psiquiatra declarou que o nmero de loucos na nossa
cidade aumentou
assustadoramente. Grande novidade. Era como se estivesse nos informando
que o mel  doce.

Nem ser preciso fazer pesquisas, acumular nmeros, basta dar um giro
pelas ruas e j nos sentimos
passageiros da prpria nave desatinada, solta no mar profundo.
Profundssimo -  meu Deusinho!
quem vai me trazer de volta ao porto?

Nos usos e costumes da Renascena estava includo esse original sistema
de enfiar os loucos todos
dentro de um navio e lan-los ao mar: um pouco de po, de gua (raes
que durariam trs, quatro
dias) e eis a nave vogando em meio dos ventos, arrecifes, tempestades,
adeus! Adeus. Soluo rpida
para o problema demorado: o mar  grande mas Deus ainda  maior. Quem
sabe ento esse Deus se
ocuparia desses inocentes? Hem? E onde fica o gro do acaso? Do
imprevisto? Ao invs de dizer,
meu irmo est trancafiado numa cela,


to mais potico dizer ele foi pr mar. Est no mar! Tanta gua, tanta.
Nela tambm se lavavam as
mos.

Neste nosso tempo as naves ficam em terra firme. Nada difcil o
passaporte para o embarque nos
asilos, sanatrios, clnicas de repouso, institutos dezenas de nomes,
rtulos que variam com a
condio econmica do passageiro. Se  louco pobre, nada de cerimnia, 
hospcio mesmo.

"O louco come merda", dizia a minha pajem. E eu ficava preocupada porque
levava a coisa ao p da
letra. S mais tarde entendi, ela queria se referir ao sofrimento, louco
sofre demais, principalmente
louco do Brasil. E l fora?

P. E. tem um amigo psiquiatra, Jean Oury, diretor de uma clnica nos
arredores de Paris. Instalada

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num antigo castelo em meio de um prado verdejante, com os enfermos soltos
por ali, confundidos
com os mdicos, com os enfermeiros, me pareceu o prprio paraso da
loucura. Se um dia
enlouquecer, posso vir pra c? perguntei e Jean Oury teve aquele sorriso
lento mas com uma ligeira
ponta de preocupao: no dia anterior (soube depois) uma jovem
esquizofrnica tinha se afogado no
rio que passava pelo bosque, ela gostava de passear nesse bosque. Pensei
logo em Oflia coroada de
florinhas, descala, cantarolando at mergulhar na gua, os longos
cabelos misturados s ervas
verdes, flutuando com os juncos  literatura! Por


que as coisas nos parecem sempre belas quando protegidas pela distncia?
O castelo com suas torres
brancas, com seus loucos passeando numa outra lngua. . . Vista naquelas
lonjuras, at a sinistra
stultifera navis no chega a ter um certo encanto? A ambiguidade dos
prisioneiros acorrentados a um
barco completamente livre. No mar livre.

29 de janeiro

"O homem  to necessariamente louco que no ser louco representaria uma
outra forma de loucura",
escreveu Pascal. Deve ter pensado nisso a psiquiatra Karen Horney quando
fez uma lista dos sintomas
bsicos da neurose, uma lista enorme, dela quase ningum escapa. A
loucura no cardpio. Basta ler e
apontar, esta  a minha. Selecionei as neuroses mais comuns e que podem
nos levar alm da fronteira
convencionada: necessidade neurtica de agradar os outros. Necessidade
neurtica de poder.
Necessidade neurtica de explorar os outros. Necessidade neurtica de
realizao pessoal.
Necessidade neurtica de despertar piedade. Necessidade neur-

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tica de perfeio e inatacabilidade. Necessidade neurtica de um parceiro
que se encarregue da sua
vida
-  Deus! - mas desta ltima necessidade s escapam mesmo os santos. E
algumas feministas mais
radicais.

To difcil a vida e o seu ofcio. E ningum ao lado para receber a
totalidade (ou parte) do fardo. Os
analistas, carssimos, t na maioria, um lixo: um lixo Freud considerava a
totalidade dos seres
humanos, isso nos ltimos anos da sua vida sem muita iluso. Ele no
conheceu seus discpulos. E por
acaso


 com o analista que se comenta a fita na sada do cinema? O livro. 
sabor do vinho, esse gosto meio
frisante, hem? E esta pele e esta lngua. A minha tiazinha falava muito
na falta que lhe fazia esse
ombro amigo, apoio e diverso, envelheceu procurando um. No achou nem o
ombro nem as outras
partes, o que a fez choramingar sentidamente na hora da morte, mas o que
voc quer, queridinha?! a gente perguntava. Est com alguma dor? No, no
era dor. Quer um padre? No, no queria mais nenhum padre, chega de
padre. Antes do ltimo sopro, apertou desesperadamente aprimeira mo ao
alcance: " que estou morrendo e no me diverti nada!"

8 de fevereiro

Leio hoje no jornal que chegou da Europa um circo importantssimo, com um
mgico estupendo. E o
nome do mgico estupendo  o mesmo do meu tio das mgicas caseiras,
aquele que estourou feito
uma rom madura, o vermelho encaroado saindo pela fenda: "Quero que o
mundo saiba que a minha
morte  um protesto!" - ele gritou escancarando a janela para a rua e
apontando o cano do revlver

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na cabea. Lado esquerdo, era canhoto. Queria que o mundo soubesse do seu
protesto e nem sequer a rua soube, estava deserta naquele feriado. Na
verso familiar, era um homem equilibrado e bom, um
tanto tmido. com mania de mgicas, no me lembro das suas feies nem da
sua voz, me lembro das longas mos silenciosas fazendo aparecer e
desaparecer cartas do baralho, lenos,


flores, usava um leno branco com as quatro pontas aparecendo no bolsinho
do palet.  noite,
acendia uma vela e projetava na parede a mmica das sombras, adivinha que
bicho  este! Vieram os
distrbios emocionais agravados por problemas de alimentao, transporte,
dificuldades econmicas, abuso de plulas - teve todos os estmulos que
excitam o desenvolvimento dainsegurana. Do medo.
A cidade propcia  loucura. Mas no oferecendo jamais a mesma
propiciao quanto ao tratamento.
Mdico caro. E raro. Os estabelecimentos psiquitricos enfartados de
doentes. Nas clnicas
particulares, nem pensar porque alm do doente teriam que deixar um saco
de ouro em p. A soluo que ele encontrou para no voltar a ser
internado foi se matar. Sob protesto.

Soluo melhor  no enlouquecer mais do que j enlouquecemos, no tanto
por virtude, mas por
clculo. Controlar essa loucura razovel: se formos razoavelmente loucos
no precisaremos desses sanatrios porque  sabido que os saudveis no
entendem muito de loucura.  jeito ento  se virar em casa mesmo, sem
testemunhas estranhas. E sem despesas.

25


15 de fevereiro

Aperto o boto e comea a sucesso das cenas das enchentes afogando
cidades, tragdia a cores 
mais demaggica do que em preto e branco: casas com gua at o telhado,
os moradores amontoados
no telhado - um menino segurando um cachorro, uma galinha enrouquecida,
os ps amarrados, a
crista vertendo sangue. Barquinhos com seus barqueiros

inexperientes lutando contra a correnteza das guas lamacentas que
arrastam nos seus rodopios tufos de folhagem, destroos de mveis, pneus
desgarrados numa fria incontrolvel para chegar - chegar onde?

Choveu. Ento os rios transbordaram (esto sempre transbordando) e devido
aos esgotos entupidos
(esto sempre entupidos) as guas subiram e buscaram tumultuadas seus
prprios caminhos que por
coincidncia so os caminhos dos homens. Dezenas de afogados.
Desaparecidos. Desabrigados que
apontam vagamente para o lugar onde devia estar a casa, a mulher, o
cachorro. Os olhos secos de um
homem que aperta a boca sem dentes, de cantos cados, o esgar  o da
mscara da tragdia, apenas
essa no  mscara de teatro mas a face viva da dor humana: ele podia
enlouquecer mas no
enlouquece, podia morrer mas no morre. Abre as grandes mos sujas de
terra, balana o corpo
magro, batido pelo vento, fecha os punhos mas o cinegrafista j desviou a
mquina para a mulher
sentada numa lata. A reprter faz perguntas, quer saber o que a mulher
perdeu na enchente. A mulher
coa o brao, junta os ps descalos, encolhe os ombros: est
desinteressada, j viu antes essa gente,
no viu? E perguntando as mesmas coisas, j viu antes essa mquina,
talvez a mesma moa das
perguntas. J faz tempo que isso se repete. Coa a perna, tira da saia um
fiapo r'e linha. Olha

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em redor. A mquina (o cinegrafista  hbil) acompanha esse olhar que

percorre o cenrio de desolao e morte. Os detalhes, h uma boneca sem
braos meio enterrada no capim mas a cara de celulide est intacta. O
menino de barriga inchada e short comea a rir, envergonhado, se
escondendo da mquina.  preto e por isso os cacos de dentes parecem
excepcionalmente brancos. Quando tapa a boca e se agacha, a mquina o
abandona e se fixa na velha que enxuga os olhos na manga do casaco, ouve-
se a palavra epidemia e a reprter ressurge no primeiro plano para avisar
no seu tom enrgico que h perigo de epidemia porque as vacinasainda no.

16 de fevereiro

As dores agora so fisgadas mais violentas, entremeadas com raios
fulgurantes, minha cabea fica
azul. Tomo outra dose dupla de Beserol e you me sentindo buclica,
bovina.  a trgua. Fico
mastigando devagar um caramelo de leite no ritmo das vacas ruminando
ervas, a sonolncia meio
torpe, me assusto, a baba verde, no! Peo a P. E. que telefone ao primo
R., quero saber que
providncias tomar se a dor ficar insuportvel, ele j teve que vir de
madrugada para me aplicar uma
injeo de morfina e hoje  sbado, dia em que os doentes pioram. Nos
sbados, domingos e feriados
(os mdicos na praia)  que sobe a febre e o brao quebra e o apndice.
Farmcias e caminhos
fechados.

Cabreiro - esse o nome de origem popular e rural. Eu teria roado em
alguma folhagem por onde
passou alguma cobra ou me enxugado numa toalha por


onde ela teria deslizado -  Deus - at quando essa serpente vai nos
perseguir?!

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Fui ver no dicionrio Aurlio a definio de herpes. Fixei-me no tpico
herpes-zoster, erupo de
vesculas, de um lado s do corpo, acompanhando o trajeto de um nervo.
Fiquei repetindo o nome (de
origem grega) que quer dizer rptil: herpes, herpes. Carregando no  a
sonoridade se agua num silvo
rastejante, perigoso - mas por que na minha cabea? Dos piores lugares,
precisamente na central
eltrica da dor, quando levantei o cabelo perto da nuca, l estava no
couro cabeludo o longo vergo
rubro, cobrinha ardente. Latejante. A cura? Benzeduras, o malefcio s se
corta com rezas, alecrim
queimado, fumo e teia de aranha de mistura com outras substncias no
identificveis que a feiticeira
da fazenda preparou no seu fogo de lenha. Porque a medicina  meio vaga
a respeito dessas mazelas
que devem fazer parte do rol das doenas tropicais, indevassveis como a
hilia amaznica: o vrus se
desenvolve, atinge seu esplendor (as dores mais fortes) e depois morre a
prazo fixo, dez dias?
Quinze? Perfeita a explicao cientfica mas me inclino para os mistrios
ofdicos.

17 de fevereiro

Entro no sol, atravesso seu corao vermelhoclido e acordo num campo de
ouro que pode ser
tambm um mar. Noite. A nvoa foi ento subindo do cho ou da gua,
subindo rpida at meus
joelhos, subiu mais, atingiu meu peito e quando


chegou quase na altura do meu queixo, fui tomada de pnico,  a morte. 
a morte, pensei me
debatendo, tentando me livrar da nvoa que j atingia a minha boca,
ultrapassou-a: ento respirei
leve, transparente, mas era isso morrer? Abri os olhos para a manh

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que me varou com sua luz e eu era mais lmpida do que a manh. Fiquei
calma, uma doce vontade de
no ser quando me deitei de bruos no alto da montanha e fiquei vendo l
embaixo os rios rolando.
Cruzavam-se e as guas ondulantes iam formando na base da montanha um aro
movedio:
inclinei-me para ver melhor, no, no eram rios de gua mas rios de
gente, rios humanos - indo para
onde? Os mortos. So os mortos, pensei. Nesse instante, algum destacou-
se de um daqueles rios e
veio subindo a montanha na direo onde eu me encontrava. Esperei. Na
metade do caminho vi que
era uma mulher. Os trajes eram de uma antiga dama egpcia, as mos
cruzadas sobre o peito, os olhos
pintados de lpislazli. Aproximou-se e a uns dez passos apenas de
distncia, parou e ficou me
olhando. Havia em sua expresso qualquer coisa que me pareceu familiar, o
que era? Sorriu e de
repente me vi sorrindo no seu sorriso - o seu sorriso era meu e meu
aquele rosto que me encarava
como num espelho. Animei-me: eu fui voc! gritei. Um dia, num outro
tempo, eu fui voc! Ela moveu
afirmativamente a cabea. Fiquei feliz com a descoberta, tudo no passava
de um transformar
contnuo, no era simples? E agora? lembrei-me de perguntar. O que you
ser agora? No fundo do seu
sorriso senti uma certa malcia que me fez sorrir


tambm. Voc vai ver, respondeu sem palavras. Levantou a mo espalmada,
que eu esperasse: voc
vai ver. No seu passo que mal tocava o cho, foi descendo a montanha, a
silhueta esguia e reta
seguindo a mesma trilha da subida. Mesmo sem distinguir-lhe as feies
pude adivinhar que estava
sorrindo quando me olhou pela ltima vez antes de se integrar ao rio,
voc vai ver. No me dir nunca,
pensei mas isso no tinha mais importncia, eu estava contente ali na
montanha de sol, mascando um
favo de mel, fechei os olhos. Dormi.

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20 de fevereiro

No posso ler nem escrever. Ligo a televiso. Plumas, pedrarias, dourados
-  o desfile do carnaval
milionrio. Os holofotes esto tontos, tonto o cinegrafista porque os
apelos so excessivos, tudo 
importante, focalizar o passista  perder a mulata que j vem vindo no
auge, fantasia de estrela, hora e
vez da estrela no carro de glria mas cuidado! que os lams e lantejoulas
no cubram os seios, o
ventre, o traseiro - cmera abre no traseiro rebolante. Corte para o
passista, um menino vestido de
prncipe que desaparece sob o leque de plumas vermelhas e ressurge logo
adiante, num salto que  um
voo corte para o pblico aplaudindo delirante. Cmera abre na rainha
rodopiando com seu estandarte,
a rainha avana e o enfoque vai para o ventre de uma sambista com o rubi
encravado no umbigo,
cmera lenta para o detalhe do umbigo no meneio desossado, os seios, a
boca que se abre e os


colares se abrindo no giro desvairado. Corte para o fiscal-feitor de
terno branco e palheta, no sabe do
olho da cmera e por isso no disfara, est desesperado, o jri que
classifica, desclassifica, nega ou
d a verba pode estar vendo a baiana que desmaiou de cansao, vocs a!
mais depressa, depressa! repete e corre at o passista, cmera abrindo no
passista que capricha vida? Morte? Corte para o jri, detalhe da mo
segurando o copo, enfoque maior para o polegar do Csar nopalanque, vida?
Corte. Cmera abre em Garrincha num trono dourado. O detalhe dos olhos
cheios de lgrimas, est perplexo como um boneco que no entende - heri
usado e desusado, smbolo dos deuses cados, j rendeu?  um enfeite para
emocionar o pblico que aplaude, grita. Corte para um negro da
arquibancada, o negro chora, levanta os braos, Cmera lenta acompanhando
a boca desden-

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tada que diz Gar-rin-chaaaa, Gar-rin-chaaaa. . . Corte rpido para a
cantora que d uma entrevista,
est suada, rouca, diz que adora o carnaval e que vai ganhar quem merece,
quer falar mais e o coro vai
cobrindo a voz como uma vaga espume j ando na avenida, as guas vo
rolar! / garrafa cheia eu no
quero ver sobrar! Cmera abrindo no carro alegrico com um Pierr de
cetim branco, o bandolim de
lantejoulas, ele ri e faz gestos largos de quem toca


o bandolim. Atira beijos. Corte para a ambulncia, a luz vermelha
acendendo e apagando, a sereia, o
aglomerado na calada, corte para uma mulher chorando e gritando. Corte
para o pblico da
arquibancada, detalhe da criana fantasiada de bailarina, dormindo no
colo da me. Cmera abrindo
na cara da mulher que ri e grita, j ganhou!

Aperto o boto e a tela vai se fechando. A plpebra. A penumbra. Os
ltimos sons demoram um
pouco no ar ainda tumultuado. As ondas vo submergindo.

2J de fevereiro

Por que no lhe disse antes? Apert-lo demoradamente contra o meu peito e
dizer. No disse porque
pensava que tinha pela frente a eternidade. S me resta agora esperar que
acontea outra vez,
vislumbro esse encontro - mas you reconhec-lo? E you me reconhecer nos
farrapos da memria do
meu eu? Peo que me faa um sinal e responderei ao cdigo secreto na
noite e no silncio dos navios
que se comunicam quando se cruzam no mar.

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O sonho

Nasci junto com o dia. Ento me lembrei que j tinha nascido na vspera e
vi que no ia nascer mas
ressuscitar. Duas mos se colocaram firmemente nas minhas costas e me
empurraram para fora da
cama, vai! A estrada comprida. Opaca. A ventania levantou meu cabelo e
disse dentro do meu ouvido
que era preciso calar sapatos de ferro. Olhei para os meus ps
descalos. Ento ela me levantou em
seus braos - a ventania tem


braos - e me depositou no fundo. A gua transparente. Morna. Quis subir
mas pesava meu corao de
ferro inoxidvel, tem um tesouro dentro? perguntei quando os peixes
menores comearam a nadar em
crculos em minha volta e depois se afastaram sem olhar para trs. Agora
estou s na estrada e  noite.
No cu, as estrelas seguem em cardumes cintilantes, como os peixes. O
silncio. E a floresta escura
me esperando l no fim. Sei que no posso voltar e a floresta ficando
mais perto, o medo, quero
assobiar como aprendi nas histrias, tinha sempre um viajante que
assobiava para espantar o medo
mas o sopro que sai da minha boca

- fogo e gelo - no tem nenhum som. Vejo ento um homem de sobretudo
preto e chapu desabado
caminhando firrne na minha frente. Tem as mos metidas nos bolsos e anda
com segurana, sem
olhar para os lados na sua marcha decidida em direo  floresta. Me
animo, tenho companhia, you
com ele! resolvi e eis que um homem semelhante apareceu com seu sobretudo
e chapu, andando
alguns passos atrs do primeiro. Um  o Bem e o outro  o Mal

- algum me avisou ou descobri de repente. Parei sem saber qual escolher,
nenhuma diferena,  to
iguais! E a floresta mais prxima, a opo rpida, aquele? Os dois
prosseguindo implacveis, qual era
o Bem? O outro? Quis rezar a reza da infncia mas

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e as palavras? No enxergava as palavras e a estrada se acelerando,


virou uma escada rolante, me equilibrei no ltimo degrau, depressa!
resolvi correndo at o homem
que ia na frente. Entramos na floresta.

Domingo

Chove mas no tem importncia porque a chuva no perturba o espetaculoso
concurso do baile de
fantasias. E agora a atmosfera  de solenidade, as fantasias so solenes:
reis, rainhas, imperadores e
deusas desfilam gravemente porque sustentam nas frgeis cabeas coroas
pesadssimas, pirmides,
gndolas, jardins suspensos da Babilnia, isso sem falar no peso que
carregam nos ombros onde se
equilibram asas, conchas, polvos, raios - quilos de pedrarias e cetins e
acrlicos. Brava gente que
disfara o calor, o cansao e a ansiedade com gestos melfluos. Sorrisos.
Mesuras. O detalhe do suor
escorrendo sob as perucas e turbantes, formigando o brao que equilibra o
sarcfago em miniatura de
Tutancmon - mas e a fibra? Fibra de Atlas na postura perfeita,
sustentando o mundo.

Me lembrei que um executivo de carnaval  dono de um banco de sangue e a
denncia feita  que ele
estaria comprando o sangue dos folies a baixo preo, vampirizando os que
esto dispostos a vender
at a alma, tivesse a alma alguma cotao no mercado: meu sangue por uma
peruca! E as
multinacionais no meio. O Atlas dessangrado levanta num ltimo esforo o
seu mundo na forma de
um estandarte.

Oh tempos! Oh costumes! Em latim a exclamao ficaria melhor mas o latim
foi afastado das escolas.
Das igrejas. Me pergunto se ter algum re-

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sultado acordar a conscincia dos exploradores (e deformadores) dessa
festa que est nas nossas mais
fundas razes. A indstria do carnaval, do futebol, das enchentes. Etc.
Me pergunto se ser justo
acordar qualquer conscincia. "No me despertes se sonho!" - pediu dom
Quixote. A diferena  que
o sonho quixotesco era s desejo de amor.

Testemunhar o seu tempo - respondi a um jovem que me perguntou qual  a
funo do escritor. Volto
para a minha mquina de escrever e peo a Deus que me ajude.

Gelia de ma

Quando subi no noturno, o chefe veio me avisar que minha companheira de
cabine, uma senhora
muito distinta, ficaria com o leito inferior, isso se eu no fizesse
questo. No fiz questo. Quando
voltei do carro-restaurante, a velha senhora j estava recostada nos
travesseiros, comendo biscoito
com gelia. Usava uma camisola de flanela com florinhas azuis, os olhos
tambm azuis - s faltava a
touca de rendinhas para compor a gravura antiquada da velha dama
insistindo para que eu aceitasse
um biscoito com gelia de mas colhidas no seu prprio quintal, foi a
nora que lhe mandou a receita,
eu no gostava de gelia? Sentei-me na beirada da cama e na semi-
obscuridade da cabine (acesa
apenas a luz embutida na cabeceira) pude ver que sob o branco esfarinhado
da velhice ainda lhe
restara alguma beleza, por


acaso era alem? No, nenhuma ascendncia estrangeira, o filho nico 
que se casara com uma
austraca, era mdico. Formou-se, ganhou uma bolsa de estudos na Alemanha
e hoje era um
psiquiatra importantssimo, diretor de uma clnica em

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Viena. To feliz com a mulher, os cinco filhos e os netos, dois
alemezinhos lindos que no sabiam
uma palavra sequer de portugus e era preciso? Limpou os cantos da boca
com um leno de papel que
tirou da sacola e falou com brandura enquanto tapava o vidro de gelia:
saudades? Ah, sim, no incio
a saudade era quase insuportvel mas ela e o marido acabaram se
acostumando, a gente se acostuma
com tudo, no  verdade? A gente s no se acostuma com a morte, ela
disse e a sombra de uma
sombra passou rpida pelos seus olhos transparentes. E pensar que ele
estivera  beira do suicdio!
sim, esse filho to bonito, to brilhante, as melhores notas da turma.
Mas sob aquela aparncia to
disciplinada, to saudvel se escondia um segredo terrvel, soube naquela
noite mesmo, quando ele
chegou e se trancou no quarto e ela desconfiou, abra, filho! pediu
batendo com os punhos na porta, o
marido viajando, a empregada fora, abra esta porta! suplicou porque via
como se a porta fosse de
vidro o desespero dele, em prantos, escondendo o revlver debaixo do
travesseiro, abra esta porta,
filho! Quando se deitaram  que sentiu aquela coisa dura sob o
travesseiro de penas, levou-o depois
no bolso do roupo e


ele...

No solavanco mais forte do trem apagou-se a luz da cabine, s ficou a voz
subitamente rejuvenescida
no estilo seco, galopante. O jovem era um edipiano feroz que muito cedo
descobriu que a impotncia
sexual vinha desse complexo, dio pelo pai, paixo pela me, aquela
embrulhada que
desesperadamente tentou desembrulhar com amores devassos, amores castos,
tentativas com
donzelas, prostitutas, negras e arianas, lsbicas e homossexuais, quem
sabe era um homossexual
enrustido? Antes fosse e o drama seria solucionado, mas tudo em vo,
continuava a ansiedade, o
sofrimento: tentou anlises, terapia individual e de grupo, choques,
chegou a recorrer a

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um padre muito bonzinho que fizera sua primeira comunho, ficaram amigos,
pensou mesmo em
entrar para um convento mas desistiu, outra fuga? Voltou  vida dupla
porque teve que se dividir em
dois, o moo estudioso, tranquilo e o outro - o delirante na busca que
no lhe dava trgua, mais outra
tentativa, outra ainda e nada, NADA. O gozo s vinha mesmo na
masturbao, quando se fazia
menino, um nen pedindo o peito, a ejaculao doloridssima suavizada
pela lembrana do leite
morno na boca. Mas por que no me contou, filho?! perguntou tambm
desfeita em lgrimas, a me
sempre a ltima a saber, to contentinha andava com o sucesso do filho. E
ele se castigando na luta
pelas melhores notas, pelas medalhas de ouro nas corridas de resistncia
ou atirando dardo,


peso, disco - ah! se pudesse se flagelar com um chicote! Ento se
deitaram chorando e se consolando,
tamanha a solidariedade e a compreenso que foi com naturalidade que da
compreenso passaram
para a ao num amor que durou essa noite (quando ela achou o revlver) e
se estendeu por toda a
semana que antecedeu a viagem, quando se buscavam e se encontravam no
desejo ntido, sem
tibiezas. Abrasador. Difcil explicar o inexplicvel mas no silncio e no
escuro do casaro foi se
fazendo ordem l dentro dele, as coisas desajustadas se ajustando nos
lugares: rompeu-se o cordo
umbilical e dessa vez para sempre. Ele pde renascer inteiro. E assim
continuava l na bela Viena,
realizado, felicssimo. E no  que em seguida as relaes dela com o
marido (que Deus o tenha!)
tambm se fizeram mais profundas? Mais plenas?

A luz voltou na cabine, azul e to plida que ela mal pde ver as horas
no reloginho de pulso, ih!, que
tarde, queixou-se e a voz voltou to esmaecida como a luz, era uma velha
novamente. Gostava muito
desse reloginho, presente dos netos, pena  que os

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nmeros eram complicados, difcil de entender esses nmeros modernos,
preferia aqueles
tradicionais, grados. Se dormia bem em trem? Como uma criancinha, ah,
adorava esse balano, no
parecia um bero?

Subi para o leito superior. Quando acordei de manhzinha, ela j tinha
desembarcado. Na cabine, um
perfume adocicado de mas.

s vezes Ira



Na Prsia, todos os gatos so persas, os gatos e os tapetes. Eu pisava
nos grandes tapetes do grande
hotel, bebia o vinho dourado e ficava olhando a miniatura to rica em
mincias do rtulo
vermelhoouro da garrafa, queria uma lupa para ver melhor o prncipe de
turbante, tocando um
bandolim - era um prncipe ou o poeta Ornar Khayyam, bebendo e sonhando
no seu jardim? O persa
hedonista que fez vibrar minha juventude puritana quando ensinava que 
preciso beber e no pensar,
beber e esquecer porque amanh a lua talvez venha nos procurar em vo.

No procurou em vo, na noite seguinte eu ainda estava viva para o
coquetel de abertura do festival
internacional de cinema, no ramos amigos mas convidados do rei - o que
 diferente, hem, Manuel
Bandeira? Como pensei no nosso poeta nessa Prsia que s vezes ficava
Ira. Mas espera, agora  a
Prsia dos dossis bordados de ouro, das abbadas azuis ornadas de
estrelas, dos reis e lees alados,
perfis de pedra no relevo das escadarias. Prsia de Isfahan e Pasrgada -
mas ento existia mesmo essa
Pasrgada que Bandeira escolheu como refgio

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sonhado? O poema dos meus verdes anos nas horas de evaso. "Vou-me embora
pra Pasrgada / L
sou amigo do rei". . .

No amigos mas convidados. A emoo quando vi a pedra carcomida da tumba
do rei Ciro, fundador
dessa Pasrgada, mas no pensava em Ciro, o Grande,


pensava em Bandeira, o Poeta. Repeti baixinho seus versos e algumas
pessoas em redor estranharam,
que idioma era esse? E que gente? Espera, ainda estamos no coquetel do
palcio com Farah Diba que
 persa na sua beleza e na sua finura, o Ira do petrleo e das rebelies,
esse ficou l fora. Um Ira que
vamos pouco porque nossas guias to gentis tinham por misso mostrar aos
convidados s o lado
amvel do imprio. Nas raras ocasies em que tentamos a fuga, logo
apareceu a jovem com seu
tailleur azul-claro e francs corretssimo, ficvamos espantados, mas ela
brotou da terra? Pois se no
estava aqui. . . Estava, sim, presena infatigvel que esclarecia,
orientava enquanto quase
insensivelmente ia nos reconduzindo aos caminhos programados, tnhamos um
programa.

Programa cumprido com certa resistncia, ramos indceis, gostvamos de
escapulir das festas
oficiais, todas muito sedutoras com seus vinhos e seu caviar do mar
Cspio, o melhor caviar do
mundo, mido e denso, de cor cinza-chumbo - seduo das sedues. Mas
agora queramos Teer
com a realidade das suas praas, seus mercados. Seu povo. Podamos
transgredir sem remorso, eu
prometera enviar de Paris  nossa anfitri imperial (o longo de musseline
verde-gua, a discreta coroa
de esmeraldas e o discretssimo broche, to leves as pedras que nem
fizeram pender com seu peso o
difano tecido do vestido) a antologia com o poema do nosso poeta em
traduo francesa, "Quando
de noite me der / Vontade de me matar / L sou amigo do rei" - e ento?


No era esse um verdadeiro presente real?

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A lua nascendo vermelho, em carne viva, que lua! eu disse e entramos na
cidade sem festa, no
tnhamos nenhum plano mas por instinto fomos nos aproximando do centro,
l onde devia pulsar o
colrico-manso corao iraniano. Nos perdemos e nesse andar de perdio,
fomos desembocar na
praa fervilhante de gente, no era estranho? Embora as pessoas se
cruzassem e se comunicassem
ativamente, ouvamos apenas murmurejes, vozes midas, reprimidas como nas
rezas. Mas no
estavam rezando, estavam conspirando que esse era o tom da conspirao -
o que tramavam sob o luar
que agora estava lvido? A linguagem impossvel, as caras impossveis das
mulheres veladas. Dos
homens com panos rudemente enrolados na cabea, no feitio de turbante.
Andavam de um lado para
outro, inquietos mas contidos, um jeito furtivo de sombras se entendendo
mais no silncio do que na
fala, olhos baixos, ombros curvos, prontos para - para o qu? Fomos nos
adiantando e eles foram
abrindo passagem para os dois estrangeiros. Desconfiavam, sentimos o
cheiro dessa desconfiana
quase to forte quanto o cheiro do medo, P. E. me puxou pelo brao, vamos
voltar? Mas o caminho
(passagem no mar Vermelho) j tinha se fechado atrs de ns. Um velho
barbudo, de panos e bata
preta me entregou um panfleto e desapareceu em seguida, olhei os densos
caracteres da subverso e j
ia guardar o panfleto quando algum, inesperadamente, o arrancou da minha
mo, aquilo no era para
ns, mas o que queramos afinal? Podem sair daqui! ordenou com o olhar o
homem alto e agressivo
que se ps na nossa frente. Sim, queramos sair mas a praa era


enorme, que direo tomar? O homem nos examinou com seu olhar severo e
fez um pequeno gesto,
que o acompanhssemos. Obedecemos. E paramos estarrecidos: diante de ns,
num claro aberto em
meio do povo, quatro forcas com os

39


corpos dos quatro enforcados pendendo das cordas, parados no ar, as
cabeas entortadas - baixei
depressa a minha, meu Deus. Meu Deus, fiquei repetindo. Meu olhar fora
breve e ainda assim,
guardara tanto: as forcas toscas com os corpos metidos em camisoles, os
ps descalos, encardidos.
Um dos enforcados tinha a cabeleira negra fechada como um capacete, era
jovem. Eram jovens? O
homem que nos conduzia esperava calmamente, ele queria que vssemos,
tnhamos subido (ou
descido?) a escadaria e agora ele queria que guardssemos bem aquela
imagem. A flmula presa ao
tronco de uma rvore devia denunciar o crime dos enforcados, mas era
preciso? Traduzir esses
dizeres? Prosseguimos andando atrs do homem. Eu tremia, a cabea ardendo
e aquele frio repentino.
Eram jovens, sim, os quatro rebeldes. No queria lembrar e lembrava com
nitidez atroz dos ps
daquele primeiro e da lngua. O homem parou. com gesto firme, indicou a
rua que devamos seguir e
sua fisionomia no era mais agressiva, ao contrrio, havia nela apenas
uma polida tristeza. Ousei
ainda um olhar, agora que j estvamos na fronteira da praa: os perfis
negros das forcas com os
corpos pareciam pairar sobre a massa murmurejante. Voltou o detalhe: a
luz da lua na lngua da
mesma cor cinzachumbo do caviar.

18 de maro




Ele estava com um livro na mo mas no lia, olhava em frente, quieto.
Perguntei o que ele estava
olhando. "Estou olhando aqui dentro de mim mesmo" - ele respondeu. E o
que voc est vendo 
bonito? - eu quis saber e seus grandes olhos esverdeados estavam midos e
neles, como num espelho,

40


vi refletido o seu interior. Fui saindo na ponta dos ps.

Da delicadeza

Os delicados preferem morrer - escreveu C. D. A. Mas os delicados aos
quais se refere o poeta no so
aqueles que apanham a luva que caiu, no tempo ern que se usava luva. Ou
que cedem a poltrona na
sala repleta ou que seguram a porta do elevador enquanto as senhoras
esto saindo, no se trata dos
delicados dos manuais de boas maneiras mas de um tipo de delicadeza que
revela a falta de vocao
para a vida.

Os delicados podem ter vocao para o piano. Para o teatro. Para a
poesia. Para o magistrio. Vocao
para a mquina, H. O. era um excelente relojoeiro. S. V. era outro
delicado, um fsico raro que
estudava a estrutura da bolha de sabo. Mas nenhum deles com vocao para
viver. com toda sua
vitalidade, o moo do trapzio voador que s voava sem rede tambm era um
delicado, minha me
tapou meus olhos mas pela fresta negra dos dedos - ela usava luva - vi o
corpo de giz branco ir se
fazendo vermelho na lona do picadeiro, ele queria isso, disse o gerente
do


circo. Ele esperava por isso. Minha colega de Academia no contava as
plulas dos tubos que ia
engolindo, um primo mope tirava os culos para no ver o sangue enquanto
ia cortando os pulsos
com gilete azul - todos os delicadssimos saindo sem rudo pela porta da
morte que  a mais fcil. Sem
olhar para trs.

E os fortes? Na classificao sumria, acho que somos os fortes
simplesmente porque estamos vivos.
E fazendo tudo para seguir nesse estado, mais do

41


que isso! lutando por essa vida e com que obstinao. Provas?
Atravessamos a rua feito um raio para
no sermos atropelados, desviamos depressa a cara quando nela o nibus
sopra aquela fumaa de
enegrecer pulmo de anjo. Bebemos gua filtrada, passamos lcool no
dedinho inflamado,
gargarejamos com sal e limo quando a garganta rateia, corremos 
farmcia quando desembarca no
aeroporto um novo vrus de gripe, todo ano chega um de impermevel e
chapu-Gelot,  meu Pai! o
que de ingente esforo e despesa. A massa de tempo que se canaliza na
luta para manter o corao e
acessrios em boa forma. Em boa postura porque seno a coluna,
compreende? Massagem. Ginstica.
As novidades rejuvenescedoras, tempo de correr. Tempo de sentar. Quilos
de vitaminas. Litros de
poes, mesmo os que parecem distrados esto atentos, fingem uma
displicncia de superfcie
porque no particular, e essa dorzinha no


ombro, hem? Pomadinhas. Lenimentos, cresci ouvindo minha me falar no
lenimento do dr. Sloan,
como guardei esse cheiro! Tantas bulas, tantos doutores, tantas barbas:
Magnsia Fluida do Dr.
Murray, uma colher de ch para as damas de estmago delicado, as damas
eram delicadssimas. Talco
do Dr. Ross para odores, frieiras. E a Maravilha Curativa do Dr.
Humphreys? Um imenso leque de
indicaes, desatei a falar tanto nele que meu filho cresceu ouvindo esse
nome, era menininho ainda e
veio me dizer quando perguntei quem tinha tocado a campainha, " o dr.
Humphreys que quer falar
com

voc

4t


Da vocao

Na vocao para a vida est includo o amor, intil disfarar, amamos a
vida. E lutamos por ela dentro
e fora de ns mesmos. Principalmente fora, que  preciso um peito de
ferro para enfrentar essa luta na
qual entra no s o fervor mas uma certa dose de clera, fervor e clera.
No cortaremos os pulsos, ao
contrrio, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem
muita ferida porque as
pessoas esto bravas demais, at as mulheres, umas santas, lembra?

Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fgado, isso
sem falar no perigo da lcera,
lumbago, p frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances
desse xadrez-chins
imprevisvel. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos
exemplares, no chores que a
vida /  luta renhida. Lutar com aquela expresso de criana que vai
caar borboleta, ah, como
brilham


os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos
de casa certos de que
vamos encontrar alguma... O importante  a intensidade do empenho nessa
busca e em outras.
Falhando, no culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Ns  que O
abandonamos quando
ficamos mornos. Quando a vocao para a vida comea a empalidecer e
tambm ns, os delicados, os
esvados. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa
harmonia, com o falso equilbrio
e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha claro
de amor.

43


19 de abril

"Voc est sempre indo de um lado para outro, voc no pra, mas afinal,
do que voc est fugindo?
- perguntou H. H. Riu. - Seja o que for essa coisa da qual voc est
fugindo, acho que ela no vai te
alcanar nunca."

A moda do Diabo

com D maisculo, jamais fazer o jogo dele que  o de neg-lo neste Tempo
da Provao, o nosso
tempo. Apareceu pela primeira vez sob a forma humana no sculo VI e  dom
Cabrol (nome meio
suspeito) quem o descreve em seu dicionrio como sendo um homem alto e
corpulento, de traos
simples, um tanto rudes. A boca carnuda e o nariz forte fazem pensar num
campons de carter
voluntarioso embora no parea animado de qualquer m inteno. O sorriso
irnico - ele  sorridente
- seria seu nico toque de malcia.

Na


descrio do padre Simenon ele  uma bela e opulenta mulher de boca
vermelha como um talho. E
olhar enevoado, aquela nvoa de fundo de abismo que vem subindo e
nivelando de tal modo o cho
que cavalo e cavaleiro, no trote da inocncia, se despencam na boca sem
socorro, ai! malvada. J em
outras ocasies ele prefere aparecer sob a forma de uma criana negra,
evidente o duplo preconceito
do padre: sexo e raa. Sat pode ser um negro. Ou uma mulher, a prpria
porta do Diabo, na definio
do polemista Tertuliano. Em algumas ocasies ele tomaria ainda a forma de
um belo mancebo de
cabelos louros e olhar demorado: o Anjo Sedutor. Na hora em que as
mulheres castas se deitam (as
perdi-

44


das j esto perdidas) ele canta brandamente ao som de um bandolim, a
msica  necessria. Descerra
em seguida o reposteiro (sculo XVIII) e com seus dedos polpudos, num
gesto irreal de to suave,
comea a carcia na face, resvala a carcia para o pescoo, para o lbulo
da orelha esquerda e em voo
certeiro, para o seio que se contrai sob a cambraia da camisola fechada,
tantos botes! Mas ele prefere
botes ao zper inventado bem mais tarde, boto  mais sensual porque
mais difcil, uns botezinhos
severos que ele contoma, alisa antes de arranc-los bruscamente das
casas, rua! Ela reage, mas o que
 isso?! e ofegante, querendo dificultar, acaba por ajud-lo, mas que
dedos so esses que


agora avanam livres no despenhadeiro, you gritar, desmaiar, acenda a
vela! quer ordenar e apenas
suspira porque os dedos j chegaram  meia-lua do ventre na carcia
circular que vai se espiralando, o
hlito escuro num sopro de fornalha sob o linho dos lenis.

Esse Anjo Sedutor seria a mesma Mulher-Diaba que com seus fartos peitos e
cabelos desatados, toda
untada de leo de rosas, ia atazanar os velhos monges de olhos revirados
no esforo agudo da
resistncia, as rezas se engrolando nas bocas murchas, miserere nobis!
eles repetem enquanto os
corpos encarquilhados vo se umedecendo nos perfumes, mas como uma s
mulher pode cheirar
tanto? Cheira. E destila mel a ponta da lngua rosada que sobe e desce
infatigvel, tarefa rdua da
Mulher-Diaba pesquisar as quase extintas zonas ergenas dos ascetas de
pele de jacar. Chegam a se
iludir, daqui a pouco ela se cansa e desaparece assim como apareceu mas
no corao eles sabem que a
Serpente tem pela frente a eternidade, ai! me ajuda, minha me, meu pai,
meus primos! gemem os
velhos insones, a tentao se enleando na memria do que foram. E do que
poderiam ter sido.

45


O mais sbio, o mais belo dos anjos. Mas ateno, muita ateno para os
ps dos moos pois s esses
ps caprinos (ou de sapo) podem indicar as obscuras origens. Variedade de
formas. De nomes: Sat,
Demnio, Diabo, Adversrio, Prncipe do Imprio do Ar, Maligno, Belzebu,
Serpente, Prncipe das
Trevas,


Mefistfeles, Lcifer - ah! impossvel cont-los. No Evangelho de So
Marcos, ao ordenar que o
esprito maligno sasse de um homem endemoninhado, Jesus perguntou-lhe
pelo nome. "Legio  o
meu nome porque somos muitos", ele respondeu. Meu nome  legio.

Jean Wier, um demonologista inconformado com essa resposta, resolveu
pesquisar e o resultado foi
alarmante: h sessenta e dois prncipes trevosos e sete milhes e
quatrocentos e cinquenta mil
assessores diretos, os diabinhos ou capetinhas, executores de tarefas
menores.

As estatsticas. Que o abade Sereno rejeita porque jamais chegaro elas a
um nmero sequer
aproximado da multido de maus espritos que transitam livremente entre
este planeta enfermo e o
cu. Tantos so eles, mas tantos e to atuantes que chega a ser da maior
convenincia que
permaneam mesmo invisveis. com o que concorda Plato, um ctico na
contagem dos daimones
areos e subterrneos - volantes em disponibilidade e to numerosos
quanto os residentes fixos,
instalados em ns.

Encerrados no inferno? Que esperana! Sabese que antigamente a morada
dessa corte era o deserto,
tinham eles verdadeira paixo pelas areias escaldantes. Mas j faz tanto
tempo que se transferiram
para as cidades, satanizando os frgeis filhos de Deus por demais
desgastados, tanta gripe. Tanta
chateao. Areia  quente mas o corpo humano  mais macio do que areia.
com a vantagem de ser
mais divertido.

46


Satanificao

A Ira, a Soberba, a Inveja, a Luxria, a


Avareza, a Gula e, finalmente, a Preguia, o sonolento Demnio do Meio-
Dia - esses os sete pecados
capitais que j podem ser identificados na satanificao, isso de acordo
com local e hora. Os
diabinhos da Ira esto no trnsito, olhos injetados de fumaa e dio j a
boca espumejando no ranger de
dentes e freios: seis horas da tarde, Hora da Ave-Maria, lembra? Tinha um
quadro que vi em vrias
salas de visita da minha infncia: no doce colorido do crepsculo, um
grupo de camponeses
bem-vestidos e rosados, as mulheres de longos aventais e touca, os homens
de sapates rudes mais
slidos, as mos limpas, os olhos baixos no fervor da prece por entre os
montes de feno dourado,
Ave-Maria - acho que era esse o nome do quadro. Lembro que tinha um
bebezinho louro num cesto
ou bero de madeira, queria eu ser aquele bebezinho, pensei na tarde em
que vi um tipo descer do
carro (ao lado do meu) e verde e aumentado em clera apontar o revlver
para um velho que teria
propositadamente amassado o seu pra-lama. Hora de vtimas de desastres e
da fuzilaria, as armas
esperando no porta-luvas, que luvas? Hora de vtimas dos assaltos, quando
o carro pra no sinal
vermelho e um outro vermelho se acende no peito. Na nuca. Tinha um antigo
programa no rdio nessa
hora crepuscular, as msicas to espirituais, minha me chamava a gente
para rezar junto, s
pensamentos elevados enquanto o chefe de famlia - mas que famlia? Que
chefe?

Os possessos da Soberba evitam as aglomeraes, as


misturas. Portas fechadas, o horror da invaso. Dos nivelamentos. Gostam
das reunies sociais seletas
mas espaosas, onde os peitos estufados, cobertos de medalhas, iniciam a
lenta dana dos paves

47


- poder poltico, poder econmico e outros poderes, varetas dos leques
que se cruzam mas no se
olham, o que digo? se olham para admirar a prpria imagem refletida no
olho do outro. J os
possessos da Inveja tm especial predileo pelos palcios burocrticos e
centros de artistas do baile
das quatro artes,  Deus! como sofrem os invejosos na luta competitiva 
qual so condenados, os
olhos cozidos como os olhos das lagostas em gua fervente, sou Caim
matando meu irmo? Sou
Judas traindo o meu Mestre? O invejoso s tem trgua com a infelicidade
do prximo mas por que no
lugar desse prximo aniquilado nascem dez, vinte vencedores?! Um
sofrimento. De todos os
pecadores, talvez o invejoso seja o que mais sofre embora os possessos da
Luxria tambm rodopiem
sem descanso, as injrias (era assim que minha pajem chamava s partes
baixas) auladas e
trespassadas pelos garfos dos diabinhos luxuriosos, a voz pesada, o olhar
pesado - tantas ruas do
prazer e o desprazer da insatisfao. Os estmulos da indstria do sexo
no auge do aperfeioamento
para o desempenho  altura e ainda a ansiedade, o desassossego na busca
que  s obsesso, sou
caador? Ou caa? Mas essa gente no pensa noutra coisa? - perguntaria


tia Pombinha diante de uma banca de revistas e jornais. Pensa, sim. Pensa
muito em guardar e agora
as caras e casas tomam um ar respeitvel, estamos entrando na rua dos
bancos e dos negcios: eis a
Avareza com seus demoninhos de olho vivo, umedecendo a ponta do dedo
entortado de tanto contar
dinheiro, medo de dar, medo de dividir. O medo dos medos: medo de perder,
ih! como acumular tudo
numa vida assim provisria? "Mas por que o desperdcio dessa vela acesa?"
- reclamou o avarento
que preferiu morrer no escuro. Quanto aos possessos da Gula e da
Preguia, esses se espalharam to
intensamente: os da Gula nos bairros

48


ricos de preferncia, no por virtude dos pobres mas por simples
insuficincia econmica. Se a beleza
(que os luxuriosos amam) virou artigo de luxo, a comida s pode ser um
belo vcio nos bairros de
classe A.  por acaso que falo nos dois pecados assim juntos porque o
preguioso nunca  um guloso.
A gula exige empenho, imaginao do apetite. Mastigar cansa e esse
dispndio de energia o
preguioso evita, prefere papinhas, lquidos. Quando o guloso chega 
saciedade e no est saciado
(nunca est) mete o dedo na garganta, quer recomear tudo. Mas eis uma
violncia que o preguioso
detesta: o ato de vomitar. Ou antes, que no aprecia porque ele no odeia
nem ama, a paixo 
laboriosa, exige fervor e o preguioso nunca esquenta. No se define


nem define: contoma. Na imobilidade se defende dos prazeres da cama e da
mesa. No alheamento que
chama de privacidade, se guarda. Msica suave, que no seja solicitante.
Pessoas que no faam
perguntas, ele que nem sequer termina as frases, os gestos. A graa das
coisas incompletas no ar. . .
Vem a mosca obumbrada, pousa na sua face e ele afasta a mosca com um
movimento brando mas
quando ela volta uma segunda vez ele deixa ficar.

2J> de abril

Abro uma antiga mala de velharias e l encontro minha mscara de esgrima.
Emocionante o momento
em que pnhamos a mscara - tela to fina
- e nos enfrentvamos mascarados, sem feies. A tnica branca com o
corao em relevo no lado
esquerdo do peito, "olha esse alvo sem defesa, menina, defenda esse
alvo!" -- advertia o professor e
eu me

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confundia e o florete do adversrio tocava reto no meu corao exposto.

26 de abril

Releio alguns trechos Do amor, do padre Antnio Vieira, e you me
enrolando nos panejamentos
barrocos, fico esfrica, subo em espiral. Anoto: "O amor deixar de
variar se for firme, mas no
deixar de tresvariar se  amor".

Fragmento da carta  me em prantos

Me lembro que era quase uma menina impregnada de um certo halo de
fragilidade e amor. Saa de
uma aula da faculdade, o suter e os dedos sujos de tinta, "minha caneta


estourou", disse. "Estava aqui no bolso e de repente fez puff! no 
estranho?" E mostrou a ndoa azul
no peito do suter vermelho. Aconselhei-a, no usasse mais a caneta
naquele bolso bem na altura do
corao, o calor ali era excessivo, capaz de fundir acrlicos, metais
todas as canetas acabariam
explodindo.

Ela riu com a alegria meio irnica de uma criana amadurecida. O vento
despenteava seus cabelos
luminosos (havia sol) mas seu olhar secreto tinha o tom verde-lils de
violetas e folhagem - essa a
lembrana que me veio da sua filha quando soube que tinha morrido num
acidente. Resisti  ideia da
sua morte como resisto sempre ao impacto da notcia absurda, crueldade
sem explicao, no! no
pensei em voc mas nela que se preparava com uma alegria selvagem para
cumprir seu tempo de
vida. Mas que

50




tempo era esse que lhe foi prometido e em seguida tirado?

A manh de sol. Num acidente? fiquei repetindo e meu primeiro movimento
foi de resistncia. Me
vieram os versos da poeta: "Dentro, l dentro das trevas da morte / vo
ter o belo, o meigo, o BOM. /
No silncio do nada / vo desaparecer o inteligente, o gracioso, o forte.
/ Eu sei. Mas no aprovo. E
no estou resignada".

Tentativa de consolo com a lembrana do pssaro que vi cair em pleno voo,
to perfeito era o seu
equilbrio,


to harmoniosa a curva da asa. E a morte estourando o pequeno corao
como estourou aquela caneta,
o suter vermelho de amor. E a tinta vazando. Morreu em ascenso, disse
para mim mesma. Morreu
em estado de graa, repeti sem a menor convico, as palavras bem
formadas procurando ajeitar a
morte desajeitada.

Curioso  que o apaziguamento s me veio de voc porque s em voc
comecei a reencontr-la
fragmentos daquela imagem estilhaada se buscando e se encaixando at
compor a pea nica. Foi o
que tentei dizer-lhe, ento no v? sua filha est em sua carne e alm
dela, essncia indestrutvel que
se revela no mido dos seus olhos, nesse simples gesto com que h pouco
voc arrumou o cabelo -
no, ningum morre.  que os mortos so discretos. To silenciosos. Os
braos de ter, a voz de
aragem. Habituada ao mundo visvel, voc se desespera com a aparente
ausncia, quer toc-la e no
atinge -  Deus! - estou tateante porque as palavras so difceis e a
morte, fcil. Mas espera, tinha um
doce com um nome que nunca entendi o que queria dizer: nozes fingidas.
Mas o que eram essas nozes
fingidas? Sei agora, as nozes fingidas tm s aparncia, imitao da noz
sem a noz. Assim como a
rosa fingida 

51


a imitao da rosa sem a rosa e os mortos fingidos, a imitao da morte
sem a morte. Queria dizer
ainda:

29 de setembro



Nas estepes siberianas fica a cidade de Omsk. No inverno ela  batida
pelos ventos em meio de densas
tempestades de neve. No vero, desabam sobre ela as tempestades de areia.
Rude e desataviada, 
uma caracterstica cidade de fronteira com suas construes de pedra e
ruas sem asfalto, pelas quais
passam caravanas de camelos. Banham-na os rios Om e Irtisch.
Especialidades da terra? Peles,
tecidos e cereais, peles principalmente, "Deus d coberta para quem tem
frio".

Estou em Omsk. O aeroporto abriga estranhas gentes de falas estranhas,
estou perdida no mapa. S no
mundo. H alguns homens vestidos  moda europeia mas a maioria usa
pesados casacos de couro,
gorros de pele e botas. Muitos bigodes, no o bigode ocidental mas
aqueles vastos bigodes com o
mesmo aspecto eriado do vento. As mulheres so fortes, quadris largos.
Ombros largos. Os ps
grandes. Vestem-se de escuro ( outono em Omsk) e usam na cabea o
clssico leno atado sob o
queixo. Meias grossas. Sapatos slidos, de taces baixos.

 noite e o vento que sopra faz estremecer o vidro das janelas. Sibria.
Estou na Sibria. Para essas
lonjuras o governo russo mandava exilados polticos e prisioneiros de
crimes comuns, condenados a
trabalhos forados. A Sibria de Dostoivski retratada implacavelmente
nas Recordaes da casa dos
mortos. No soturno presdio atrs de uma muralha, no extremo de uma
cidadezinha siberiana seria
Omsk? - o prprio Dostoivski estivera en-



52


carcerado quatro anos como prisioneiro militar. E prosseguem os exlios e
perseguies por crime de
opinio. Os dissidentes. Afastar as vozes discordantes para as paragens
onde a voz do vento  mais
forte,  Deus! a tragdia do homem se resumir nisso, em repetir os
mesmos erros, os mesmos erros
sempre? A vontade aguda, a esperana de um caminho novo. Diferente. As
revolues dentro e fora
do homem, desafios que ele assume porque esse  o seu destino, o seu
papel desde a primeira forma
de Ado. A busca da felicidade na luta desse caminho, ele quer ser feliz.
E a descoberta de que est
pisando ainda nas mesmas pegadas que renegou, insatisfeito e aflito como
o viajante perdido na
floresta: anda, anda sem parar  procura de uma sada e quando pensa que
est salvo, descobre que
andou em crculos porque a rvore na qual deixou a marca do incio,  a
mesma que reencontra no fim
da evaso.

A mulher de Omsk

Visto todos os abrigos que descubro na mala e por cima de todos o casaco
que tem um nome
intraduzvel na perfeita definio da senhora C., cachemisre. As malhas
so descombinadas mas o
casaco tem a misso de escond-las, isso se no fossem assim grossas, ele
reage e estouram dois
botes. Peo  mulher do toalete (estou no toalete do aeroporto) que me
arranje uma agulha com
linha. A linguagem das mos. Gesticulo e acho elegante o movimento que
fao com a mo direita,
costurando o espao com uma agulha


invisvel na ponta dos dedos, chego ao requinte de imitar o movimento
coleante da ponta varando o
tecido. A mulher de olhos azuis e nariz vermelho fez um gesto, um
momento. Saiu e voltou

53


em seguida, triunfante, com a agulha e o carretel de linha preta.
Ofereceu-me um banco, sentou-se na
minha frente e ficou muito atenta enquanto eu pregava os botes. Chegou
uma mulher mais jovem e
mais baixa, as faces queimadas de frio, cabelos louros presos num grossa
trana no alto da cabea,
como um diadema. Trouxe duas grandes canecas de ch fumegante. Ofereceu
uma caneca 
companheira e assim que terminei de pregar os botes me estendeu a outra
caneca e saiu rapidamente.
A mulher sentada diante de mim soprou a fumaa do ch, sorriu e apontou a
caneca, que eu bebesse,
estava BOM, no estava? Fiz que sim com a cabea e ficamos as duas ali em
silncio, uma olhando
para a outra e bebendo o ch em pequeninos goles. Apertam-se seus
olhinhos azuis numa expresso
de afetuosa curiosidade e me fazem perguntas, mas quem eu era? De onde
vinha e para onde ia?

Tinha cara de Alexandra Petrovna. Fechei as mos em tomo da caneca, no
mesmo gesto dela e meus
dedos aquecidos foram ficando vermelhos, quem eu era e para onde ia?
Difcil responder isso,
Alexandra Petrovna, difcil. Era evidente que se tratava de uma mulher de
uma s lngua e essa era to
inacessvel quanto a linguagem do vento soprando l fora. O bem-estar que
vinha do ch quente foi se
alargando em mim num sentimento de


libertao por me ver assim sem nome e sem passado diante daquela mulher.
Como se tivesse
acabado de nascer, no era estranho? a impossibilidade da comunicao
atravs da palavra nos
aproximava ainda mais. Lembrei-me da pergunta odiosa, frequente no Brasil
e decerto em outros
pases, a natureza do homem  parecida em qualquer idioma: "O senhor sabe
com quem est
falando?"

Ningum sabe, ningum. Na Sibria ningum sabe de nada, intil tirar do
bolso o carto de depu-

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tado, as condecoraes, os louros. Para a Sibria deveriam ser mandados
os narcisos em delrio num
pequeno estgio de humildade. Os ventos passam, os homens passam e
ningum sabe.

O seu ch estava excelente, Alexandra Petrovna - eu disse devolvendo-lhe
a caneca e a agulha. Levei
a mo ao peito, na altura do corao, uma delcia de ch. Ela prendeu a
agulha na gola do casaco. O
gesto era eterno, todas as mulheres do mundo tinham gesto igual ao
receber uma agulha e sem saber
no momento onde guard-la: na gola do casaco.

Pousou a mo no meu ombro,  maneira de despedida. Sorriam brilhantes os
olhinhos numa
expresso fraterna. Adeus, Alexandra Petrovna. Levo no meu casaco um
pouco da linha siberiana.

Laranja-da-china

Eu sabia que laranja-da-china era apenas uma laranja maior do que as
outras. Assim como negcio da
china era tambm um negcio grado, importante, "hoje fiz um negcio da
china!" - ouvia meu pai
dizer. Onde


fica isso?, perguntei e algum respondeu que ficava to longe que d a
volta no globo o caminho para
se chegar l. E quem est l, fica exatamente de p em cima da nossa
cabea. " to longe, menina,
mas to longe que quando aqui  dia, l  noite. Quando vamos dormir
aqui, l esto acordando." No
meu atlas encontrei apenas uma vasta zona pintada de amarelo e muito
difcil de ser desenhada.

Depois, j adolescente, fui conhecendo a China atravs do cinema
americano, uma China encardida,
miservel com sua gente de cara inexpressiva correndo pelas ruas como
formigas assustadas de um
for-

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migueiro onde algum afundou o p. Chegava a herona vaporosa e loura com
seu vestido de
musseline e sombrinha transparente, transportada pelo homem do riquix
sorridente e falso, o
anti-heri pertencente a uma rede de espies envolvidos em pio, mercado
de brancas, contrabando
de ouro - a ral desbaratada pelo oficial americano disfarado de
reprter, se saindo
maravilhosamente das ciladas e golpes armados em quartos de hotis com
paredes falsas e camareiros
mais falsos ainda, escondidos detrs de biombos de madreprola. J na
metade do filme os amarelos
iam caindo como moscas, um punhal tambm amarelo cravado at o cabo nas
costas enquanto a
herona frgil porm corajosa acabava sendo salva pelo oficial
corajosssimo que a levava de navio
para longe das terras malditas.




Isso no cinema. Na literatura amarela, os mesmos vcios: contrabando e
prostituio com intrigas
mais complexas nos romances de Vicki Baum e mais sentimentais e bem-
arrumadas nos livros de
Pearl Buck. Mares da China. Tinha sempre um branco chegando com seu terno
branco impecvel. E
que logo era corrompido pelos donos dos antros fumacentos como o inferno
e onde ele esquecia a
famlia e os companheiros de golfe, a roupa enxovalhada, a barba
crescida, seduzido pela danarina
de unhas recurvas e olhos de amndoa, a adaga escondida no corpete de
brocado. Esse e outros
personagens tinham que morrer sem falta para destaque e glria do heri
que entrava dentro de um
Buda de ouro e saa pela porta do fundo levando inviolado o segredo
ingls cobiado pela metade da
populao amarela e mais o dono do hotel.

Aprendi depois, fora da fico, que em certos aspectos a realidade no
estava muito longe das
imagens dos cineastas e romancistas. A populao era de fato densa o
quanto pode ser densa uma
populao.

56


E ignorante, viciada no pio - da maior convenincia o analfabetismo e o
vcio para manter o povo
desfibrado, aptico. As contradies: no comiam mas tinham garantida sua
quota-parte da droga.

E os mandarins de cetim? E os palcios de marfim e jade? Realidade tambm
mas para cada palcio
havia mil casebres com seus habitantes amontoados, imundos, assolados por
epidemias,


inundaes, lutas internas. A obscura face da medalha que s interessava
ao cinema e  literatura
como bons temas de atrao, mais nada. Romanticamente eu preferia essa
face requintada,
abominvel na sua alienao mas de aparncia limpa, a burguesia s d
importncia  apa-

rncia.

As "confisses" de Santo Agostinho

"Tarde eu te amei, beleza to antiga e to nova. Eis que habitavas dentro
de mim e eu l fora a
procurar-te!"

Pequim

Olho ansiosamente em redor para ver se distingo as famosas muralhas de
doze metros de altura que
circundam a cidade. Mister Wang ento me diz num francs misturado com
espanhol e
reminiscncias de chins que as muralhas ficam distantes do centro,
iramos v-las um dia.

Pe-King, capital do Norte. Desde 49, proclamada uma repblica pela
revoluo de Mo Ts-tung.
Piso nas largas ruas da capital vermelha da sia. Bandeiras, lanternas,
flores de papel, bales - de-

57


corao dourada e rubra nas fachadas das casas e nos edifcios pblicos
para as festas de 1. de
Outubro. O vento brando agita as bandeiras e faz farfalhar a folhagem das
rvores. As rvores
chinesas, to parecidas com a arte chinesa, principalmente com o desenho:
os troncos so delicados,
frgeis, laboriosa a sinuosidade da folhagem de ouro em miniatura, 
outono. Penso nas rvores do
Brasil, exuberantes, violentas como se nas razes no corresse a


simples seiva mas o prprio sangue latino.  um sangue quente. Mister Wang
vai falando e  como se
eu tivesse uma daquelas pequenas rvores caminhando a meu lado, o tronco
fino, um tanto esquivo, a
folhagem trabalhada:  um BOM guia, discreto na sua amabilidade,
orgulhoso dessa nova Pequim que
de certo modo se divide em quatro partes, a cidade central, onde viveram
em outros tempos os
imperadores no Palcio Imperial. Mais para o sul, a cidade chinesa e que
foi antigamente o mago de
Pequim com seu ramificado comrcio e antros de prazeres. A cidade
industrial a leste com suas
principais fbricas, bancos e grandes blocos de habitaes para
operrios. Na parte leste, a cidade das
universidades, dos novos hospitais e escritrios administrativos. Nesse
bairro fica ainda o Jardim
Zoolgico e o Palcio de Vero, residncia da ltima imperatriz e
transformado hoje num parque
cultural aberto ao povo. L est tambm o tmulo dos Mings, fundadores da
cidade. No dia do meu
embarque, o meu menino quis saber se na China tinha muito chins. you
responder num postal:
alguns.

n


10 de outubro

Meia-noite. H. S. est com saudades dos filhos. Do analista. O que
estaria fazendo sua gente nesta
hora? pergunta e eu me pergunto como funcionar a pequena alavanca da
janela que no consegui
fechar
- um verdadeiro enigma as janelas do Hotel CheinMein. Tem tantos outros


mistrios, difcil para uma ocidental entender esse jogo. Mexo ainda na
alavanca que tem seu segredo
e me volto para H. S. que j se prepara para dormir: dobra o leno preto
para cobrir os olhos como os
condenados  morte no paredo, com ou sem a venda? Estamos cansadas o dia
foi intenso - mas
vamos nos aproximando desse xadrez-chins. Pergunta-me se quero dizer-lhe
alguma coisa antes de
tapar os ouvidos, vai ficar incomunicvel. Desejo-lhe uma linda noite e
me debruo na janela. A
insnia. A praa deserta, nenhum bomio. Nenhum gato. Nenhuma prostituta.
Logo mais vai comear
o movimento das bicicletas dos trabalhadores, acordam de madrugada e j
saem bicicletando, no so
os carros os donos do asfalto mas as bicicletas. E os triciclos,
substitutos dos abolidos riquixs que
exigiam dos condutores um esforo excessivo, ou ficavam tuberculosos ou
morriam ainda jovens de
leses cardacas.

Pe-King. Visitaremos amanh a Cidade Proibida com seus gramados,
quiosques e pavilhes de tetos
arrebitados, os leitos de marfim e jade reservados s concubinas dos
imperadores. Passaram os
imperadores, passaram as concubinas, ficaram as escadarias de mrmore e
as colunas que contam
histrias nos baixos-relevos. Em seguida, os visitantes iro a Shangai.
Visitantes que voltam dizendo
maravilhas ou dizendo horrores: ou so tomados do delrio bajulatrio ou
do dio preconceituoso que
j existia antes da viagem, na hora mesmo em que o

59




convite era aceito. Serei justa na minha avaliao? Prometo a mim mesma
suspender o juzo quando
no entender alguma coisa e fico sorrindo para a alavanca da janela. Olho
o cu luminoso. Tento
imaginar de que lado estaria o Cruzeiro do Sul e penso na gravura do
cavalo negro que vi numa
vitrine, gostaria de levar comigo aquele cavalo.

12 de outubro

Sinto o perfume quente do ch de jasmim. Shangai. Shangai com S, a
sinuosidade da letra 
indispensvel como porta do nome da cidade que mais estimulou a minha
imaginao. Tentaram
despoj-la do seu mistrio, da sua lendria corrupo - limpla do
passado dourado e vermelho.
Conseguiram? Ainda no, a revoluo popular tem apenas dez anos,  cedo.
Ainda est impregnada,
sinto na sua pele essa impregnao como se sente na pele de um viciado em
tratamento, est se
recuperando, sem dvida, mas de vez em quando, na fala... no olhar que
fica enevoado. Pequim  uma
cidade reta, rgida, um pouco como um quartel sem soldados, no vi
soldados mas senti a disciplina
no povo uniformizado, cala e tnica azul, bon. O corte rente do cabelo,
esse corte  obrigatrio por
motivos de higiene, a populao da antiga China estava perdida de
piolhos. Outro detalhe: muita
bandagem em qualquer pequeno corte ou ferida, numa quase obsesso de
desinfetar um povo que foi
assolado por toda sorte de epidemias e infeces transmitidas por piolhos
e ratos.

Minha razo


admira essa Pequim que simboliza a luta dramtica da Repblica Popular
dentro de um clima que
chega a ser mstico. Mas meu corao se inclina para essa Shangai
sumarenta e viciosa na

60


sua inocncia, fleur du mal que se abre quando anoitece - no, Mister
horn Tim-Tim, no quero ouvir
o coral universitrio, quero vagabundear pelas ruas, pelas lojas, pelo
porto coalhado de embarcaes
que vo se acendendo quando comea a anoitecer, que belo  o porto quando
comea a anoitecer, as
luzes danarinando nas guas, estou corrompida.

14 de outubro

Achille-Clophas Flaubert, pai de Gustave Flaubert, reunia os filhos
todas as noites para contarlhes
histrias, podiam desabar os maiores imprevistos mas a hora mgica era
preservada. A dura infncia
de Machado de Assis era doce quando Madrinha contava suas histrias. As
crianas no ouvem mais
histrias? Eram crianas que se sentavam em redor do pai, da me ou da
av e ficavam ouvindo
histrias de gnomos da floresta e fadas, gigantes e princesas que falavam
e saam da boca rosas e
prolas. Das princesas ruins, saam cobras e sapos. Histrias do arco-da-
velha - nunca mais? O
imaginrio se desenrolando como uma fita cintilante. As crianas no
sabem mais inventar: ficam
paradas diante da televiso, vestem a roupa-padro do Super-Homem e
apontam para os adultos suas
metralhadoras de plstico.

15 de outubro

O preo da criao literria seria mesmo o sofrimento?


Penso na minha experincia e lembro que justamente nos instantes mais
agudos das minhas

61


atribulaes eu no consegui escrever uma s palavra. Mesmo depois, na
convalescena, se vinha a
vontade, faltava a energia, o movimento era apenas da alma. Olhava para a
minha mesa como algum
com sede fica olhando um copo d'gua: quer beber mas fica rodeando o
copo, fax outras coisas na
frente e embora pense o tempo todo na gua, no faz o gesto essencial
para toma-la. No sei dizer se
os frutos colhidos mais tarde (alguns at doces) teriam vindo dessa
figueira-brava.

16 de outubro

Estamos no hall do Hotel da Paz, tomando ch com perfume de eucalipto e
ouvindo Mister horn
Tim-Tim falar de um tempo antes da revoluo, quando a cidade de Shangai
era dominada pelo
imperialismo francs e ingls. Tanto os negcios limpos como os negcios
sujos eram totalmente
controlados pelo estrangeiro, dono do contrabando de pio e de pedras
preciosas. Senhor da mquina
da prostituio e da jogatina. Era to intenso o movimento nos antros de
jogo que havia quatro
grandes centros s de corridas de ces. No entendi o que poderiam ser
essas corridas e Mister horn
Tim-Tim explicou que o pblico (ingleses, franceses e norte-americanos)
fazia apostas milionrias e
ficava aulando a cachorrada que corria numa pista cheia de curvas e
obstculos, perseguindo um
coelho


mecnico.

Fiquei sabendo tambm de um episdio que me perturbou: Bernard Shaw, de
passagem pela cidade,
hospedara-se neste hotel e quisera conhecer Lu-Sin, considerado o maior
escritor do pas. Convidou-o
para vir ao hotel onde jantariam juntos. Conduzido por dois amigos (ele
era quase paraltico) com

62


grande dificuldade Lu-Sin chegou para o encontro. E o chins
recepcionista impediu-o de entrar,
proibida a entrada de visitantes chineses. Lu-Sin ficou em silncio,
olhando para o recepcionista. E
pediu aos dois amigos que o levassem de volta para casa.

"Eu no estaria aqui neste hotel, tomando este ch - disse horn Tim-Tim
pousando a caneca de
porcelana azul. - Antes da revoluo, teria de esper-los na rua."

No consegui dizer nada.

17 de outubro

Colho no caminho a folha ferruginosa de uma rvore-an e guardo-a dentro
do livro de poesias de
Mo Ts-tung, cada membro da delegao recebeu um exemplar. Mister Wang
viu meu gesto e
continuou imperturbvel mas, antes de entrarmos no centro cultural de
estudantes, me ofereceu uma
folha rara de um outro tipo de rvore: fez a leve mesura e avisou, "para
a vossa coleo". Os chineses.
Procuro imaginar o que estaro pensando a nosso respeito e me perco nas
ideias, estou perplexa,
minha cabea gira - o clima? O prdio onde funciona o centro


cultural foi o maior bordel da cidade. E o mais luxuoso, s frequentado
por estrangeiros. Enquanto os
jovens de cara limpa tocam seus instrumentos e cantam as novas canes
hericas de esperana e f
no regime, you percorrendo com o olhar o vasto salo: por mais que
tentassem fazer desaparecer as
marcas infamantes, sempre ficou alguma coisa desse tempo nas portas
frvolas. No lustre luxurioso
do teto com suas florinhas de porcelana enroscadas nos pingentes de
cristal. Apesar das vozes agudas,
pode-se ouvir o vento brando soprar os pin-

63


gentes que batem uns nos outros num tlim-tlim de taas. Me fixo nas
paredes forradas de veludo
vermelho, um vermelho to violento. Descubro um furo negro no veludo,
algum apagou ali um
charuto.

20 de outubro

Durmo acordada feito o drago de goela vermelha que vi no alto de uma
escada de mrmore. Tinha
uma bola dourada presa entre os dentes, o mundo? Abro a Bblia: Gnesis.
Como no acreditar na
hereditariedade? A herana que recebemos de toda essa gente que nos
antecedeu se diluiu no ter? A
comear pelos nossos pais expulsos do cho de ervas tenras para o cho de
urzes e vboras -
desapareceu essa herana de insegurana e medo? Quero acreditar que o
homem  livre e vejo na
histria do homem os mesmos erros se repetindo inexoravelmente. Queria
estar convicta, como
Sartre, de que at as personagens de fico devem ser livres, nunca
atrelar seus passos a um destino
que significa


uma prvia condenao. Mas no so essas personagens feitas  imagem e
semelhana do homem?
Para escapar do cho deslizante do medo, o homem precisa do poder. Ento
recomea tudo outra vez.

O homem esquece. Cicatrizada a ferida, ele repete no prximo (talvez no
mesmo lugar) o ferimento
que sofreu na carne e alm dela. O escritor Lu-Sin foi proibido de entrar
no hotel da sua cidade porque
nesse hotel (dirigido por um chins) s podia entrar chins na condio
de servial. Lu-Sin morreu.
Lembro agora o gesto inesperado de Mister Wang me oferecendo a folha para
a minha coleo. Volto
a Sartre, o homem  imprevisvel e se  imprevisvel,  livre, aposto
nesse homem: um novo Lu-Sin
jamais

64


colocar um dia na porta do seu importante hotel em Shangai o mesmo
aviso: Proibida a entrada de
cachorros e chineses.

Nossos campos tm mais flores

Nunca senti a vida montona, nem mesmo quando frequentava a escolinha de
freiras dirigida por
madre Mnica. Todas se vestiam igual, os chapeles engomados com a mesma
proa dos veleiros, as
almndegas com o mesmo gosto dos quiabos. E que variedade! As poesias que
a gente devia decorar
para as festas tambm eram sempre as mesmas, versos que dizem que nosso
cu tem mais estrelas,
nossa vida, mais amores. E os campos. No menciona nossas ruas,
especialmente essa Rua Baro de
Itapetininga (um brasileiro ilustre)


onde roubaram minha carteira e meus documentos. Entro na fila infinita da
papelada e a fila avana
num silncio to conformado que chega a ser inquietante. Uma virtude
rarssima se desenvolve no
nosso povo afeito a esse tipo de mecanismo que faz parte do sistema,
virtude modesta como uma flor
mida que ningum plantou e  qual ningum d ateno: a pacincia. Vejo
as caras concentradas das
pessoas que j vieram ontem e tero que voltar amanh e penso que o
paulistano  antes de tudo um
forte. Mas cansa.

Kafkandura

Meu colega de olhos plidos e mos midas foi quem me falou sobre Kafka
pela primeira vez. Eu
terminara o ginsio e me preparava para os vestibu-

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lares, uma jovenzinha que j tinha lido alguma coisa da literatura
brasileira mas a literatura universal
era universal demais! Tantas chaves, tantos nomes que o professor do
cursinho ia ditando e
escrevendo, a mo delirante perseguindo o giz naquela lousa que no
acabava mais, comeava na
parede da frente, continuava ao lado e quando eu dava acordo de mim, l
estava ele na lousa da
retaguarda a abrir novas chaves com as subsubchaves. Dentro de uma delas,
o nome do autor fcil de
guardar mas difcil de ler, vi isso depois: Franz Kafka.

O colega de olhos plidos convidou-me para entrar na lei teria, era moda
convidar as meninas para as
leiterias. Pedi um suco de uvas, ele pediu uma coalhada. Lembro-me de que
suas mos tinham o
mesmo tom vagamente


esverdeado do soro em cuja superfcie flutuavam os cogulos de leite.
Abriu o caderno. Fiquei
estraalhando nas unhas o canudinho de palha enquanto ele falava sobre o
judeu estranhssimo que
tinha nascido em Praga, que escreveu em lngua alem e morreu tuberculoso
num sanatrio prximo
de Viena.

Praga, eu repeti como num sonho, localizando no mapa-mndi da memria a
cidade que percorreria
um dia. Kafka, repeti e no sabia que um dia iria compreend-lo at as
raias do amor. Meu colega me
emprestou os livros, o caderno e duas semanas depois eu prestava a prova
oral: caiu Dickens. Fiquei
aturdida: a soluo era desviar o transparente ingls Charles Dickens
para o embuado judeu Franz
Kafka. E depois, no era mesmo uma ideia causar um impacto na banca
tratando de um autor que
poucos tinham lido? Inconscientemente, lanava mo da tcnica kafkiana:
dentro de uma aparente
ilogicidade, escamoteara os temas deixando a banca examinadora sem atinar
com a razo por que eu
trocara o comunicativo ingls pelo incomunicvel jovem de Praga.

66


Tive que ser interrompida: " suficiente", disse o presidente da banca.

Sa radiante,  procura do meu colega para reproduzir-lhe o exame que
achei brilhantssimo (era de
um otimismo feroz) e devolver-lhe os livros. Nunca mais o encontrei.
Deixou-me os ensebados
volumes, o caderno em espiral com sua letrinha torta, vesga, e sumiu
completamente. Nem sequer os
exames chegou a prestar. Dezenas de pessoas somem todos os dias. Era


possvel ver ainda seu retrato na seo de desaparecidos de algum jornal.
Mas eu no lia jornais.

O retraio

No achei o retrato do meu colega mas achei o de Kafka, sim, estava sob o
seu signo. Seno, como
explicar a coincidncia? Numa velha revista judaica da obscura sala de
espera de um dentista do
bairro, distra-me em ficar vendo as ilustraes, estava escrita em
idiche. E de repente, ocupando
toda a pgina, ele. Os cabelos negros. O queixo obstinado. E os olhos.
Metade da cara era
bem-comportada mas a outra metade - meu Deus! - nunca encontrara antes
duas metades to
diferentes assim: o lado direito, o de um funcionrio meticuloso, filho-
famlia meio esquivo, sem
dvida, mas contido. Corts. A outra face, a de um possesso (tapei o lado
direito com a mo)
dilacerado num mundo onde a realidade e o sonho se fundiam no fogaru de
uma paixo que tinha
duas portas, da loucura e da morte. Furtivamente, arranquei a pgina da
revista e guardei-a. A mulher
sentada ao lado me olhou, interrogativa.  um risco de bordado, eu disse
e tive sua inteira aprovao.
Fiquei sorrindo tambm: o bordado era

67


I um labirinto dentro do qual candidamente entrara e

l agora no conseguia mais sair.

l Os textos desregrados embora aparentemente

| cheios de lgica. Aparentemente cheios de lgica -

l esse o meu engano. No descobrira ainda que era o

f contrrio que ocorria: a


ilogicidade estava s na apa-

rncia porque no mago tudo se desenrolava com a preciso infalvel de
uma equao matemtica. O
caos estava na forma da apresentao do problema, no na essncia. Caos
na pele do homem
transformado em inseto, caos nas andanas do inocente transformado em
vtima, caos na superfcie,
nunca no fundo. Como a loucura  que vestia a lucidez, forosamente os
meios tinham que ser
esdrxulos mas ! sob a falsa demncia, a marcha dos acontecimentos

' se desenrolava dentro de uma lgica implacvel, bu-

| rocrtica na sua fatalidade semelhante  marcha de

um processo percorrendo os canais competentes.

Naquela noite, sozinha em casa, com a energia da juventude, cheguei quase
a tocar no seu mistrio.
Anos depois viria a pensar nele com o mesmo fervor enquanto andava nessa
Praga que ele amava e
detestava. Anoitecia. Lancei um olhar ao rio que ia se fazendo noite.

Ao transpor a ponte, vi que estava perdida. Falei com uma mulher do povo
que passou ao meu lado,
onde estaria meu hotel? Ela sorriu como uma criana, levantou a mo num
tmido adeus e prosseguiu
seu caminho. Passou um militar, recorri ao francs, ao ingls: ele abriu
os braos, disse alguma coisa
amvel e desapareceu numa esquina. Fui andando solitria. Incomunicvel
como ele queria.
Lembrei-me ento do seu retrato que guardara dentro de algum livro, junto
com o retrato da minha
juventude e que tambm no sabia mais onde podia estar.

68




22 de outubro

Um crtico literrio do sculo XIX, irritado com o livro de uma poetisa
que ousou sugerir em seus
poemas alguns anseios polticos, escreveu no seu artigo: " desconsolador
quando se ouve a voz
delicada de uma senhora aconselhando a revoluo. Por mim, desejaria que
a poetisa estivesse
sempre em colquios com as flores, com as primaveras, com Deus".

Mexendo em antigas pastas na tentativa (v) de orden-las, acabei
encontrando o recorte de uma
crnica publicada em 1944.  sobre um pequeno livro de contos que escrevi
quando cursava a
Faculdade de Direito. Diz o cronista que se assinava M. G.: "Tem essa
jovem pginas que apesar de
escritas com pena adestrada, ficariam melhor se fossem da autoria de um
barbado".

Afetei um certo desdm pela crnica mas fiquei felicssima: escrever um
texto que merecia vir da
pena de um homem, era o mximo para a garota de boina de 1944. Eu
trabalhava, estudava e
escolhera dois ofcios nitidamente masculinos: era uma feminista
inconsciente mas feminista.

Cachorro se chama com um assobio

com exceo do Bbi que tinha uns toques aristocrticos na finura do
focinho e na fartura do plo
branco, era uma cachorra pauprrima, carente de raa, comida e afeto. A
maior parte veio da rua,
todos com aquele ar de ande j os que a gente v nas estradas, vindo de
longe e indo para mais longe
ainda, a expresso obstinada de um objetivo, mas que objetivo ser esse?
Perguntar-lhes o


itinerrio

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seria o mesmo que perguntar pelo itinerrio de uma nuvem.

Se algum bota a mo no ombro de um andejo e diz: vem! ele vai porque s
esse gesto interrompe a
condenao que lhe foi imposta (por quem?) de no parar nunca. com o
cachorro andante, basta um
assobio, cachorro se chama com um assobio.

Em Sertozinho assim chamei todos para a nossa casa que tinha poro e
quintal. Os mais tmidos,
disfarando, resistindo, e com esses era preciso mostrar o melhor da
fala, o melhor do gesto, venha,
seu bobo! confia em mim.

Ele confia. Mas desconfiando, reavivada a memria aguda dos pontaps,
pedradas. Aproxima um
metro. Recua meio, porejando medo nas orelhas baixas, no rabo mais baixo
ainda.

Divido com ele a empada que comprei na Maria Pi tombo, reservando para
mim a metade com o
camaro, que cachorro  como criana, no entende desses requintes.
Apanha o pedao no ar, engole
sem mastigar e continua me olhando firme. Dou-lhe um doce de abbora que
ele abocanha no mesmo
estilo, a fome  to antiga quanto a noite, esse eu encontrei numa noite.

A cena seguinte  um jogo. Ele vem atrs de mim? No vem? you andando sem
me voltar:  preciso
dar uma certa margem de liberdade no s s personagens (o que aprendi
depois) mas tambm aos
bichos. No porto de casa, afetando desinteresse, paro e olho. L est
ele sentado no meio da


rua, esperando. Seguiu-me sem muito empenho e agora, como eu, joga o jogo
do distrado. Mas sinto
no escuro a tenso do arco que se retesa e me flecha com a pergunta: vai
me adotar, vai?

Se nesse tempo eu tivesse lido Machado de Assis, diria ao meu novo amigo
que depois de Napoleo
tenente e imperador, tudo  possvel. Fui

70


busc-lo e fiz a advertncia, entrasse com calma, muita calma, melhor
mesmo que ficasse pelo menos
dois dias escondido no poro enquanto as arestas iriam sendo aplainadas
no s em relao aos outros
bichos da casa (tnhamos at um mico, at um papagaio), mas tendo em
vista as duas rfs, obstculo
maior. No tardaram os grunhidos e ranger de dentes dos outros cachorros
com toda aquela insolncia
de uma classe em ascenso. No tardaram os protestos das duas rfs que
j eram moas feitas.
Ameaas de fazer a mala e a pista, imagine se you continuar limpando
sujeira de cachorro! Tempo de
escravido j acabou!

No acabou no. Ficaram elas e ficou a Filipa, no se tratava de um
cachorro, como pensei e desejei,
sempre soube que os machos so bem-vindos mas as fmeas so praguejadas e
rejeitadas com a mais
fervorosa das convices. Hoje est a o feminismo se vingando de tantos
anos de confinamento e
servido mas nesse tempo dos cachorros eu s sabia de uma coisa: que o
pecado de Eva no Paraso era
to terrvel que todas as suas filhas teriam que pagar,


e caro, at o fim dos seus dias. As cadelas includas.

No estranhei quando vi minha me puxar os cabelos, tinha gestos
dramticos, ah! meu Pai, se ainda
fosse um macho, mas fmea?! Daqui a pouco vai estar com uma ninhada
enorme. . .

Um anjo passou na hora, ouviu e disse: Amm! porque foi pequeno o
caixotinho de cebolas para os
cachorrinhos ainda cegos e embolados num n preto e branco sobre os
trapos dos quais se desprendia
o terno cheiro de urina e leite - o prprio cheiro da infncia.

71


O gorro do pintor ?

A cidade ficou na maior excitao com a chegada de Hortnsia Serena, a
declamadora. Fui correndo
ver seu retrato de corpo inteiro, pregado numa cartolina na porta do
clube: fiquei extasiada. Nunca
tinha visto uma mulher assim to grande, to suntuosa no seu longo
vestido preto e diadema,
revirados os olhos para o cu, os braos pendidos na frente do corpo com
as mos fortemente
entrelaadas no gesto da Senhora das Dores na procisso da Paixo. O
anncio dizia que fora
aplaudidssima nos teatros de So Paulo, Rio e Lisboa mas tia Ernestina
franziu a boca, desconfiada:
se veio dar com os costados aqui  porque no presta. . . Reao enrgica
da minha me, imagina, uma
artista internacional!

Foi a primeira vez que ouvi a palavra internacional e que ficou para
sempre ligada quela noite em
que Hortnsia Serena comeou a recitar e de. repente abriu os


braos imensos e o vestido preto (o mesmo do retrato) se abriu em duas
enormes asas, presos os
panejamentos em argolas enfiadas nos dedinhos. Dedinhos, sim, as mos
gorduchas eram minsculas
como minsculos eram os ps metidos em sapatinhos de cetim com fivela de
prolas. No comeo dos
recitativos (estvamos na primeira fila) sua figura me empolgou de tal
forma que eu s olhava, mal
ouvia o poema no qual ela imitava a voz do vento, soprando e rodopiando
numa ventania to forte que
eu chegava a me encolher na cadeira, e se tivesse enlouquecido? Mas no
nmero seguinte, j
acostumada com as asas, s prestei ateno na histria pungente do pintor
que tinha um cachorro
muito amado e um amadssimo gorro de veludo, presente da noiva que teria
morrido, no estou muito
certa do destino da moa. O gorro e o co, eis os nicos bens do artista
de vida durssima, ainda no
estava

72


na moda investir em quadros no alto mercado dos capitais. Mas acontece
que o pintor enriqueceu e
com o poder e a glria vieram os vcios correlates: deu de beber, ficou
vaidoso, mesquinho. O corao
- que era s brandura - endureceu tanto que at o cachorro passou a ser
maltratado em meio das
libaes e orgias, palavras que tambm aprendi nesse tempo. Numa noite de
maior bebedeira, quando
o msero cachorro j velho e quase cego se aproximou abanando o rabo,
sorrindo o pintor teve a ideia:
livrar-se do antigo amigo que o irritava com sua simples presena. Tomou-
o pela coleira, vamos
passear, querido? E atirou-o no rio. Mas no instante exato em que o
perverso se inclinou para


as guas, o gorro de veludo (nica lembrana da inocente juventude) 
arrancado pelo vento e cai no
rio juntamente com o co. O pintor se enfurece: afinal, s por causa
daquele msero bicho ele perde
sua preciosa relquia! Volta para casa, deprimido, tenta dormir, no
consegue, pe-se a andar pelo
casaro quando de repente ouve um estranho rudo l fora, algum como que
batendo fracamente,
chamando: quem seria quelas horas?

As lgrimas que j corriam abundantes pela minha cara deram uma parada
brusca no suspense que
Hortnsia Serena fez render, estticas mos e asas abertas no ar -
quem?!. . . Silncio. Um silncio to
profundo que se ouviu o colchete de presso do corpete da declamado r se
abrir no susto. Abri a
boca. O pintor abre a porta: na sua frente est o cachorro pingando gua,
tremendo, trazendo na boca
o gorro de veludo. Aproxima-se ganindo muito doce (nesse momento, minha
me comeou a me
arrastar da sala), deposita-lhe aos ps o gorro amado e tomba
redondamente morto. Na rua,
apressadamente minha me me abraou, me consolou, eu no podia chorar
alto assim, no via ento?
estava atrapalhan-

73


do. Repetiu que tudo aquilo era bobagem, mentira e voltamos aos nossos
lugares. Hortnsia Serena
agradecia as ltimas palmas com a soberba de uma rainha. Teria mesmo me
fuzilado com um olhar
azul de clera ou foi impresso minha? S sei que no a encarei mais at
o fim da recitao.



No dia seguinte, quando minha me me mandou comprar os ingressos, li a
novidade escrita com tinta
ainda mida na cartolina: proibida a entrada de crianas. Meu irmo, que
no fora na vspera porque
estava de castigo, deu um pontap no cartaz, essa vacona! mas eu fiquei
quieta.

O jardineiro

S colhia as rosas ao anoitecer porque durante o sono elas no sentiam o
ao frio da tesoura. Uma
noite ele sonhou que cortava as hastes de manh, em pleno sol, as rosas
despertas e gritando e
sangrando na altura do corte das cabeas decepadas. Quando ele acordou,
viu que estava com as mos
sujas de sangue.

To die, to sleep no more

No se matou mas toda sua breve vida foi um nico movimento na direo do
famoso
Anjo-dasAsas-Escuras, cantado e convocado pelos poetas das capas pretas.
Seu nome, Manuel
Antnio lvares de Azevedo, na intimidade, Maneco. Paulista, residente na
sua cidade que contava
com cerca de quinze mil habitantes naquele ano de 1831. Sua escola? A
Academia de Direito do
Largo de So Francisco e que j

74 i


servira de convento a frades velhinhos, os fantasmas midos suspirando
ainda pelos corredores de
tbuas carcomidas. Ento chegaram os estudantes, a juventude transviada
da poca.

Bons moos tentando sacudir um pouco a pasmaceira dos usos e costumes,
Cristo-Rei! tanto pudor e
tanto espartilho nas matriarcas e donzelas, fazer o que na provncia que
ainda por cima era garoenta,


fria?! Mas foi para se autoflagelar que os jesutas inventaram de fundar
o vilarejo neste pntano? A
soluo era se divertir um pouco com as rameiras nos lupanares e nas
repblicas onde podiam beber,
rir e at amar, menos esse Maneco que s bebia leite e que morreu virgem,
segundo a crnica literria,
confirmada por M. A., virgenzssimo! Mas nesse ponto, suspendo o juzo: o
que a gente sabe sobre o
prximo? E sobre um prximo assim distante? A gente sabe to pouco, a
gente no sabe nada, vai ver
era um sonso.

O fato  que a reputao dos meninos no podia ser pior. Os estudantes! -
benziam-se os velhos
quando passava o tropel dos jovens de capas e olheiras negras. Os
estudantes! - suspiravam as
mocinhas que enrubesciam e empalideciam em seguida, se usava nesse tempo
o contraste nas faces
intactas, a palavra intacta com o c, indispensvel este c que funciona de
degrau, obstculo para os
amores dificlimos. Os poetas, principalmente os poetas sentiam aquele
vago n'alma, estudavam mal
(Maneco, a exceo) e nas noites de lua cheia faziam serenatas pelas
ruas. Ou missas negras no
cemitrio, assistidas por musas airadas e ousadas, uma delas teria
morrido de susto quando a
brincadeira exorbitou -  Byron!
- que ourives desta terra de formigas e caipiras (assim o poeta se
referiu  paulicia numa carta  me)
poderia transformar crnios humanos em taas?

75


Remotamente, chegavam as notcias das loucuras dos artistas europeus
reavivando as extravagncias
e perverses da atmosfera romntica que por l j


estava saturando. Mas aqui a coisa apenas comeava. Ento era preciso se
intoxicar com leituras
miasmentas e se embriagar com bebidas banais (onde a cocana? onde o
absinto?), escamoteando
com palavras importantes a realidade sem nenhuma importncia: "Escravo,
enche esta taa!" -
ordenava no poema Fagundes Varela. E o preto velho da vendinha vinha
descalo e enchia o copo de
cachaa. O jogo era o mesmo no sexo: os filhos-famlia namoravam as
donzelas nos saraus
ltero-musicais (as tertlias) e em seguida, sonhando com cortess
fabulosas, se conspurcavam com
as rameiras das pensezinhas da zona infestada de sapos -  Shakespeare!
- ajuda um pouco. Ajudou, sim, a esse outro discpulo da primeira gerao
romntica, Francisco
Otaviano, enrolado no mesmo tema: Morrer. . . dormir. . . talvez sonhar.
. . quem sabe?

Romantismo e subdesenvolvimento

Pregavam a liberdade esses poetas. Exigiam que o artista fosse o
revolucionrio capaz de romper com
todos os moldes na busca desregrada de uma regra original. E se sentiam
predestinados, condenados
pela fora do destino: "Que fatalidade, meu pai!" - disse o poeta antes
de morrer, e esse pressgio
envolveria toda a massa dos companheiros de gerao. Coaxar dos sapos e
"o borbulhar do gnio"
- como equilibrar a circunstncia mesquinha com a exaltao potica? A
soluo era se deixar
envenenar pela angstia existencial que tinha na poca um nome mais
curto: dvida. Duvidar do
amor, da

76




arte, de si mesmo - duvidar de tudo, menos da morte que s ela  certa no
jardim das incertezas.

O subdesenvolvido romantismo provinciano contrastando com a
grandiloqncia castroalvesca, "oh,
Paulicia, oh, Ponte Grande, oh, Glria!. . ." A. C. estranha que nesse
verso a paulicia esteja
mencionada como bairro e no como um todo. E essa coincidncia? pergunto
agora: em pleno
modernismo, Mrio e Oswald de Andrade reavivam o mesmo verso nos seus
ttulos de livros,
Paulicia desvairada e Serafim Ponte Grande -  literatura!

Cinco ou seis poetas da melhor qualidade compondo a constelao em forma
de lira, em destaque a
estrela maior, lvares de Azevedo. Que me perdoem os baianos mas nem
Castro Alves, nem o
fluminense Fagundes Varela nem o maranhense Gonalves Dias (viva o
indianismo!) escreveu obra
to bela.

O poetinha paulista leu demais. Trabalhou demais num ritmo acelerado para
produzir o que produziu
nos seus incompletos vinte e um anos de vida, os pressentimentos batendo
na janela do seu quarto
solitrio, depressa, Maneco, que j est anoitecendo! A vontade de ousar
e a timidez. Que no o
impediu de alguns atrevimentos em poemas de ironia, no mais o menino mas
o homem falando num
tom cnico em spleen, charutos. . . Paixo e tdio se alternando. 
exaltao. com a pergunta
obstinada que voltava nas insnias, Cavalheiro, quem s? que mysterio. .
. Mistrio


com y - mais misterioso ainda. E a resposta do Phantasma que se
apresenta,  sonho e  febre: O
delrio que te ha de matar.

Falava num tom to experiente em viciados mas quem bebeu de fato foi seu
sucessor Fagundes
Varela. Falava em mulheres desmaiando de desejo mas tudo indica que quem
as conheceu no sexo foi
Castro Alves.

77


No enterro de um amigo suicida, no cemitrio iluminado por archotes (era
noite), disse o poeta no
discurso fnebre: "Todos os anos a morte escolhe, sorrindo, os melhores
dentre ns!"

A Sorridente, que andava ali por perto, anotou no caderninho o nome do
orador: lvares de Azevedo.
Profisso? Poeta. Diagnstico? Tumor na fossa ilaca - coisa rara na
Escola de Morrer Cedo.

24 de outubro

O vizinho do andar superior - e que nunca cheguei a ver - fazia s vezes
rudos esquisitssimos, no
consegui decifr-los nas minhas noites acesas, eram rudos noturnos:
coisas esponjosas que se
arrastavam pelo cho, pensei em panos midos mas os rudos passaram por
variaes, criaram vida e
se puseram deslizantes como cobras indo e vindo num ritmo comandado.
Muitas cobras - seria um
amestrador de circo? Cessaram de repente e comeou um barulho trepidante,
gil como o movimento
circular de uma mquina de rodinhas, rodinhas de borracha, talvez um
carrinho de boneca, embora
certa noite as rodas do carrinho tomassem inesperadamente dimenses
adultas, ficaram rodas mais
responsveis, difceis - uma cadeira de paraltico?

Os novos inquilinos que chegaram so silenciosos. To


silenciosos que ouo no silncio o som de uma pena raspando o papel numa
letra caprichada
- um velho escritor? Quando cessa o rudo rascante da pena que j deve
estar muito usada, comea o
rudo delicado de alfinetes caindo no cho, dezenas de alfinetes que
depois so recolhidos numa
caixinha de papelo. Quando a caixa transborda, so espetados numa
almofadinha - um alfaiate?
Fiquei adian-

78


do a pergunta que ia fazer ao porteiro sobre os meus vizinhos mas eles se
mudaram, chegaram
inquilinos novos e at agora no ouvi nada. Absolutamente nada. Continuo
esperando.

25 de outubro

Volto hoje  Bienal para ver mais uma vez as Rosas num pote verde. Me
sento diante do quadro e fico
olhando. Chega um casal de jovens enlaados, a moa fez alguma observao
divertida porque o
rapaz riu enquanto arranca o suter, se queixa do calor. E no mesmo andar
de disponibilidade,
passam. Chegam dois intelectuais, silenciosos e compenetrados, um deles
bem dentro do tipo de
intelectual de cinema, os culos, a barbicha, o cachimbo apagado no bolso
da jaqueta,  proibido
fumar. Afastam-se do quadro na distncia exata, o de barbicha murmureja
algo para o mais jovem que
concorda com um movimento de cabea. Passam. Chegam os colegiais de meias
grossas e uniforme
azul e branco, esto irrequietos, falantes, mas aos poucos vo perdendo a
alegria e  em meio de total
perplexidade (a boca ligeiramente aberta, o olhar vazio) que ouvem


a monitora esclarecer que este  um importante trabalho de Vincent van
Gogh, um pintor holands
que nasceu em 1853 e morreu em 1890 (repete a data para dois jovens que
tomam nota num caderno)
e  considerado um dos maiores pintores do mundo. Levanta mais a voz
quando diz que toda sua arte
se inspira nos humildes e deserdados da sorte, ele prprio um homem
bastante infeliz, no esquecer
que o gnio e a loucura esto sempre juntos nas artes, Van Gogh (ela faz
uma pausa, quer dar maior
nfase ao que vem em seguida) pintava entre crises mentais criando

79


assim numerosas obras-primas que foram verdadeiras renovaes no s no
tocante s paisagens
como tambm na concepo dos retratos. Faz nova pausa enquanto os jovens
tomam suas notas.
Aponta para o quadro e conclui que o pintor revelou tambm grande
originalidade nos temas florais,
conforme todos podiam ver diante desse simples quadro. Os colegiais j
voltaram a cochichar
indceis, a menina que masca chicle de bola raspando as solas dos sapatos
no cho como um cavalo
sfrego. A monitora quer dizer ainda alguma coisa, faz a expresso de
quem acaba de atirar prolas
aos porcos e levanta a mo, "vamos, vamos!" Tambm passam. Agora  o pai
de famlia que chega
com a mulher de ar enfastiado, puxando os filhos pela mo, o menorzinho
pedindo coca-cola, "tou
com sede, me!..." O pai promete


a coca-cola mas depois - "agora no enche!" diz sacudindo o menino que
ensaia o choro, a mulher
intervm, pega o menino no colo enquanto o homem se dirige ao
primognito, est impaciente,
"vocs precisam se ilustrar um pouco, a vida no  s futebol!" Baixa a
voz, explica que esse foi um
pintor notvel mas esquisito  bea, chegou um dia a cortar a orelha
direita (ou esquerda?) para
mandar embrulhada num papel de presente para uma dona. .. O menino do
meio se interessa, "cortou
o qu?" A mulher se apoia no brao do marido, est exausta, veio com os
sapatos de salto, se
soubesse, teria vindo com os de feira e o homem se irrita, ele bem que
avisou, no avisou?, mas por
acaso algum prestou ateno aos seus avisos? Por acaso algum naquela
casa ouvia o que ele dizia?
A mulher se anima, ah! agora lembrava, tinha visto uma fita com esse
pintor, beleza de fita! o artista
era aquele cara de furinho no queixo, ih, trabalhou to bem, como era
mesmo o nome dele? "O nome
est aqui, na ponta da lngua!..." O menino choraminga mais

80


alto, "quero coca-cola, me!" Passam. Como todos os outros, tambm eles
passam. Ficam as rosas
num pote verde. So vermelhas? Amarelas? Brancas? Vistas de uma certa
distncia, nelas predomina
um certo tom rosado mas com a aproximao investe o vermelho coagulado no
labirinto


profundo das corolas, as tintas densas, um amarelo spero como que
buscando a sada por entre laivos
arroxeados, perseguindo o branco que foge da mistura esverdeada e
reaparece adiante, num reflexo
azul de to puro. Todas as cores enredadas nas corolas atrozes que arfam
num intumescimento de
carne, as bordas das ptalas gretadas. Vertendo sangue.

Deso a rampa e me encontro com o poeta Y., ele est comendo um cachorro-
quente, sinto seu hlito
intenso quando fala de boca cheia. Agradeo o convite, estou sem apetite.

26 de outubro

Tarde de autgrafos. Primeiro livro. Na grfica, o funcionrio me informa
que os convites j foram
expedidos e que os salgadinhos j esto providenciados, vermute e
amendoins. Baixo o olhar para a
mesa: tem trs gavetas do lado direito e nessas gavetas estavam os
convites e os envelopes ainda em
branco. Isso na semana passada. Fico olhando pensativamente a primeira
gaveta e no sei que
pressentimento me faz pensar que a gaveta ainda est cheia, que os
convites esto todos ali. Aceito o
caf que ele me oferece,  um moo muito cordial que agora me conta,
rindo, o fracasso que foi a
tarde de autgrafos do escritor B., vazante absoluta, o nico comprador
que entrou na livraria foi para
perguntar se j tinha sado a nova edio d'Os sertes, ah! que

81

engraado, ele riu. Lembra outro episdio-piada enquanto me sirvo de
outro caf, minha mo est
tremendo quando levanto a concha de acar, mas esfriou tanto assim? Quer
dizer que a remessa
dos convites foi h uma semana - fao a pergunta afirmativa e ele tem uma
expresso evasiva, com um ponto de suspeita l no fundo: "No me lembro
exatamente quando eles foram, sei que agora a coisa  com o correio".
Atravs do vidro da janela, vejo o cu. Alm das incertezas do correio,
h algo que tambm foge
completamente de qualquer controle: o tempo. E se justo hoje - fim do
dia, comeo da noite -
desaba uma tempestade. A cidade virando uma Veneza sem pontes, onde os
leitores, os amigos, os
camaradas de letras? Elegante essa expresso que me soa bem portuguesa,
camaradas de letras. So solidrios, sim, mas com qualquer tempo? Na
livraria deserta, alguns familiares fidelssimos, enxugando
disfaradamente a gua do guarda-chuva que escorreu em cascata at o
ombro. Me vejo solitria como no instante da criao. Uma diferena, a
hora da criao  uma hora vital e aqui as coisas fluem em cmera lenta,
o pesadelo  lento. s vezes, furtivamente, olho a rua. Sombra e chuva.
Os transeuntes passando num p-de-vento, arrebatados pela ventania, ah!
como correm! E nesse trecho, a cmera filma acelerado, rapidinho como nas
comdias do cinema mudo. Volta para a lentido interior. Bebo o vermute
ruim, encho a boca de amendoins e fico desenhando bem devagar a
dedicatria para a tiazinha que lamenta o mau tempo, "que pena!" No tem
importncia, eu digo.
A menor importncia, repito e me envergonho do meu tom falsamente humilde
e esqueo o nome
da prima que morou tantos anos em casa. Fao uma dedicatria
afetuosssima para um
desconhecido e gelada para o amigo ntimo, seria uma soluo. Essa
82


do autor morrer na prpria tarde de autgrafos, as pessoas chegando na
livraria e a voz compungida
do livreiro avisando que o autor morreu de uma sncope, o corpo est na
Biblioteca Municipal, em
exposio. "Dispo o meu corao como uma puta", resmungou Shakespeare e 
nisso que penso
enquanto you dando a entrevistinha para  jovem que chegou com seu
gravador embrulhado no
impermevel, os cabelos compridos pingando gua, as gotas escorrendo no
celofane, casulo das
flores que comeam a murchar em cima da mesa. Vejo os dedinhos curtos, de
unhas rodas,
apertando num acaso desesperado os botes do gravador,  que no est bem
certa se estar
gravando ou no, essa mquina continua um mistrio para ela. Digo que
todas as mquinas so
misteriosssimas, quando a gente pensa que aprendeu tudo a respeito,
acontece alguma coisa e fica
escuro outra vez. Mistrios, repito e ela passa para a pergunta nmero
dois, quando e por que
comeou a escrever. Fao a dedicatria para o jovem de olhos asiticos,
no entendo o nome que
vai soletrando, cometo erros na dedicatria e quando me volto de novo
para o gravador, o corao
no se despe mas veste fantasias sucessivas, agora  um cigano, agora 
um mendigo, veste a pele
de cordeiro mas vira lobo ao beber a gua do rio - mistrios, menina!
Me despeo do moo da grfica que est atendendo o telefone e quando olho
para o cu acumulado,
cortado pela chispa de um relmpago, me vem uma incontrolvel vontade de
rir. Agora sei que a
gaveta continua repleta, convites e convidados, todos fechados ali e ele
sabe disso, esse funcionrio
bemhumorado. Na rua, me lembro da ameaa bblica, Deuteronmio? "O cu
que est por cima da
tua cabea ser de bronze e a terra debaixo dos teus ps ser de ferro."
Continuo feliz. Livre.
Recuso a me
83


interpretar mas quando comear a tempestade, o meu cu secreto estar
desabrochado em estrelas.
27 de outubro
Tu quoque Baudelaire?! Sim, ele tambm, por que no? Anoto este seu
pensamento que  um
smbolo da estrutura patriarcal: Aimer ds femmes intelligentes est un
plaisir de pdraste.
No era em vo que as mulheres disfaravam a inteligncia que repelia
pretendentes ao invs de
atra-los, mulher inteligente chegava a assustar. Me lembro do tio J.
dizendo  minha me que
rompera o noivado com M. I. porque ela era inteligente demais, culta
demais, andava exausto com
suas elucubraes intelectuais, queria uma gueixa e no uma Minerva:
"Parece um homem falando!
Me deitar com ela  me deitar com a Mulher Barbada do circo". Minha me
riu, eu fiquei rindo
junto mas um tanto preocupada, era adolescente, com certos planos. A
sabedoria ento era fazer
como a nossa vaquinha Filomena que escondia o leite? Filomena escondia o
leite, era sonsa.
Roxo  a cor da paixo
Filomena escondia o leite, queria guard-lo in,Jeiro para o bezerrinho.
Tia L. escondia sua poesia,
quis guard-la para a morte. Dessa remota tiazinha ficou apenas um
desbotado retrato no lbum:
vestido de tafet preto de gola alta, agarrada no pescoo para deixar
escapar s a fmbria da
rendinha. Cintura de vespa, toda dura sob as barbatanas do esparti-
84
;


lho. E a carinha em pnico. Leve, descontrada, a sombrinha branca com
seus babados frouxos e um
laarote transparente no cabo.
Escrevia os poemas escondida, fechada no quarto, a letra tremida, a tinta
roxa. Meu bisav ficou
meio desconfiado e fez o seu discurso: "Umas desfrutveis, mana, umas
pobres desfrutveis essas
moas que comeam com caraminholas, metidas a literatas!" Ela entendeu e
fechou a sete chaves a
obra proibida. Antes de morrer (morreu de amor contrariado), pediu que
enchessem com seus
versos o travesseiro do caixo branco, era moda caixes com travesseiros.
Foram tantos os versos,
mas tantos que tiveram que encher tambm o acetinado colcho da mocinha
duplamente indita, era
virgem.
Mas quem ousava desafiar a famlia e a sociedade? Aqui no Brasil foram
bem poucas as que
chegaram a se manifestar. L fora o nmero de artistas at que foi
razovel nos moldes de uma
George Sand que assumiu ofcio e sexo com total arrogncia. Mas se
passando para a outra banda:
amiga dos homens, assinava seus escritos com nome de homem, vestiuse como
um homem e
fumava tranquila seus charutinhos. Uma poca. Dois estilos.
28 de outubro
O telefone tocou s duas da madrugada, fui atender. Era Z., que comeou
por me pedir desculpas
pelo adiantado da hora mas  que estava por demais desesperado, ia se
matar. Das duas at as trs e
meia, calma e racionalmente fiquei expondo o elenco de razes
poderosssimas que poderiam lev-
lo a viver. Ele resistiu a todas as razes e quando achei que no tinha
mais nada a dizer em prol da
vida, recorri ao
85


meu ltimo trunfo mas sem convico, sempre o considerei um materialista:
pode se matar mas
voc vai pr inferno!
Ele me pareceu impressionado com a perspectiva desse inferno no qual
nunca acreditou. Ficou
pensativo. Despediu-se j sonolento e prometeu adiar o gesto. Salvei-o
mas no me salvei, agora
quem queria se matar era eu.
A noite perdida. No perder o dia - resolvi e preparei minhas defesas.
Telefonaram e no atendi,
tocaram a campainha e deixei tocar, veio o correio, as cartas invadindo o
vestbulo, introduzidas
uma atrs da outra debaixo da porta aps os chamados veementes do
interfone. Fiquei quieta,
olhando para uma das cartas que foi atirada com tanta fora que chegou
at minha poltrona, o
envelope arfante num desafogo de respirao. Fiz o ch e fiquei roendo
uma torrada com mel
enquanto a campainha recomeou a tocar com obstinao. Ouo o novo
visitante fungar e estalar os
dedos e no fao ideia quem possa ser essa pessoa que estala os dedos e
funga quando se irrita. Ligo
o toca-discos bem baixinho, Bach: Toccata, Adagio e Fuga em d maior.
Volto para minha mesa.
Abrir a agenda  entreabrir a carapaa que quando perco (essa carapaa a
gente perde s vezes) fico
escondida como os pequenos crustceos do fundo do mar, esperando que se
forme outra. Espio os
dias por essa fresta.
29 de outubro
Volto de uma reunio feminista. Exaltao e fervor na maioria das
participantes. De resto, a mesma
confuso de toda revoluo ainda no incio. Discusses bizantinas em tomo
de palitos quando o
86 )


essencial. . . Muita vontade de afirmao pessoal, muita vontade de poder
na mesma linha machista.
Digresses e agresses desnecessrias. Algumas das revolucionrias sabem.
Mas so poucas as que
sabem e desenvolvem um raciocnio claro. Na maioria, a perplexidade, fico
comovida. Mas no tm
importncia, nenhuma importncia a confuso e os desencontros de direo
e de linguagem: quando
na Torre de Babel algum pedia uma tbua, atiravam um tijolo. Toda
revoluo desse tipo tem que
ir mesmo por paus e pedras, nenhum prejuzo nisso, pois no  o prprio
sistema que est sendo
revolvido? No tem ainda a revoluo uma base na massa mas esse fato
tambm me parece normal,
ocorre o mesmo em todas as partes do mundo onde se levantou a bandeira.
Tempo de espera.
30 de outubro
Escolhi a mesinha na calada e pedi um suco de frutas naturais mas
sabendo que viria um suco com
sabor de frutas artificiais, frutas de laboratrio, bebs de laboratrio
- mas onde estamos? Enfim, j
anunciaram que temos nossas usinas nucleares, um dia vai chegar um
sergipano (ou um paulistano,
no tenho preconceito de regio) e vai apertar distraidamente o boto
errado. Pronto. O Brasil vira
memria. E as pessoas to inconscientes ouvindo as musiquinhas na porta
da loja de discos. O
homem engraxando os sapatos. O casal de namorados na fila do cinema. O
velho com o netinho
jogando migalhas para os pombos - mas ningum mais l os jornais? Me
lembrei que na juventude
quase nem lia jornal e agora essa massa de. informaes me atochando
olhos, ouvidos, boca, nariz -
e se parar de ler jor-
87


nais? Era BOM antes, lembra? Mas agora era tarde. Tarde no Planeta! Tinha
de ficar sabendo que a
polcia tailandesa descobriu que casais de traficantes sequestram bebs,
extraem as entranhas das
crianas e enchem os buracos com herona, cocana
- mas por que eu tinha que saber disso? Visualizo o casal de jovens
fingindo a maior dor ao
acompanhar no avio o corpo do anjinho pesado de drogas. Mas por que
tenho que assumir tambm
as patifarias tailandesas? Como se no bastassem as nossas. Afastei o
copo de suco, inapetente para
o suco. Para a vida. Pedi um caf e o caf igualmente intragvel, mas de
onde veio esse caf?
perguntei e o garom cara-de-pau informando que o caf veio do Brasil,
ora! Pedi a conta e quando
ouvi minha voz a descoberta me iluminou como um raio: a gripe, estava com
gripe. Aquela
sonolncia, a depresso era da gripe, claro,  maravilha! quando se
descobre a causa. Me dem a
causa que com o efeito me arrumo eu! Despedi-me efusivamente do garom e
voltei para casa, ia
depor as armas no primeiro degrau.
As cadeiras
H duas cadeiras que se parecem tanto que quando me sento numa
imediatamente me ocorre a
lembrana da outra: cadeira de dentista e cadeira de avio. Igual o
constrangimento, a m vontade
quando me dirijo a elas - vontade de adiar a hora. E a partida. A nsia
no peito, o frio nas mos. No
bolso, o carto do dentista com a hora marcada. No bolso, a passagem
area, pessoal e
intransfervel. Vi certa manh um gato com seu andar de Veludo rondando a
gaiola do passarinho.
com esse mesmo andar o medo se aproxima de mim, sinto seu cheiro em am-
88


bos os ambientes anti-spticos, fechados. Cores neutras, luz fria
incidindo nos metais reluzentes que
lembram farmcia. Hospital. H sempre uma msica suave no rdio. O
locutor de voz velada faz o
anncio no mesmo tom impessoal com que o moo de bordo anuncia pelo
microfone as condies
atmosfricas em meio das recomendaes de praxe. A enfermeira to limpa
de avental branco no
tem qualquer coisa da aeromoa to gentil que oferece revistas, caramelos
e algodezinhos para os
ouvidos? O guardanapo  preso ao pescoo com aqueles mesmos gestos
mecnicos com que a
aeromoa vem nos ajudar a fechar o cinto de segurana. "Deseja mais
alguma coisa?" - pergunta ela
com uma amabilidade postia. Desejaria descer - seria a resposta exata.
Vontade de fugir da cadeira
de couro to confortvel, a almofadinha na altura da nuca, o assento
anatmico, perfeito. Perfeito?
Perfeio um tanto suspeita: depois de tantas inovaes, por que o avio
ainda cai? Por que o
dentista ainda di? To importante essa vitria da tcnica com razes
norte-americanas, ltimo tipo,
preciso. Infalibilidade. A aeromoa se afasta com o sorriso igual ao da
chegada. A enfermeira se
afasta e as solas de seus sapatos parecem grudar no oleado do cho. O
ronco do avio no ensaio da
decolagem. O motor do dentista provando uma, duas vezes antes de nele ser
atarraxado a agulha. A
boca aberta como uma oferenda. O corpo encolhido, o peito fechado.
Entrelaadas no colo as mos
duras, viscosas. A doce musiquinha do rdio parece vir de muito longe -
de que mundo? Acelera-se
o motor. O corpo se agarra  cadeira, ambos integrados, formando uma pea
s. Curta a respirao.
Os olhos apertados. O pedal invisvel  acionado e a cadeira com o corpo
vai se erguendo no ar. Os
motores do avio sopram com mais fora, vai levantando voo. A pata do
gato alcana o passarinho.
89


2 de novembro
O reprter do jornal falado da tev - um moo bonito e bem-vestido - fez
hoje denncias terrveis.
Sempre esto sendo feitas denncias terrveis, o Brasil  o pas,
suponho, onde se faz mais
denncias, somos extraordinariamente bem-informados atravs de todos os
meios de comunicao.
Mas as denncias feitas nesta noite me perturbaram demais. Guardei apenas
dois nmeros que me
marcaram como se marca o gado: 15000000 (quinze milhes) de rvores so
abatidas por ano na
floresta amaznica. E 500 000 (quinhentas mil) crianas morrem por ano no
Brasil s de
tuberculose, excludas outras doenas. O pas das denncias. Nunca
acontece nada depois mas ao
menos a gente fica sabendo, o que j  alguma coisa. O locutor esboa um
sorriso aps o noticirio
tenebroso e nos deseja uma boa noite.
J de novembro
O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando
at a enfermeira, no est
aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse
miservel. A enfermeira faz
uma expresso compungida e pergunta se no me importo de ceder minha hora
para o menino. com
todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum
sentimento de culpa. you
andando e pensando debaixo do sol,  BOM pensar e andar no sol. Dentes
demais, nervos demais.
Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados.
Os dissidentes. Mas
a maioria ficou firme, fiel ao regime, me comovo com tamanha dis-
90


ciplina. E este sol e este ar fino. Escrevo um poema no carto da hora
cancelada: Estou viva. /
Lcida. / E tirante os dissidentes / os dentes so meus.
dipo e suspiros
"Realizei inmeras pesquisas com o pneumgrafo", disse Cari Jung. "Nesse
aparelho, fica
registrado o volume exato da respirao sob a influncia de um complexo,
isto , sob a influncia de
um bloqueio que restringe, trava o ato de respirar plenamente. Assim, uma
das razes da
tuberculose  a manifestao de um complexo sob o domnio do qual as
pessoas tm uma respirao
artificial, sem profundidade porque no so ventilados os pices
pulmonares. Da o organismo,
fragilizado, com maior facilidade contrai a doena. Queria acrescentar
que metade dos casos de
tuberculose  de origem psquica. A ttulo de ilustrao, vi muitas curas
verdadeiramente
surpreendentes de tuberculose crnica efetuadas por psicanalistas. No
tratamento psquico, aos
poucos as pessoas aprendiam de novo a respirar quando se revelava a
natureza dos seus complexos:
se autoconheciam. E se conhecendo, se aliviavam passando a respirar
melhor, caminho seguro para
a cura total."
Nessa abordagem, no tratou Jung especialmente do complexo de dipo, mas
repensando nos
nossos romnticos, tuberculosos na sua estarrecedora maioria, vejo que
no podiam eles escapar da
engrenagem edipiana numa poca em que o preconceito em relao ao segundo
sexo estava no
auge, ntida a diviso das mulheres em dois grupos rigorosos, como num
laboratrio de qumica: de
um lado, as mes, as irms, as esposas e as noivas, includas nes-
91


s faixa aquelas que entravam para o convento, mortas para este mundo. No
lado oposto, as
prostitutas sem misturas e sem nuances: santas e pecadoras. Santurio e
besteiro.
Dentro da mentalidade vigorante, natural o surgimento e desenvolvimento
do complexo edipiano:
Mal do Sculo somado ao Mal de dipo, as letras gradas para nfase maior
porque a carga era
realmente poderosa, lvares de Azevedo, edipiano puro,  um exemplo
bastante expressivo dessa
fixao materna: longe de casa e morando numa cidade na qual no achava a
menor graa, comeou
a viver mal. Respirar mal, as portas e as janelas sempre fechadas, ele
detestava o ar livre. O peito
fechado e fechada a braguilha. Devia suspirar muito, os romnticos
suspiravam demais. Suspiros
doloridos, suspiro nunca  saudvel porque quem suspira  um complexado e
complexado edipiano,
esse ento suspira dobrado.
"Que fatalidade, meu pai!" - suspirou antes de morrer, mas ao invs de
dizer pai, poderia ter dito
"minha me!" no tivesse ele tido o cuidado de afastar a me do quarto,
pai pode sofrer, me,
nunca! Paixo por essa me. Paixo pela irm. A soluo era escrever seus
poemas, suas cartas,
relatos s vezes divertidos, maliciosos, agudo o senso de humor. Outras
vezes, confidncias de um
menino mimado, queixoso, o tom quase amargo mas contido, no fosse ela se
afligir ainda mais
com o seu pessimismo. com a sua saudade.
Nas poesias, real ou inaparente, a imagem materna sempre magnfica: o
sagrado amor. Alguns
poetas menores como Casimiro de Abreu, exaltadores da infncia (ai! os
meus oito anos!) tambm
foram edipianos exemplares nessa Escola de Morrer Cedo. Mas lvares de
Azevedo tinha o vigor
do gnio:
92


Se eu morresse amanha, viria ao menos fechar meus olhos minha doce irm;
Minha me de
saudades morreria Se eu morresse amanha!
"Botei meu nen numa creche pra acabar desde cedo com fixaes,
dependncias", me disse uma
feminista convicta. Minha razo concordou plenamente com esse
comportamento, est certo, cortar
em profundidade o cordo umbilical, no venha ele se enrolar mais tarde
no peito do edipiano,
dificultando-lhe o ato de respirar com todas as sombrias consequncias
junguianas. Mas meu
corao, esse resistiu  ideia. E se o menino, escapando dos suspiros
edipianos, crescer aquele moo
ressentido, fazendo bico, um a mais no exrcito dos rejeitados crnicos?
A prova ;
Estatsticas. Nmeros. A civilizao da tecnologia. Ento alguns
cientistas-monges resolveram
demonstrar que existe alguma coisa de impondervel que escapa a esse
materialismo que est
fazendo do homem o mais infeliz dos seres: num laboratrio foram
plantadas trs sementes em
condies e circunstncias absolutamente iguais. Igual a terra, a
iluminao e a gua regada nos trs
vasos onde foram colocadas as sementes trigmeas. Uma nica diferena
nesse tratamento: quando
o cientista-monge regava a terra do primeiro vaso, dizia em voz alta
palavras de fervor, esperana.
Palavras de amor: "Quero que voc cresa bela e forte porque confio em
voc, porque neste instante
mesmo estou lhe dando minha bno do fundo do corao". . . etectera,
etectera. Diante do
segundo vaso, em silncio e
93


automaticamente ele deixava cair a gua. Mas quando chegava a vez do
terceiro vaso, ele s tinha
palavras de hostilidade, desafeto: "Voc ser uma plantinha anmica,
feia, no acredito na sua
sobrevivncia, est me ouvindo? No gosto de voc!"
Ela ouviu. As outras tambm ouviram e sentiram a diferena de tratamento:
a semente bem-amada
resultou numa planta vigorosa e cheia de graa. A semente regada com
indiferena cresceu
indiferente, sem a exuberncia da primeira. Quanto  semente rejeitada,
esta virou uma plantinha
obscura, de caule entortado e folhas tmidas, a cabea pendida para o
cho.
A disciplina do amor
Foi na Frana, durante a segunda grande guerra: um jovem tinha um
cachorro que todos os dias,
pontualmente, ia esper-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um
pouco antes das seis da
tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior
alegria, acompanhava-o com
seu passinho saltitante de volta a casa. A vila inteira j conhecia o
cachorro e as pessoas que
passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo
animado atrs dos mais
ntimos. Para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado at o
momento em que seu dono
apontava l longe. Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi
convocado. Pensa que o
cachorro deixou de esper-lo? Continuou a ir diariamente at a esquina,
fixo o olhar ansioso
naquele nico ponto, a orelha em p, atenta ao menor rudo que pudesse
indicar a presena do dono
bemamado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida
normal de cachorro at
chegar o dia
94


seguinte. Ento, disciplinadamente, como se tivesse um relgio preso 
pata, voltava ao seu posto
de espera. O jovem morreu num bombardeio mas no pequeno corao do
cachorro no morreu a
esperana. Quiseram prend-lo, distra-lo. Tudo em vo. Quando ia
chegando aquela hora ele
disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias. com
o passar dos anos (a
memria dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que
no voltou. Casou-se
a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares.
Os amigos, para outros
amigos. S o cachorro j velhssimo (era jovem quando o jovem partiu)
continuou a esper-lo na
sua esquina. As pessoas estranhavam, mas quem esse cachorro est
esperando?. . . Uma tarde (era
inverno) ele l ficou, o focinho voltado para aquela direo.
Persona
Passei o pente no cabelo, abotoei o colete, enfiei o anel no dedo e me
olhei no espelho: a imagem
(persona) correspondia exatamente ao juzo que eu (e os outros) faziam de
mim. Fechei a mala.
Tomei o trem. Na recepo do hotel, apresentei meus documentos, preenchi
a ficha, gratifiquei o
moo que me conduziu ao apartamento, descerrei as cortinas para a bela
vista e liguei o rdio de
cabeceira que tocava a Serenata de Schubert. Quando anoiteceu, rasguei
meus documentos em mil
pedacinhos, joguei tudo no vaso sanitrio e puxei a descarga, tirei o
colete, guardei-o dentro da
mala e despachei a mala para o seu pas de origem, desfiz as pegadas da
estao at o hotel,
tranquei a porta do quarto, joguei a chave no rio e sa pela janela.
95


Tunsia
Sondei o nosso acompanhante, um rabe de longa bata cinzenta, bigodes
negros e fez vermelho no
alto da cabea, o pingente ao vento. Pergunto-lhe se Cartago era muito
longe de Tnis.
"Carthage?',', ele repete num francs forte, carregado nos erres, francs
de rabe em terras d'frica.
No, no era longe no, ficava cerca de meia hora dali, talvez menos.
O hall borbulhante, j transbordando com as delegaes do festival de
cinema que chegavam de
todas as partes do mundo. Quando entrei no elevador, senti um perfume
delicioso: mbar. Certos
perfumes me deixam feliz e aquele especialmente, luminoso, quente. Algum
subiu neste elevador e
deixou este perfume, eu disse a P. E. A mesma pessoa esteve aqui de novo,
pensei em xtase
quando entrei no elevador pela segunda vez. Na minha distrao, custou um
pouco para perceber
que o perfume de mbar fazia parte do elevador. Ento, sempre que entrava
nele, ficava feliz outra
vez. E Cartago?
Outono sob o sol da frica quer dizer vero. Mas as noites so suaves com
uma brisa clida que
chega a ser fria madrugada adentro. "Puxa, como os ricos se divertem!" -
foi o pensamento
subversivo que tive na manh em que da sacada do apartamento fiquei vendo
l embaixo, em redor
da mancha azul-turquesa da piscina, americanos e alemes lustrosos e
vermelhos tomando sol nas
suas cadeiras, culos escuros, o copo de usque na mo, servidos por
jovens garons de calas
bufantes, ah, como brilhavam as uvas douradas entre os cubos de gelo. O
vinho tambm dourado.
Esqueci-os na sua imobilidade de lagartos e fiquei vendo a cidade l
adiante na sua brancura
imaculada de cal. Nas lonjuras, com o casario rareando nos descampados,
as silhuetas dos camelos
cruzando as estradas.
96


Convencionai a diviso mas vlida: tem as cidades masculinas e as cidades
femininas,  padre
Anchieta!, meu Padrinho, que optimus para o industrial e que pessimus
para o artista viver no
regao de ao de uma cidade-macho como So Paulo. O Rio? Feminino, 
claro. Nessa trilha, Tnis
tambm  uma cidade do segundo sexo e do terceiro mundo, acentuado o sexo
na disposio do
casario redondo, sem arestas, com seus labirintos e mistrios de um tempo
em que o sexo ainda
tinha mistrio. com a moda dos sexlogos e da indstria do erotismo
parece que o mistrio acabou.
Ou ainda restou algum? . . .
Perambulo pela cidade que  bela e limpa, bela na parte antiga porque no
contaminada pela
arquitetura ocidental. Os mercados refulgentes de peas de cobre,
tapearias, jias. As praas onde
os vendedores ambulantes abrem suas tendas de uvas e tmaras em cachos.
Os mendigos tambm
em cachos.
Fico olhando as mulheres vestidas  maneira tradicional, o rosto velado
embora a dura lei dos
rabes j as tivesse libertado do uso obrigatrio do vu que deixa apenas
os olhos de fora. Olhos
negros, pintados, contrastando com a brancura das tnicas nas quais se
enrolam da cabea aos ps.
A um garom que me serviu um peixe rosado como a rosada areia de
Hammamet, perguntei por que
as mulheres no tinham ainda se decidido a baixar o vu. Presso da
famlia? Da religio? Eram
raras as que passavam pelas ruas vestidas  maneira ocidental, ousando
desafiar os costumes:
algumas jovens com jeito de universitrias e algumas mulheres maduras, o
ar independente de
vivas ou intelectuais afeitas aos usos de outras terras. O garom negou
com veemncia qualquer
presso religiosa ou familiar. " que elas se habituaram com esse estilo
de vestimenta, apenas isso. .
." Fiz-lhe a pergunta direta; e a sua
l
97


mulher? Ela anda sem o vu? O homem me encarou, escandalizado: "Nunca,
madame, imagine se
eu ia permitir! Mulher tern que ser escondida. Guardada".
As guardadas mulheres da Tunsia. No festival de cinema, as bobinas se
desenrolando. As
mulheres-bobinas se enrolando nos vus. Sob o cu estrelado me senti
dentro de uma das antigas
gravuras (imagens secretas) das Mil e uma noites, conta, Sheherazade!
Sexta-f eira 13
Era um romance e reduzi para uma novela. Era uma novela e reduzi para um
conto - fragmento que
pode ser lido em poucos minutos e soprado da memria com a rapidez com
que foi soprada a cinza
da pequena urna que o funcionrio do crematrio entregou ao familiar
interessado. E que o familiar
interessado (segundo a vontade do morto) deveria espalhar no campo. Ou no
mar, isso se a moda do
dia estivesse mais inclinada para o mar. Mas o familiar interessado abriu
mo de todo o ritual que o
morto idealizou (veleiro, as cinzas na espuma das ondas ou o cavalo de
crinas ao vento, a campina,
cavaleiro e nfora) e simplificou a cerimnia: levou a pequena urna at o
clube, tinha atrs da
quadra de tnis uma pista de corrida, podia enterr-la debaixo da rvore.
Debaixo da rvore, dois
tenistas tomando laranjada, desistiu. E naquele terreno baldio? L perto
mesmo, hem? Que tal
naquele terreno? Foi at o terreno, timo, ningum. com o cabo quebrado
de uma vassoura que
achou no meio do mato j alto, fez a cova apressada e enterrou a urna,
cobrindo-a com terra, lixo, o
que encontrou
98


fcil em redor. Quando saiu, viu o moleque espiando, esperando que ele
sumisse para desenterrar a
urna, jogar as cinzas fora (louco de raiva, mas no era dinheiro?) e
levar a caixinha, quem sabe
podia render alguma coisa. Chutou uma pedra, e da? Fazer o qu agora?
"Pacincia, tenho hora
certa pra pegar o batente, viu? E com esse trnsito, caralho! Um pouco
mais de respeito pelos vivos,
p!"
Apia
A origem talvez esteja no verbo apear, desmontar, botar o p no cho,
vamos, apeia a! mas tambm
no estou certa, o que sabe a gente das origens? Me lembro do rio rolando
pardacento perto da casa
dos morcegos, uma runa que tinha sido - contavam - uma bela casa onde
fora assassinada a Laura
das Rendas. Agora era o abrigo da morcegada, meu irmo prendeu um na
gaiola, pude ver a cara
dele bem de perto: a focinheira arrebitada, de um cinza escamoso, era
ruim como a do pequeno
diabo sob a sandlia do soldado-santo na pintura da parede da igreja, as
velhas beatas raspavam
com a unha da raiva esse focinho. Mas seus olhinhos murchos, com laivos
de sangue, tinham o
cansao triste dos olhinhos de um velho, solta ele! eu pedi. O Morro do
Ouro. Meu pai era dono de
um pedao do morro, tem mesmo ouro, pai? eu perguntava e ele sorria por
entre as baforadas da
fumaa do charuto, gostava de charutos e roleta, era um jogador. Minha
me tocava piano e fazia
goiabada no tacho de cobre, chamei de mulher-goiabada s mulheres dessa
gerao. Gostava de
cantar e me parecia alegre mas vendo hoje os seus retratos, noto que sua
expresso era triste, ela era
triste?
99


Todas as noites, depois do jantar, a molecada do bairro se amontoava no
porto da minha casa: era a
hora negra das histrias dos lobisomens, bruxas, almas-penadas, tinha uma
procisso de caveiras
que passava  meia-noite, cantando,  Deus! como eu tremia quando minha
pajem tapava o nariz e
imitava na perfeio esse canto. Minha me descobriu que ela chamava a
cachorrada para lamber no
cho os pratos sujos com os restos do jantar (tinha pressa, queria ficar
livre logo) e botou-a de
castigo. Ento tomei seu lugar de contadora de histrias e assim que
comecei a inventar, vi que
sofria menos como narradora porque transferia meu medo para os outros,
agora eram os outros que
tremiam, no eu. Datam desse tempo meus primeiros escritos, isso depois
do aprendizado com a
sopa de letrinhas, aprendi a escrever meu nome com as letrinhas de
macarro que ia alinhando na
borda do prato, me lembro que o y era difcil de achar, procurava no meu
prato, ia ver no prato dos
outros que acabavam me enxotando. Tinha que recorrer ao caldeiro
fervente com as letras
borbulhando l no fundo.
Ervagens
Comeou por dizer que trabalhava no campo desde menino e que era parente
longe de Bismarck,
por acaso eu j tinha ouvido falar em Bismarck? Fiz que sim com a cabea
e ele apertou os olhinhos
azuis e vivos como duas continhas. Coou o queixo com a barba branco-
amarelada meio rala e no
sorriso mostrou apenas os dois caninos que lhe restaram, avariados, mas
resistindo: "Ich! ser
parente de gente importante no adianta nada". Concordei,  verdade, s
vezes no adiantava
mesmo nada. Ele apoiou
100
l


a enxada na rvore e apontou para uma touceira, est vendo? Alecrim. E
disse que ch de alecrim
era um santo remdio para o corao, por acaso meu corao no andava
bem? Inclinei-me para a
planta, meu corao? Sim, at que ele andava bem demais, mas que corao
no funciona quando se
tem vinte anos? O problema  que eu estava apaixonada, o outro se lixando
com o meu amor e esse
amor fazendo crescer aquele fogaru no peito,  Bismarck! qual  a erva
que acalma o amor?
perguntei mas ele agora se voltava para um p de hortel, a melhor coisa
do mundo para o estmago
era um chazinho de hortel sem acar depois das refeies. Olhei
desinteressada para o galho com
as folhinhas ainda midas de chuva, apanhei uma e triturei-a nos dedos.
Fiquei sentindo seu
perfume, estmago? Nem sabia se tinha algum, o que me doa s vezes era a
barriga, esse ch devia
ser BOM para velhos, tinha uns velhos l em casa, mas o que me
interessava saber, viu? . . . O
alemo j capengava todo animado em redor de outra planta, voltou com uma
folha, essa era a
ervacidreira, beleza de ch pra sossegar o nervo. Nervos? Trinquei a
folha nos dentes, no, tambm
no, minha loucura era razovel, fechada a sete chaves, o meu era mal de
amor, amor! No que no
quisesse amar, mas amar menos, sem tanto sofrimento, comecei a dizer e o
velho meio surdo me
explicando que o ch de folha de tangerina era demais de BOM para
desengrossar sangue grosso,
pensei que se tratasse de folha de mexerica mas a folha de tangerina era
diferente, quer ver?, e ele
foi buscar ligeiro a folha espessa e aveludada: bastava uma xcara desse
ch e o sangue j ficava
leviano como o sangue de uma criancinha. Guardei a folha no bolso da
blusa enquanto ouvia a
advertncia do perigo de cortar gripe com plulas, injecoes, a gripe
tinha que madurar na-
101


turalmente at que o catarro, com o perdo da palavra, se desgrude do
peito porque seno vira a
tsica.
Puxei-o pelo brao antes que ele fosse buscar a folha antigripal, mas e a
tisana para o mal de amor?
Tinham me dito que ele conhecia umas ervagens para atenuar aquela
aflio, aquela ansiedade,
mesmo dormindo estava acordada como o drago da histria,  vigilncia! 
tenso! No confundir
com teso que isso no se usava, imagine, todas as emoes muito
espirituais, era a alma
esbraseada e quando se dizia alma, no se pensava noutra coisa, veja: s
porque um colega vivia
falando nas vantagens do amor livre, foi apelidado de Amor Livre e podado
de tudo quanto era
festinha de famlia. E s tinha festinha familiar no nosso grupo.
Mal de amor? Ah. . . - fez o alemo apertando os olhinhos incrivelmente
jovens. Sorriu e falou num
tom secreto que tinha de fato uma erva rara para abrandar essa doena,
maravilha de erva mas que
no dava assim  bea, no, s conhecia um p perto da sua casa, meio
mofino porque algum
descobrira os efeitos e vivia levando as folhas, gente ruim, at os
brotinhos arrancavam com a unha
mas ele j tinha tirado uma muda que crescia taluda, graas a Deus!
Tomei-lhe a mo escamosa,
ento? podia me trazer algumas folhas? Ele se empertigou altivo, fino e
de repente ficou um
prncipe: teria o maior contentamento em ajudar a mocinha mas s amanh
que agora j ia
anoitecer, amanh, nessa mesma hora, traria at uma muda que ia plantar
numa lata, eu podia levar
quando viajasse. Pegou a enxada, enfiou a trouxinha de remendos no cabo,
botou a enxada no
ombro e l se foi capengando pela picada barrenta, amanh, amanh!
Quando eu j ia chegando na sede da fazenda, me lembrei, mas no! amanh
eu devia ir embora
cedinho, logo no primeiro trem para alcanar a pro-
102


v oral, fim das frias e do convite, no tinha a menor ideia se um dia
ia voltar, ei! Bismarck! Otto
von Bismarck! fiquei chamando aos gritos. No silncio que ia se fazendo
penumbra, s ouvi a
resposta de um passarinho, um fogo-pagou repetindo infinito que o fogo
tinha apagado, fogo-
pagou-pagou-pagou. . .
Marrecas selvagens
Algumas atravessam o lago voando na superfcie, to rasteiras no seu voo
que os ps vo roando as
guas, deixando atrs de si um leve sulco que logo desaparece. Mas outras
fazem a travessia no
fundo do lago: submergem completamente para s ressurgirem na outra
margem. Ento soltam
gritos, as asas pesadas de lodo, arrastando ainda nos ps restos de
plantas aquticas. Eu olhava para
as marrecas que escolhiam o fundo.
As frases fatais
Numa revista norte-americana leio esta declarao da feminista B. F.:
"Ser maravilhoso envelhecer
um dia e poder me instalar tranquila num banco de jardim, sem que aparea
qualquer sedutor
frustrado procurando puxar conversa".
No acho maravilhoso envelhecer. A gente envelhece na marra, porque no
h mesmo outro jeito, j
fui a tantas estaes de guas, j bebi de tantas fontes - onde a Fonte
da Juventude, onde? Quanto ao
banco de jardim, se um sedutor (frustrado ou no) vier conversar comigo,
no me parece isso um
103


horror, basta me levantar e ir sentar em outro banco. Pode ser tambm que
o sedutor frustrado nem
queira seduzir mas falar apenas na sua frustrao, j vi tanto
desconhecido querer falar sobre seus
problemas. Ento a gente ouve ou no. Horror mesmo seria se me sentasse
num banco de jardim e
as pessoas fugissem de mim espavoridas, sedutores e criancinhas. A, sim,
eu ficaria muito triste.
Frase fatal de outra feminista, mulher que admiro muito, M. T. H.: "Odeio
os homens e me deito
todas as noites com o homem que amo!"
As contradies. Mas esse dio generalizado pelos homens no acabar por
contaminar o seu amor
no particular? A vontade de vingana s pode desviar a revoluo dos seus
objetivos verdadeiros.
s mais exaltadas, lembro a frase de Che Guevara num dilogo com seus
revolucionrios: "
preciso endurecer mas sem perder a ternura".
As frases ideais
Volto (ainda e sempre) a Simone de Beauvoir e dela destaco esta frase,
marco elementar desde o
incio da luta: "Somente o trabalho fora do lar  capaz de ajudar a plena
realizao psquica e social
da mulher".
E a retaguarda dessa mulher que vai trabalhar fora? Como fica essa
retaguarda? A professora
Moema Toscano d a resposta certa: "Enquanto no se superar a necessidade
da empregada
domstica (como acontece nos pases desenvolvidos) eu no acredito que
possa haver um
feminismo no Brasil".
I4


Revoluo na Igreja
Dona Petronilha - vamos cham-la assim, pois como no conheo mesmo
ningum com esse nome,
servir ele para batizar essa dama. Dama que existiu com sua voz macia e
olhos de ao, marcando
com seu perfil agudo a minha infncia. Falar em dona Petronilha era falar
em alma piedosa, sem
orgulho, pronta para descer do seu pedestal para se dedicar s obras de
caridade que o jornal local
apregoava e que o padre mencionava com fartura de detalhes nos sermes de
domingo. Tinha
cadeira cativa na igreja, controle total das quermesses no Largo do
Jardim, nome gravado no
mrmore da biblioteca e opinio acatada pelo juiz quando a pequena sala
do frum se agitava em
julgamentos locais. Afinal, quem ajudou a reconstruir a cadeia?
Deixara-lhe o marido uma respeitvel fortuna acumulada em negcios de
usura, mas como quem
empresta aos pobres empresta a Deus, era ela exigentssima quanto s
fortunas alheias,
principalmente se os donos de tais fortunas traziam no nome uma certa
raiz semita: logo vi, dizia ela
reticente, e todos sorriam em redor, ah! o faro de dona Petronilha . . .
Tirou do asilo trs rfs que
trabalhavam de graa em sua bela casa mas no se deduza disso que dona
Petronilha era avarenta,
ao contrrio, quem fez a doao dos preciosos livros encadernados que
enchiam as estantes da
biblioteca? Dona Petronilha. Quem deixava na sacola que era passada
durante a missa a maior
esmola? Dona Petronilha.  verdade que os tais livros doados foram todos
escolhidos por ela,
seleo rigorosa, "nada de imoralidades ou pregaes polticas!" Tambm
os leitores eram
selecionados porque faziam parte de um clube sob sua presidncia: s
aceitamos scios finos,
educados, dizia ela, e no essa gente de mos sujas.
105


Comovido com tamanha generosidade, alm da cadeira cativa o padre j lhe
assegurara uma gaveta
funerria na igreja, os dizeres esclarecendo na pedra por que razo
mereceu essa dama tal
homenagem pstuma. Mas poderia ser de outra forma? Natural que seu
augusto nome liderasse a
lista das patronesses nos espetculos beneficentes, natural v-la ainda
dirigindo como scia-
fundadora o jornal dos literatos da cidade: "No pretendo em absoluto me
intrometer nos trabalhos
desses jovens mas quero, isto sim, orient-los!" Orientou tambm o grupo
teatral quando o grupo
resolveu representar o poema As mscaras: em meio dos ensaios, como
achasse fortes demais os
arroubos amorosos de Arlequim, aconselhou alguns cortes drsticos e to
profundos que o rapaz
que fazia o papel ameaou abandonar tudo, no fosse a habilidade com que
ela resolveu o impasse:
fico com metade dos ingressos, decidiu. E fao questo de presente-los
com as fantasias. Mas
quero adiantar que s comparecerei se forem feitos os tais cortes que
sugeri. Vocs so livres, meus
queridos, vocs decidem.
Compareceu. E se nunca foi a passeatas marchando com Deus e pela Famlia
 porque naquela
poca no havia nenhuma iniciativa nesse sentido e nem era preciso.
Lembro-me agora da figura bem desenhada de dona Petronilha, a de voz
macia e olhos de ao. E
vejo nessa figura da minha infncia o smbolo da burguesia diante da qual
se curvavam os poderes
pblicos e a Igreja. Tudo em miniatura,  certo, cidade pequena, igreja
pequena, prefeitura mnima.
Mas o mesmo funcionamento da engrenagem das grandes mquinas: no centro,
dona Petronilha e,
em redor, a massa encardida do povo de mos sujas e boca aberta para as
reivindicaes.
Vejo agora a nova Igreja se libertando dessa
106


burguesia. Vejo a nova Igreja empenhada na mais corajosa das revolues
para superar a Igreja do
passado, intransigente, paternalista e cujo destino do altar, como
acentuou Tristo de Athayde, se
confundia com o destino dos tronos.
!
l
10 de dezembro
Se sou amada, tenho esperana - descobri hoje cedo. Mas amada por quem?
No por mim mesma,
seria pedir demais. Pensei em telefonar para os amigos mas hoje os amigos
esto ocupados. Ou
ausentes, viajando,  muito grande o nmero das pessoa em trnsito. O
nico telefone que tentei me
respondeu polidamente isto  uma gravao, queira deixar o seu nome ou o
recado que a senhora
A. K. voltar breve. Muito obrigada. Tudo isso com um fundo musical,
Night and day. Liguei mais
uma vez s para ficar ouvindo a musiquinha. Tentei ler, fui pegar as
Confisses de Santo Agostinho
que hoje a leitura deve ser mstica, j que no fui  missa. Me lembrei
que faz muitos anos que no
you  missa porque tenho que arrumar a minha mesa ou fazer ginstica ou
responder alguma carta.
E minha mesa est em desordem e tambm aqui dentro. Dialogar comigo
mesma, pensei depois que
li no prtico do livro: "Criastes-nos para Vs e o nosso corao vive
inquieto, enquanto no repousa
em Vs". O dilogo, se no com Deus, ao menos comigo, mas me dizer o qu?
Comecei a escrever estes fragmentos: fiquei sendo a narradora que me
focaliza e me analisa mas
sempre atravs de uma intermediria que seria o terceiro lado deste
tringulo. Fica simples, somos
trs.
107


Perfeito o convvio entre ns porque a intermediria  discreta, tipo
leva-e-trs mas sem
interpretaes.
O casal
Vita Sackville-West e Haroldo Nicolson, uma lsbica e um pederasta,
mantiveram intacto o seu
casamento e foram felizes at a morte - na verso do bigrafo do casal,
filho de ambos. Mais
estranho considero um casal amigo do meu pai, com relaes sexuais
regulares (os filhos do
casamento iam nascendo tranquilamente), mas que durante trinta anos no
trocou uma s palavra. E
viviam na mesma casa. Numa cidade pequena. No se falaram durante toda a
existncia que teve a
durao do casamento, morreram num desastre de trens. Quando chegava
algum (um empregado
ou um amigo) a ento se comunicavam mas sempre atravs desse terceiro,
mais ou menos assim:
"Hoje tenho mdico s trs horas", ela dizia, "you precisar do carro,
estarei de volta antes das cinco.
Mas caso ele queira o carro nesse perodo, posso tomar um txi." O amigo
(ou o empregado)
voltava-se para ele: "Vai precisar do carro nesse perodo?" O homem
encarava o amigo (ou o
empregado): "Diga a ela que hoje ficarei em casa o dia todo, poder
dispensar depois o motorista,
obrigado". Quando faltava esse intermedirio que podia tambm ser um dos
filhos, simplesmente
mantinham-se em silncio.
108


11 de dezembro
Encho a xcara de caf bem quente. Acendo um cigarro. Se trabalhar bem,
ela poder mais tarde
ligar a tev e ver um filme antigo de vampiro, aviso. Ou o seriado d'O
incrvel Hulk, isso se for dia
daquela flor de moo virar um gigante verde, arrebentando as camisas. Me
detenho nesse detalhe: e
essas camisas que ele usa e na hora da metamorfose estalam e ficam
reduzidas a trapos? Hem? . . .
Encurtam, enxovalhadas. E reaparecem em ordem, a roupa reconstituda
assim que ele volta 
aparente normalidade. Mas h tanto tempo o cinema no esclarece esse
detalhe, lembra? aquela
jovem que virava pantera em plena rua mas e os sapatos, os brincos? Onde
vo parar esses
acessrios na hora da danao? E como podem eles voltar na cena seguinte?
A moa-pantera com
seu impermevel de couro e sua boina que estava na moda quando vi essa
fita. No desenho
animado, o gato tom dando trombadas na parede, caindo todo fragmentado e
os cacos se juntando
em seguida, os dentes perfeitos, nenhum vestgio da desintegrao. Esses
e outros mistrios fora do
cinema. E que jamais sero revelados,  felicidade!
12 de dezembro 
Nada fcil testemunhar este mundo com tudo o que tem de BOM. De ruim. Um
mundo grande, que
vai alm da chcara do vigrio. Diante de si mesmo, diante do papel o
escritor se sente grande
porque sua tarefa  digna. Pode ser corrompido mas s raramente corrompe.
109


Et inquietum es cor nostrum
Volto s Confisses.  BOM ler Santo Agostinho, repensar nas suas
palavras de humildade neste
tempo de arrogncia. A moda instvel, as pessoas instveis, obsesso pelo
novo: durou pouco a
moda dos tcnicos, me lembro que um candidato, no seu cartaz de
propaganda, botou l o retrato,
radiante, o nome embaixo e a ordem: Vote num tcnico! Mas tcnico em qu?
Ele no dizia e nem
era preciso, deve ter sido eleito. Veio em seguida a moda dos executivos:
cursos para executivos,
restaurantes para executivos, ginstica para executivos, at nibus, at
mulheres. . . No durou
muito, o brasileiro  inconstante e veio a moda dos psiclogos. Centenas
de psiclogos de avental
branco, defendendo tese e abrindo consultrio, orientando nas escolas e
dando cursos em servios
sociais e particulares - enfim, se a situao deu uma piorada, no foi
por falta desses profissionais.
Mas eis que j vem por a, como uma cachoeira cobrindo tudo, a moda dos
sexlogos. S se fala em
sexologia para crianas, adultos, velhos, alegria, meus velhinhos! que os
sexlogos resolvem
qualquer problema. Ou, pelo menos, esclarecem.
16 de dezembro
Meu menino foi se chegando, a festa ainda no meio quando ele se chegou
com aquele jeito assim de
quem no estava querendo nada. Sem a menor pressa, em silncio, encostou
a cabea no meu
ombro. Apoiou-se mais e foi levantando a perna. No venha me dizer que
voc quer subir no meu
colo!
- eu disse fingindo espanto. Mas ele no queria dizer nada, aprendera com
os grandes que s vezes
110
/


o silncio  muito mais convincente do que a palavra e o movimento. Este,
ele completou de
repente subindo nos meus joelhos e se enrodilhando em seguida,
transbordando quase (tinha
crescido tanto) mas cabendo ainda no pouso ao qual estava acostumado. Mas
desse tamanho e ainda
querendo colo, filho? Queria. Daquele tamanho mesmo queria uma s coisa
em meio da festa: colo.
Em vo lembrei que era cedo ainda para dormir, a festa era dele, no
queria mais uma fatia de bolo?
E que tal um sorvete? Ah! e o teatrinho do Joo Minhoca, o moo j estava
montando os bonecos,
ento ia perder o Joo Minhoca?! J estava perdido porque agora ele
dormia profundamente.
Tranquilo. Vai me amarrotar todo o vestido, eu me queixei ajeitando-o
melhor (to grande!) e
limpando a baba - fio dourado de mel
- que j lhe escorria da boca entreaberta. Mas como ele cresceu neste
ltimo ano! pensei. Pensei
ainda que aquela bem podia ser a ltima vez que ele me pedia para dormir
no colo, andava to
independente, to consciente da sua condio de homem. Quem sabe no
seria mesmo a ltima vez
que o tinha assim to completamente meu como o tivera um dia? Assim to
junto que formvamos
ambos um s corpo. Baixei os olhos cheios de lgrimas quando senti (to
prximo) o doce cheiro de
poeira e suor com uma vaga memria de sabonete. Senti na pele o calor da
baba que me varou o
vestido. Contomei-o frouxamente com os braos como costumava contomar o
ventre quando no
sabia o que fazer com as mos. Entrelacei os dedos que se fecharam num
crculo.
111


O direito de no amar
Se o homem destri aquilo que mais ama, como afirmava Oscar Wilde, a
vontade de destruio se
agua demais quando aquilo est amando um outro. O egosmo, sem dvida o
trao mais poderoso
de qualquer sexo, transborda ento intenso e borbuIhante como gua em pia
entupida, artrias e
canos congestionados na exploso aguda: "Nem comigo nem com ningum!"
Deste raciocnio para
o tiro, veneno ou faca, vai um fio.
A segunda porta foi a que escolheu aquele meu colega de Academia quando
descobriu que a pior
das vinganas  no matar mas deixar o objeto amado viver, viver 
vontade, "pois que ela viva!"
decidiu ele na sua fria vingativa.
Amou-a perdidamente. Acho que nunca vi ningum amar tanto assim, talvez
com a mesma
intensidade com que ela amava o primo, disse isso mesmo numa hora de
impacincia, estou
apaixonada por outro, quer ter a bondade de desaparecer da minha frente?
Mas o meu colega (vinte
anos?) acreditava na luta e como ele lutou, meu Deus, como ele lutou!
Tentou conquist-la com
presentes, era rico. Depois, com interminveis poemas de amor, era poeta.
Na fase final, no auge da
clera - era violento - comeou com as ameaas. Ela guardou os presentes,
rasgou os poemas, fez a
queixa a um tio que era delegado da seo de homicdios e foi cair nos
braos do primo sem o
recurso das rimas e dos diamantes mas que conseguia faz-la palpitar mais
branca e perfumada do
que a aucena-do-campo.
Meu colega dava murros nas paredes, nos mveis. Puxava os cabelos, "ela
no tem o direito de me
fazer isso!" com a dbil voz da razo, tentei dizer-lhe que ela bem que
tinha esse direito de amar ou
no amar, v se entende essa coisa to simples!
112


Mas ele era s ilogicidade e desordem: "you l, doulhe um tiro no peito e
me mato em seguida!"
jurou. Mas a tantos repetiu esse juramento que fiquei mais tranquilizada,
com a esperana de que a
energia canalizada para o ato acabaria se exaurindo nas palavras.
O que aconteceu. Uma noite me procurou todo penteado, todo contido, com
um sorrisinho no canto
da boca, sorriso meio sinistro, mas lcido: "Achei uma soluo melhor",
foi logo dizendo. "you
ficar quieto, que se case com esse tipo, timo que se casem depressa
porque  nesse casamento que
est minha vingana. No casamento e no tempo. Se nenhum casamento d
certo, por que o deles vai
dar? Vai ser infeliz  bea! Pobre, com um filho debilide, j andei
investigando tudo, ele tem
retardados na famlia, ih! o quanto ela vai se arrepender, por que no me
casei com o outro? Vai
ficar gorda, tem propenso para engordar e eu estarei jovem e lpido
porque sou esportista e rico,
you me conservar mas ela, velha, obesa,  delcia!"
H ainda uma terceira porta, sada de emergncia para os desiludidos do
amor, no, nada de matar o
objeto da paixo ou esperar com o pensamento negro de dio que ela vire
uma megera jogando
moscas na sopa do marido hemiplgico, mas renunciar. Simplesmente
renunciar com o corao
limpo de mgoa ou rancor, to limpo que em meio do maior abandono
(difcil, hem!) ainda tenha
foras para se voltar na direo da amada como um girassol na despedida
do crepsculo. E desejar
que ao menos ela seja feliz.
113


Fragmentos
"E eles tm alguma ligao entre si?" - perguntou-me A. M. Respondi-lhe
que so fragmentos do
real e do imaginrio aparentemente independentes mas sei que h um
sentimento comum
costurando uns aos outros no tecido das razes. Eu sou essa linha,
Os amantes
Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambguas diante dos
apaixonados. Aproximam-se
deles, dizem coisas amveis, mas guardam certa distncia, no invadem o
casulo imantado que
envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita
cautela ao pisar nesse
terreno. com sua disciplina indisciplinada, os amantes so seres
diferentes e o ser diferente 
excludo porque vira desafio, ameaa. Se o amor na sua doao absoluta os
faz mais frgeis, ao
mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao
Jardim do Paraso,
provaram da rvore do Conhecimento e agora sabem.
25 de dezembro
Vejo o Menino Jesus do prespio e o seu cheiro  o mesmo da malinha de
couro com os cadernos
de escola, o estojo de lpis e o lanche embrulhado no papel de po. A
alegria excitante porque
proibida: escrever minhas invenes nas ltimas pginas do
114 


caderno de desenho que era o mais grosso de todos, copi-las l no fim
para ningum achar,
ningum era a dona Alzira. O sentimento de pecado e prazer que me tomava
quando via os touros
cobrindo as vacas no pasto - essa exaltao culposa me possua ao
escrever as histrias nas pginas
proibidas. Que dona Alzira acabou descobrindo: "Por que voc andou
fazendo aqui esses rabiscos?"
- me interpelou, sacudindo na mo o caderno. Pela primeira vez a
enfrentei e respondi com firmeza
que no eram rabiscos mas meus escritos, que tive que copiar porque seno
esquecia.
Na minha inocncia, eu j sabia por instinto o que viria a ficar to
claro mais tarde: que a obsesso
da permanncia  inseparvel da criao.
28 de dezembro
Encontro com F. na livraria. Estranhou o ttulo que you dar a este livro,
mas por que disciplina do
amor? O amor l tem disciplina? perguntou e deu a resposta: amor
disciplinado nunca foi amor,
pode ser mtodo, arrumao no sentido de se botar tudo direitinho nos
lugares, clculo, mas amor?!
Pois amor no era ilogicidade? Transgresso?
Digo-lhe que a indisciplina est s na aparncia, na superfcie. Na
casca. Porque l nas profundezas
o amor  de uma ordem e de uma harmonia s comparvel  abbada celeste.
Ele ficou me olhando. Arqueou as sobrancelhas, surpreendido: "Mas ento
s conheci o amor
superficial? Cada vez que amei foi tanta a insatisfao e a insegurana.
Fico em total desordem!"
Desejei-lhe um amor verdadeiro e ele riu, desafiante. Quis saber se por
acaso eu tinha atingido
115


no amor essa plenitude celestial. No respondi. Falamos sobre poltica,
livros. Mas quando sa da
livraria, me vi Ado sendo expulso do Paraso, o semblante descado e o
olhar no cho.
10 de janeiro
 noite e chove sem parar. Comecei por concluir que grande parte da
chamada esquerda brasileira 
de ordem puramente sentimental, poucos escapam dessa classificao. Todos
uns romnticos, do
gnero chupador de mexerica - diria meu amigo C. J. Eu includa? Eu
includa. Quero argumentar
com ele mas no consigo ir adiante, estou com a presso baixa, fim da
gripe. No quero polmica
nem com C. J. nem comigo, hoje no. Hoje no. J ouvi o suficiente h
pouco, quando o elegante
locutor do jornal falado provou por palavras e imagens a nossa misria e
respectiva incapacidade de
luta contra essa infelicidade e essa misria - uma caracterstica no s
do nosso povo mas da nossa
civilizao. Falou tambm na bomba atmica mas com nomes bem mais amenos,
to amenos que
quando um belo dia ela estourar na nossa cabea, nem perceberemos que foi
ela que estourou: a
morte limpa.
Pergunto ao Pai Celestial o que posso fazer nessa circunstncia, posso
fazer alguma coisa? Nada
- eu mesma respondo. O que pode fazer um escritor? Escrever e assim mesmo
sem insistir nos tais
temas desagradveis porque seno as pessoas fogem espavoridas. Est certo
esse locutor do jornal
que deve passar nas mos gua de lavanda inglesa antes de anunciar por
caminhos mais sutis que a
goiaba apodreceu aqui e em outros reinos, o que no deixa de ser um
mesquinho consolo: no
estamos ss.
116


11 de janeiro
Nessa ordem de ideias, passo do chupador de mexerica ao chupador de
sangue, um romntico
tambm, ao menos na forma. Ligo o toca-discos, vampiro exige msica
romntica. No turnos de
Chopin. you at minha mesa. Que cada qual cuide da rosa do seu jardim,
digo em voz alta e
dissolvo uma aspirina no copo. A ramificao da dor to fina e minuciosa
como a folha de avenca.
A folha empalidece, se retrai, acendo um cigarro. Os vampiros e sua
evoluo no cinema e na vida
real. Na minha infncia, ele era simplesmente o morcego, primo do
lobisomem, sugador do sangue
de gentes e bichos. "Chupa o sangue e depois assopra" - esclarecia minha
pajem, uma antologia
ambulante do terror. - "E quando assopra, tem um sopro to manso que a
gente at esquece da dor
da ferida,que ele fez."
S mais tarde conheci o vampiro do cinema, morcego tambm mas logo
renascendo no envernizado
conde Drcula, habitante de um castelo em meio de penhascos e rvores
negras. Enquanto brilhava
o sol, jazia ele deitado no seu esquife de bronze, com sua bela roupa de
pera, o anel de braso
luzindo no dedo mnimo, a capa caindo em pregas at as sapatilhas com
fivelas. Mas assim que
anoitecia, voava em forma morcegal at o bosque onde o jovem forasteiro
teve partida a roda da
carruagem. O morcego faz seu voo de reconhecimento, desce na vertical e
num bater de asas mais
ligeiro do que um bater de plpebras, aparece na forma do conde de
cartola e luvas brancas,
convidando o forasteiro e a noiva a pernoitarem no castelo. Esse vampiro
clssico (depois  que
tomei conhecimento de Nosferatu, quase um inocente de to espiritual) no
tinha preferncias
quanto ao sexo: atacava tanto os moos como as mocinhas. A nica
condio, pelo
117


que pude observar, era que fossem belos e jovens. Nunca vi nenhum Drcula
ir sugar uma velhota.
E sobravam velhotas e velhotes nesses enredos. Liquidou, sim, alguns
velhos, mas por vingana,
irritado com os cientistas amigos da famlia que ameaavam interromper-
lhe a carreira.
Nas revolues da imagem, novo tratamento receberam esses mortos-vivos:
no mais morcegos de
asas penugentas, essa fase primria da metamorfose foi abolida, ficou na
moda o vampiro aparecer
direto na forma humana, sempre o nobre de cabelos sedutoramente grisalhos
e com um encanto
perverso no sorriso. Outro detalhe: enquanto seu antecessor atacava
homens e mulheres sem
preferncia de sexo, o vampiro desse estgio demonstrava inequvoca
inclinao por mulheres,
noivas formosas ou recm-casadas que voltavam dos encontros com o ar
assim esvado de uma
Bovary saciada, evitando a carcia do marido ou o olhar interrogativo do
noivo, "que dor de cabea!
sorry". E escondiam com a echarpe de renda os furos do pescoo, ateno
para esse pormenor
importante: na antiga verso esses furos eram discretos sinaizinhos que o
mdico s achava depois
de um exame minucioso na jovem anmica. J no vampirismo evoludo e em
cores, os furos do
pescoo so enormes, de bordas intumescidas, quase obscenos de to
profundos. Vemos que agora
o vampiro no  apenas o sugador de sangue para sobreviver mas o amante
fogosssimo ao qual elas
se entregavam at a morte - mas o que digo? alm mesmo da morte, promessa
de imortalidade no
harm do bemamado.
118


Drcula e o fim do harm
Para esse harm elas sempre caminharam implacveis: as brancas tranas de
alho dependuradas nas
portas e janelas, no estilo de estranhas guirlandas, os crucifixos de
ouro e prata dependurados no
pescoo, as velas, as oraes - todas as defesas eram consciente ou
inconscientemente afastadas nas
noites de vampiragem. O sono agitado no durava muito, elas acordavam. E
l iam suspirosas at a
varanda que dava para o jardim escurssimo, as camisolas transparentes,
esvoaantes. Expostas.
Fecha essa janela! eu tinha vontade de gritar. Mas obscuramente ficava
desejando que no houvesse
nenhuma interveno: era preciso que ela escancarasse a janela numa vil
conivncia com o visitante
(a inconscincia no anula a vilania), e que o noivo fosse dormir na
outra ala da casa e que, no
momento exato, a lua. Propiciao para a vinda dele, terrvel, sim, mas
inevitvel. O balco florido.
Nos panejamentos negros da capa, reminiscncias do palpitar das antigas
asas, o passo veludoso e a
voz de catacumba: Good evening, my darling! O grito. O desmaio, melhor
assim, que no surja
nenhuma luta. Ele afasta numa carcia os caracis que resvalam na face
branca. O esgar brusco em
meio do silvo salivoso. Os caninos aumentados se cravam na carne tenra do
pescoo da desmaiada -
vampiro e pblico se satisfazendo plenamente.
Enquanto vivas, as eleitas eram muito bemtratadas pelo conde mas assim
que morriam e se
mudavam com seus caixes e camisolas para os sepulcros do novo dono, o
tratamento era outro.
Passada a lua-de-mel, viam-se reduzidas  condio de servas como as
demais mortas-vivas do
castelo. com um simples olhar o ditador dava suas ordens. Castigava
duramente as rebeladas,
trancava com cadeado
119


o caixo das amotinadas e s que se mostravam submissas, dceis,
recompensava com
incumbncias mais delicadas como seduzir os namorados das jovens que ele
j comeava a rondar,
to infiel quanto um marido feliz.
Nenhuma novidade nesse comportamento vampiresco, todos os vampiros sempre
foram refinados
machistas, a comear pelo verdadeiro Drcula (em romeno, drcula
significa diabo), o conde Vlad
Tepes, governador da Transilvnia no sculo XIV e que inspirou toda a
srie dos escritores
jugularianos. No ficou provado que ele bebia sangue mas se chafurdava de
tal modo nas matanas
que comeou a lenda de que precisava realmente desse sangue para viver.
Sangue tambm do
segundo sexo: quando um campons apareceu mal vestido porque a mulher no
sabia costurar, ele
no vacilou, mandou empalar a negligente e deu ao vivo uma nova esposa,
perita nos trabalhos da
agulha.
Carmila ,,
O reinado absoluto dos vampiros comeou a enfastiar os cineastas, que tal
uma revoluo na
tradio vampiresca? E se ao invs do personagem principal ser um homem
for agora uma mulher,
bela, jovem e to terrvel quanto seu antecessor? Um matriarcado no qual
os homens ocupariam um
lugar secundrio. J no  mais o conde-morcego que vai fazer seus
passeios, agora  a condessa-
morcega, a bela Carmila (uma francesa) que atrai e fisga os caninos
agudos nos pescoos das
mocinhas, Carmila s ataca mulheres. Pode atacar um homem mas como meio
apenas de chegar 
mulher desejada: abre-se assim o jogo lsbico, insinuado num dos
primeiros
120


filmes da srie draculiana, onde ele conquista uma jovem e, depois de
incorpor-la  sua corte,
ordena  morta-viva que v seduzir a amiga ntima que anda resistindo. De
modo discreto j tinha
havido antes indicaes de homossexualismo no comportamento do assessor
direto do conde, um
morto-vivo inconformado com o procedimento do amo que resolve ficar
noivo. Mas em Carmila as
situaes so lmpidas, cristalinas: a morceguinha no faz cerimnia.
Num enevoado cenrio barroco, altamente ertico, ainda uma vez o amor e a
morte se enlaam nas
razes do sangue que  a vida. Carmila poderia repetir o poema de
Novalis, que M. C. C. traduziu:
Suga-me com fora, / Amante, at que / eu desfalea/e possa amar.
Obediente ao convencional modelo masculino, a condessa Carmila acaba
transformando as
conquistadas em servas. No abre mo do poder e atravs dele cria o seu
matriarcado to
paternalista quanto o patriarcado dos antigos donos do castelo da Traiv
silvnia. A roda da histria
recomea o seu giro, parece que nos enredos de nobres no h mesmo outra
sada.
Enquanto se vai viver
Por que a morte me estarrece assim, como se fosse a primeira vez, como se
nunca antes? A rara
morte, trs ou quatro. com as outras, tudo normal ou quase: o choque. A
introspeco com uma
consolao filosofante. O apego maior a Deus. A cristalizao da dor,
pequenas pedras que you
guardando na minha mesa, de vez em quando tomo uma, sintolhe a forma, o
calor, aperto-a com
fora na gruta da
121


mo. Devolvo-a ao seu lugar. Mas essas trs ou quatro mortes que me
arremeteram  infncia, a
certas noites de tamanha fragilidade. Tamanho medo, como se no fosse
amanhecer nunca mais.
A memria se abre na mesa, baralho de cartas marcadas, escolho uma assim
ao acaso. Este  um
jantar em casa dos B. M., foi em 43? Ou em 44? No importa. E. V. chega
com uma capa de chuva,
cachecol azul-marinho e chapu desabado, faz frio. Chegam alguns colegas
da faculdade, algum
me entrega um violo, toco mal, mas o que  bem ou mal nessa idade? O
calor do vinho, o calor da
glria que vinha dele, tudo era importante, ah! que emoo quando
cantamos a cantiga da
Academia, os versos se referiam  guerra: Quando se sente bater / No
peito herica pancada /
Deixa-se a folha dobrada / Enquanto se vai morrer.
E. V. faz perguntas sobre a participao dos estudantes na Fora
Expedicionria: sim, vrios dos
nossos j tinham partido, estavam lutando na Itlia. Um poeta se levanta
e com voz embargada fala
do amor e da morte enquanto, emocionadssima, eu fao no violo um grave
fundo musical. E. V.
elogiou o poema, elogiou meu violo mas reagiu na hora: ramos to
jovens, que conversa era essa
de desencanto, pessimismo, que horror! estvamos mais intoxicados do que
os romnticos do
romantismo. "Vocs ainda vo ver tanta coisa, meninos, vo viver tanto e
viver  to BOM. Tebas
no tem apenas uma porta mas mil e nessa idade esto todas abertas!"
Fiquei olhando meu copo: atravs do cristal a vida ficava to
transparente.
122


Retraio no jardim
Praa da Repblica. Conto a E. V. que amo muito esse jardim, frequentei a
escola ali em frente, era
aqui que vinha jogar com as meninas. Quero mostrar-lhe o busto de
Fagundes Varela com o nome
de lvares de Azevedo, o escultor (ou quem fez a encomenda?) trocou as
cabeas e agora l est o
poeta Fagundes Varela com o nome e o verso do outro: Foi poeta, sonhou e
amou na vida. E. V.
ficou impressionado: "Vs como a glria  incerta, confusa?"
- perguntou sorrindo e seu sorriso  de um menino. No podamos confiar
nos outros, melhor
cuidarmos ns mesmos da posteridade, decidiu. E chamou o fotgrafo, um
velho lambe-lambe que
veio com sua mquina antiquada de panos pretos e balde d'gua.
" para a posteridade - avisou E. V. - Vais caprichar?'' Ficamos solenes
e empertigados entre os
salgueiros. Dias depois escrevi-lhe uma carta metade triste (tinha levado
bomba em Civil) e metade
alegre, me diverti demais quando fui buscar nosso retrato para a
eternidade e o fotgrafo lamentou
sinceramente mas o caso  que tinha entrado luz no filme, aquele estava
perdido. A glria velada.
A hora do stimo anjo
Rua Felipe de Oliveira. Estamos sentados no pequeno ptio da casa. Choveu
h pouco e o perfume
das flores vem mido. Intenso. De vez em quando um neto de E. V. se
aproxima, diz um segredo no
ouvido de M. e foge de novo, afetando encabulamento. Procuro identificar
os gringos, os mais
lindos da rua, ele avisou. Na sada, espiamos o quarto das crianas, elas
j esto dormindo.
Reconheo a meni-
123


ninha com cara de amendoim torrado, como ele a descreveu. Quer me mostrar
os desenhos que ela
faz, estamos agora na sua toca, sou um urso, ele avisa e se anima quando
lhe pergunto pelo novo
livro: ser um romance, tem at o nome, A hora do stimo anjo
- no era um BOM ttulo? Mostrou o desenho que seria o esboo da capa,
uma brincadeira que fez de
parceria com a neta. Quando me fixei no seu rosto, vislumbrei uma certa
luminosidade, era noite
sem lua, j estvamos na calada e aquela tnue fosforescncia - mas de
onde vinha? Q cu baixo,
nuvens roxas. Sombras. E a doce claridade fazendo-o mais ntido e
singularmente mais distante.
Entrei no txi. Recomeou a chover, olhei para trs. Ele j tinha
desaparecido.
Cavalos selvagens
O homem de grandes negcios fecha a pasta de zper e toma o avio da
tarde. O homem de
negcios midos enche o bolso de miudezas e toma o nibus da madrugada. A
mulher elegante faz
Cooper e sauna na quinta-feira. A mulher no elegante faz feira no
sbado. A freira faz oraes
diariamente em horas certas. A prostituta faz o trottoir todos os dias em
certas horas. O patriarca
joga bridge e faz amor segundo o calendrio. O operrio joga bilhar e faz
amor nos feriados.
Homens, mulheres e crianas todos com seus dias previstos e organizados:
amanh tem missa de
stimo dia, depois de amanh tem casamento. Batizado na tera e na
quarta, macarronada, que a
feijoada fica para sbado, comemorao prvia do futebol de domingo,
vitria certa, ora se! ... As
obedientes engrenagens da mquina funcionando com suas rodinhas
ensinadas, umas de
124


ouro, outras de ao, estas mais simples, mais complexas aquelas l
adiante, azeitadas para o
movimento que  uma fatalidade, taque-taque taque-taque. . . Apticos e
no apticos, convulsos e
apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo
implacvel.
s vezes, por motivos obscuros ou claros, uma rodinha da engrenagem salta
fora e fica desvairada
alm do tempo, do espao - onde? A mquina prossegue no seu funcionamento
que  uma
condenao, apenas aquela rodinha j no faz parte dessa ordem. "E um
desajustado" - diz o
mdico, o amigo ntimo, o primo, a mulher, a amante, o chefe. H que
readapt-lo depressa 
engrenagem familiar e social, apertar esses parafusos docemente frouxos.
Se o desajustado  um
adolescente, mais fcil reconduzi-lo com a ajuda de psiclogos,
analistas, padres, orientadores,
educadores - mas por que ele ainda no est nos eixos? Por que tem que
haver certas peas
resistindo assim inconformadas? No interessa cur-lo mas neutraliz-lo,
taque-taque taque-taque.
Pronto, passou a crise? Todos concordam, ele est timo ou quase. Mas s
vezes o olhar toma
aquela expresso que ningum alcana e volta o fervor antigo, clera e
gozo nos
descompromissamentos e rupturas - aguda a lembrana violenta do cheiro de
mato que recusa o
asfalto, o elevador, a disciplina, ah! vontade de fugir sem olhar para
trs, desatino e alegria de um
cavalo selvagem, os fogosos cavalos de crina e narinas frementes,
escapando do lao do caador.
Na histria de Arthur Miller, eram os pobres cavalos selvagens destinados
a uma fbrica que os
transformaria num precioso produto enlatado. O instinto, s o instinto os
advertia das armadilhas
nas madrugadas. E fugiam galopando por montes, rios, vales - at quando?
Inexperincia ou cansao? Cavalos e homens
125


acabam por voltar  engrenagem. Muitos esquecem mas alguns ainda se
lembram e o olhar toma
aquela expresso que ningum entende, nsia de liberdade. De paixo. Em
fragmentos de tempo
voltam a ser inabordveis mas a mquina vigilante descobre os rebeldes e
aciona o alarme, mais
poderoso o apelo, taque-taque TAQUE-TAQUE! Intil. Ei-los de novo
desembestados: "La-los 
o mesmo que laar um sonho",
A deciso
O homem entrou em casa e com passadas firmes foi reto procurar a mulher
que estava na cozinha,
enchendo a chaleira d'gua. Ele tinha a cara rubra, os olhos brilhantes
mas os lbios estavam
brancos e secos, teve que passar a ponta da lngua entre eles para
separ-los, a saliva virou cola?
antes de dizer o que estava querendo dizer h mais de cinco anos e no
dizia, adiando, adiando.
Esperando uma oportunidade melhor e vinha a oportunidade melhor e faltava
a coragem, esmorecia,
quem sabe na prxima semana, depois do aniversrio do Afonsinho? Ou em
dezembro, depois do
aumento no emprego, teria ento mais dinheiro para enfrentar duas casas -
mas o que  isso,
aumento nos vencimentos e aumento da inflao? Espera, agora a Georgeana
pegou sarampo, deixa
ela ficar boa e ento. E ento?! Hoje, HOJE! tinha que ser hoje, j! As
grandes decises eram assim
mesmo, como numa batalha, seguir a inspirao do momento e o momento era
inadivel, maduro,
estourando como um fruto, ele estourando tambm, aproveitar essa energia
de lutador que lhe viera
de um jato, sentiu-se um Napoleo, iluminado, o dedo apontando na direo
do inimigo, avanar!
126


Avanou e a fala ficou sem pausa e sem hesitao, fala treinada h cinco
anos, ir no alvo, depressa!
ia deix-la, era isso, ia deix-la porque estava loucamente apaixonado
por outra e de joelhos pedia
perdo pelo sofrimento e pelo desgosto, est certo, podia cham-lo de
crpula por deixar uma
esposa to perfeita e uns filhos to queridos mas se ficasse a vida
acabaria num inferno to
insuportvel que era melhor dizer tudo agora porque ia morrer se no
dissesse esta coisa que lhe
cara na cabea como um tijolo, esta paixo avassaladora, talvez se
arrependesse um dia e at se
matasse de remorso mas agora tinha que confessar, estava apaixonado por
outra e ela devia entender
e mais tarde os filhos iam entender tambm que tinha que ir porque estava
APAIXONADO POR
OUTRA - voc est me ouvindo?
A mulher pelejava por acender o fsforo mido, no conseguiu, riscou
outro palito e o palito falhou
e experiemntou um terceiro enquanto lhe gritava que chegasse dessa
brincadeira besta, j no
bastavam as crianas que hoje estavam impossveis e tambm ele agora
atormentando, hein?!
Empurrou-o na direo da porta, mas vamos, no fique a com essa cara,
depressa, v buscar uma
caixa de fsf. , . ah! graas a Deus que este no molhou, vontade de um
caf bem quente, caf com
po, de qualquer jeito ele tinha que sair para buscar p de caf e
depressa que logo, logo, a gua
estaria fervendo, queria o p modo na hora e meia dzia de pezinhos que
deviam estar saindo do
forno e levasse tambm o Jnior que estava se pegando l com o irmo, mas
se mexa, homem! est
com dinheiro a? E claro, tambm um pacote de fsforos marca Olho (e riu)
que este  marca
barbante pra no dizer outra marca que comea com m (enxugou as mos no
avental), como se no
bastassem as gracinhas do filho e tambm ele com as brincadeiras
debilides, um pouco velho pra
brincar assim, no?
127


O homem pegou o Jnior pela mo, foi buscar o p de caf, os pezinhos,
os fsforos e no brincou
mais,
27 de janeiro
Encontro com M., um antigo colega de faculdade que resolveu ser professor
universitrio. Defesa
brilhante de tese. Cursos de aperfeioamento no exterior. Voltou, casou.
Cinco filhos. Leciona em
duas faculdades e nas pausas faz viagens para dar aulas extras na
periferia e se fala em viagem 
porque essa periferia ficou por demais perifrica, o tempo que perde nos
transportes.  que tem um
filho com graves problemas psquicos, gasta demais com esse filho, "uma
anormalidade!" - exclama
e eu no sei se ele se refere ao filho ou aos gastos. Me convida para
tomar um caf e prossegue
falando, precisa falar, interrompeu a anlise e nem sobra dinheiro para
tais suprfluos, tem que
aproveitar os amigos com pacincia de ouvir: a mulher tambm lecionava
mas concluram na ponta
do lpis que seria mais econmico se ela ficasse cuidando da casa,
fazendo trabalhos domsticos,
ela que era uma psicloga to talentosa, feminista ativa, estava
justamente fazendo uma pesquisa
sobre o mercado feminino de trabalho e interrompeu tudo - tambm ele
interrompe a frase, est
desolado. Mas uma coisa  a teoria e outra coisa  a prtica, onde uma
creche l nas redondezas?
"Iluses" - diz e olha nostlgico para o cigarro que acendi, faz dois
meses que deixou de fumar
porque tem que pensar nas prioridades e prioridade era a sade, uma
disciplina feroz para aguentar
o tranco, nem lcool nem fumo. Apago meu cigarro e ele aspira o resqucio
de fumaa que ficou no
ar:
128


ganha vencimentos to vencidos que nem tenho coragem de transcrev-los
aqui. Faz ironia com o
destino que o fez nascer no Brasil onde o ideal seria inventar fardas
obrigatrias para os
professores, poupando-os do vexame de se apresentarem quase andrajosos.
Lembra que nessa
faculdade onde ganha esse salrio ridculo esteve um cantor da moda que
recebeu uma pequena
fortuna s numa noite, cantando no seu violozinho, blu-blu-blu, blu-blu-
blu.
Nascer no Brasil at que  BOM, meu querido. O triste  no ter voz. Nem
ter vez.
A voz do prximo
Quando ela se achou velha, calmamente resolveu dependurar as chuteiras
(nos negcios do amor,
nunca foi uma jogadora do primeiro time) e assumir a velhice com
dignidade. Ento ouviu a voz do
prximo: "Que horror, mas como uma pessoa se entrega desse jeito, ficou
at desleixada, presena
negativa! De repente parece que resolveu envelhecer e envelheceu tudo,
sem nenhuma luta, isso s
pode ser neurose, h de ver, quer provocar piedade,  uma punitiva!"
Muito impressionada com o que ouviu ela resolveu reagir, lutar por uma
imagem melhor. Fez
plstica, pintou os cabelos, comprou roupas da moda e comeou a namorar
outra vez. Ento ouviu a
voz do prximo: "Mas que ridcula! Caindo de velhice e ainda querendo
fazer charme, uma
desfrutvel! J puxou a cara umas trs vezes, se pinta feito uma palhaa,
virou arroz-de-festa e
ainda namorando um moo que podia ser seu filho! Devia se recolher, devia
ir rezar!"
Muito impressionada com o que ouviu ela re-
129



solveu se afastar da vida frvola, das vaidades deste mundo e na solido
decidiu entrar para um
convento, quem sabe no convento se encontraria? E se encontrando, quem
sabe encontraria Deus?
Ento ouviu a voz do prximo: "Depois de velho o Diabo faz-se ermito! V
se  possvel uma
vocao assim retardada, por que s agora essa mania de religio? Tudo
mentira, afetao, vontade
de ser original, imagine se vai durar. . . Quando descobrir que ningum
est ligando, deixa de
bancar a santa. Pode ser tambm que esteja esclerosada, pode ser isso,
esclerose!"
Muito impressionada com o que ouviu ela resolveu sair do convento e num
dia de depresso mais
aguda decidiu se matar. Mas queria uma morte silenciosa, sem chamar a
menor ateno - se
possvel, sem deixar sequer o corpo, estava to triste consigo mesma que
achou que nem o enterro
merecia. Tirou a roupa para no ser identificada, dependurou na cintura
uma sacola com pedras e
entrou no rio. Ento ouviu a voz do prximo: "Est vendo? A vida inteira
ela s quis uma coisa, se
exibir, se mostrar, uma narcisista at na hora em que cismou de morrer,
imagine, entrar nua no rio!
No velho estilo para provocar escndalo. S para comover mas a mim  que
no comoveu, ao
contrrio, fiquei to decepcionada, que ideia de querer fazer da morte um
espetculo!"
Muito impressionada com o que ouviu (e ouviu to mal, a voz do prximo
longe demais, quase
apagando) ela quis gritar de alegria, quis rir, rir - mas ento era
assim? -  Deus! - e se preocupando
com isso, perdendo a vida, que maravilha no ter morrido, quer dizer que
algum entrou no rio para
salv-la? Maravilha, coisa extraordinria, quer dizer qu? . . . Mas onde
estava agora? No hospital?
Se estava ouvindo (ouvindo mal, embora!)  porque estava viva, pena no
poder ver nem falar, o
corpo
130


tambm insensvel, nem sentia o corpo mas se estava ouvindo, hem?! Se
estava ouvindo - e livre,
para sempre livre, ah, como demorou para entender que os outros - ah, que
demora para se libertar,
nascer de novo! Ento ouviu a voz do prximo (desta vez, to longe que
ficou um sopro) pedir
depressa a tampa, j estava passando da hora de fechar o caixo.
J de fevereiro
Ubatuba  uma deliciosa praia do litoral paulista: despojada, simples,
ela como que se preservou das
tentaes de um mundanismo sofisticado e l se conserva com suas praias
ainda intactas e sua
cidadezinha de sabor colonial: muitos barcos de pesca, muita batida de
maracuj, muita banana-
ouro e prata, muita bananada do tipo caseiro. O cinema  noite com velhos
filmes de terror. O
parque de diverses com sua roda-gigante e suas barracas de tiro ao alvo
de inatingveis alvos. E o
silncio.
Foi do terrao de uma casa nessa praia que P. E., o jardineiro Antnio e
eu vimos um objeto no
identificado e que se convencionou chamar de disco voador.
Hesitei em narrar esse episdio porque pude bem imaginar os sorrisos, os
olhares desconfiados das
pessoas fazendo aquelas caras, disco voador, imagine!, tudo inveno da
ficcionista, pura vontade
de ser interessante,  claro. Acabei me decidindo: uma escritora pode
ento se recusar a dar
testemunho de fatos do seu tempo?
Dia 5 de fevereiro. Trs horas da tarde, estirada numa cadeira de lona eu
lia um livro de poesias e
ouvia - era BOM de ouvir - o barulho das grandes ondas batendo espumosas
nas pedras que se
131


erguem defronte do terrao que d para o mar alto. Cu cinzento, a nvoa
baixando como uma
lmina de ao at a linha do horizonte. Calor e calma. Ento ouvi P. E.,
que estava sentado ao lado,
dizer num tom de voz meio vago: "Olha l. . . Tem uma coisa no cu". A
ordem no tinha muita
convico. Prossegui lendo. E logo ele retomou: "Est brilhando tanto!
Vai ver,  um disco voador".
Respondi sem erguer o olhar: d-lhe minhas lembranas.
Mas ele se levantou de repente, num susto, a voz emocionada: "Depressa!
Venha ver! ..." Levantei-
me e olhei na direo que ele indicou: uma grande luz branca, de forma
irregular, cintilava como
uma estranha estrela no fundo de ao do cu. Como uma estranha estrela
porque era maior do que
uma estrela. A luz mais clara, sem as cintilaes vermeIho-azuladas: luz
totalmente branca feito a
luz de um raio, imvel no primeiro instante. Porque logo em seguida
iniciou um movimento de
deslocao para a esquerda e para o fundo do cu. Um helicptero? foi o
que me ocorreu no
primeiro momento. No, no era um helicptero. Um balo? No, que ideia!
nunca um balo faria
aquele movimento que se acelerava cada vez mais e to para o fundo que
tive a impresso que a
coisa ia cair no mar. Mas assim que ficou alguns dedos apenas acima da
linha do horizonte,
comeou sua marcha da esquerda para a direita, apagando e acendendo,
apagando e acendendo num
ritmo de pulsao, tum-tum, tum-tum. . . A trajetria entrecortada do
foco de luz me fez pensar num
corao cintilante, apagando e acendendo, turnturn, tum-tum - um corao
silencioso palpitando
rpido e fugindo, levantei a mo e fui abrindo e fechando os dedos para
imitar seu palpitar, tum-
tum, mais longe ainda! tum-tum - gritei pelo jardineiro que estava
lidando com suas folhagens,
depressa, seu Antnio, venha ver depressa! Queria o testemunho
32


de um caiara tosco. Foi a terceira testemunha: ps as mos em concha em
tomo dos olhos, estava
vendo, sim, representava uma estrela mas como uma estrela pode andar
desse jeito e no dia claro?
Quanto tempo teria durado essa segunda fase do objeto acendendo e
apagando compassadamente na
sua marcha horizontal? Dois minutos? Trs? Foi como se a terra tivesse
parado, tudo parado em
redor, o mar petrificado, os pssaros mudos, nem brisa nem folha, tambm
ns estticos - s a luz
branca se movendo na amplido, o acender cada vez mais reduzido, no
passava agora de um
pontinho do tamanho da cabea de um alfinete. Desapareceu.
Um meteoro? Um satlite? Ou a exploso de uma estrela? Mas aquele
movimento regular da luz
apagando e acendendo na sua marcha controlada como uma lmpada - aquele
movimento de um
corao mecnico. E ento? Decididamente, o que h entre o cu e a terra
ultrapassa nossa v
enumerao.

7 de fevereiro
Abro a lata de ch que Mister horn Tim-Tim me deu em Shangai e esse
perfume (papoulas?) me faz
lembrar do seu sorriso fino. Da sua voz profunda. Conta que na China no
tem mais nem prostitutas
nem moscas. Fiquei pensativa: moscas era mais fcil de fazer desaparecer
mas prostitutas?!
Nenhuma prostituta, Mister horn Tim-Tim? Ele ento esclareceu que o
tratamento que lhes era
dispensado era de tal modo persuasivo que s mesmo por pura burrice elas
voltavam a reincidir. O
argumento era por demais inocente, mas ento  possvel mudar a cabea do
homem? No caso, da
mulher que quando cisma, o senhor est me compreendendo? S matan-
133


do. Ele concordou, impossvel fazer mudar a cabea de quem quer que seja,
mas os mtodos,
insistiu: esses mtodos que empregavam eram de tal forma convincentes:
para comear, todas as
prostitutas eram encaminhadas para os centros de recuperao, havia
muitos desses centros
preparados para receblas. L, eram tratadas com considerao, reeducadas
e orientadas para que
quando sassem j tivessem um emprego garantido, de acordo com as
inclinaes e habilidades de
cada uma. Salrio modesto mas digno nesse recomeo de vida. Se voltassem
a reincidir, o
tratamento j seria mais severo: encarceradas e desmoralizadas, podiam
at sofrer outras punies.
Perguntei que punies seriam essas e ele ficou reticente, achei melhor
levantar a ltima hiptese, e
se elas insistissem em transgredir uma terceira vez? Mister horn Tim-Tim
demorou para falar.
Quando o fez, foi para perguntar se eu j tinha provado churrasco de
cobra. No? Sorriu com uma
expresso de discreta beatitude.
Srom
Ela foi o jardineiro surdo-mudo que encontrei j certa manh podando a
grama do jardim do meu
av.
| Quando a lmina recurva afundou mais, traando um
\ semicrculo, senti seu hlito de terra e me afastei de-
pressa. Foi depois a mariposa de prata com um olho azul-turquesa
desenhado em cada asa, entrou
no meu quarto, voejou pesadamente em redor da lmpada e saiu para a
noite. Encontrei-a bem mais
tarde na flor de seda lils do chapu da minha professora, convidei-a
para um ch numa confeitaria
antiquada e do encontro s me ficou aquela flor comovente, de ptalas
lnguidas, estiradas ao longo
da aba de feltro
134 ,


empoeirado. Voltei a rev-la na madrugada de um aeroporto - Marrocos? Era
agora a criana de
gorro de l, dormindo no colo da velha senhora que tambm cochilava, tudo
muito tranquilo at que
a velha acordou num susto, como se a tivessem sacudido, acordou e olhou
em pnico para a criana
dormindo, parecia perguntar, mas quem a deixou aqui? Desviei o olhar. Foi
ainda o som do bumbo
no escuro, as batidas compassadas de um ritual enquanto a trapezista de
malha branca e ps em
ponta ia subindo pela corda pendendo do teto, cada vez mais difceis os
movimentos do corpo em
contraes de lagarta, subindo com o som do bumbo que avisava em cdigo o
que ia acontecer -
tapei os ouvidos. Enrolo no dedo o fio do tempo, era menina e a reconheci
na pequena p de cabo
de marfim, meu pai jogava na roleta mas eu olhava o homem de smoking com
sua p leve, gil,
recolhendo ou oferecendo as filhas deslizantes, o medo tambm deslzante
indo e vindo sobre o
pano verde com nmeros nos quadrados, como o jogo da amarelinha. Naquele
baile de carnaval no
foi a mulher de clios postios e luvas de lantejoulas vermelhas? Passei
perto do seu camarote,
reconheci-a e ela me atirou um punhado de confete na boca.
Desertora de mortos assim que eles morrem, nunca est onde se supe que
ela esteja. com seu raro
poder de mimetismo, toma a forma e o calor dos objetos, fragmenta-se nas
pessoas e a nica vez
que deixou seu nome escrito foi na embaada janela de uma igreja. De trs
para diante, era um
reflexo no vidro. Em latim.
35


12 de fevereiro
Chegou hoje cedo o pacote de livros que encomendei. Deixo o pacote
fechado. Chegaram livros
pelo correio. Levo-os  prateleira da estante onde est uma pequena
pilha, aguardando a vez.
Recolho na minha mesa as cartas e os convites que um dia you responder e
guardo-os numa pasta.
Fecho a porta para o telefone. Fecho a minha porta e fico quieta no
silncio. A respirao calma.
No sei se quero escrever mas talvez queira. Aos poucos, varando paredes
e telhados comeam a
chegar os cantos das sereias e alguns desses cantos so fascinantes, nem
posso dizer que os
reconheo porque esto sempre se renovando em cada onda, em cada brisa.
Penso em Ulisses e fao
como ele, no tapo os ouvidos com cera porque quero saber, mas me amarro
com cordas ao mastro
do navio enquanto se multiplicam os doces chamados tentando me desviar
desta aventura. Sinto
mais agudo o prazer do risco ao descobrir como tudo conspira (a palavra 
essa, conspira) para me
afastar da minha rota. Cravo o olhar na rosa-dos-ventos, mais intensa a
ansiedade que cresce com os
apelos mas sob a ansiedade a profunda alegria por estar conseguindo.
15 de setembro
Se a vida estiver l fora, nessas vozes que desdenhei? E se o desvio da
minha rota foi exatamente
esse que escolhi? Mas haver ainda tempo?
Fico olhando o besourinho lustroso, de pintas vermelhas no verde-
esmeralda das asas. Atravessa
minha mesa num andar enrgico, decidido - de onde veio e para onde vai?
Toco-o com a ponta do
136
;


dedo e imediatamente ele se imobiliza dentro da pequena carapaa, se faz
de morto. Sua ttica de
defesa me emociona, tambm me fiz de morta tantas vezes. Tenho vontade de
colher o besourinho
na palma da rno e lev-lo at os potes de samambaia, no seria mais
feliz l? Fico vacilante, o que
 bem para mim pode ser o mal para ele. A ambiguidade do Bem. Afasto-me
para que ele no se
sinta tolhido, quero-o livre. Observo de longe a bolinha verde-esmeralda
que ressuscita e retoma sua
marcha. Retomo a minha.
Delenda Carthago!
Mas no delendaram totalmente e a prova  que l est ela, uma Cartago em
runas, mas resistindo
ainda bela com seu mrmore cor-de-rosa com algumas estrias mais fortes
lembrando uma plida
carne por onde um dia um sangue aguado divagou.
Meus conhecimentos geogrficos so mais subdesenvolvidos do que os vinte
e dois Estados do meu
pas. O que aprendi de geografia foi  minha custa, viajando, pisando nos
vagos coloridos dos
cadernos cartogrficos. Onde a Cartago da minha infncia? Onde?! Tive um
cachorro chamado
Cartago mas eis um nome demasiado imponente para um bastardo de bairro,
prevaleceu o apelido,
Tago. Fora o cachorro, as aulas transbordantes de proezas de Hrcules,
guerras napolenicas e
guerras pnicas, verdadeiro caos de mrtires e heris em empastelamento
de fogo e latim com as
silhuetas de Nero com sua lira. Enquanto Anbal, de armadura negra,
passava num p-devento,
delenda Carthago!
A Cartago literria veio mais tarde, com Salamb danando descala, 
Flaubert! da minha
ostentao. Como usei Flaubert para impressionar meu
137


namorado da Academia, quando ento citava num francs que acreditava
excelente: C'tait 
Mgara, faubourg de Carthage, dans ls jardins 'Hamilcar. . .
- Cartago? Mas Cartago no existe mais! contestou W. com veemncia.
No meu dedo anular estava a prova: o anel de mbar que um rabe me vendeu
num mercado de
Cartago dizendo que tinha sido de um santo cartagins, esquecera o nome
do santo. Gostei tanto da
inveno que ela acabou sendo verdade, aprimorei-a: este anel foi de
Santo Agostinho, eu disse.
Comprado l.
W. olhou o anel e depois me olhou mais demoradamente.
18 de setembro
Sempre fomos o que os homens disseram que ns ramos. Agora somos ns que
vamos dizer o que
somos - declarou a personagem de um romance que escrevi em 1970.
Publicado em 73.
20 de setembro       .-.-.       ;.
Revejo algumas notas que andei escrevendo em tomo das condies em que o
naturalista Auguste
de Saint-Hilaire encontrou a mulher brasileira nas viagens que fez ao
Brasil, por volta de 1819: "As
mulheres da zona do Rio Grande, e em geral, da comarca de So Joo,
mostram-se um pouco mais
do que as de outras partes das Minas; todavia, como isto no  uso
geralmente admitido, e as que
aparecem diante dos hspedes s o fazem calcando um pre-
}8


conceito, mostram muitas vezes uma certa audcia que tem qualquer coisa
de desagradvel. Aqui,
como no resto da provncia, as donas-de-casa e suas filhas enfiavam
cautelosamente o rosto entre a
parede do quarto em que eu me achava e pela porta entreaberta a fim de me
ver escrever ou
examinar plantas, e, se eu me voltava de repente, percebia vultos que se
retiravam apressadamente.
Cem vezes representaram essa comdia". E mais adiante: "Passara, em duas
vezes diferentes, cerca
de sessenta dias em casa de um fazendeiro, extremamente distinto, que me
testemunhava amizade e
pelo qual tambm professava estima e apreo. Pouco antes de nos
separarmos para sempre, ele me
disse com embarao: 'Est surpreso, sem dvida, meu amigo, de que minhas
filhas no se tenham
jamais mostrado ao senhor; detesto o costume que me obriga a afast-las,
mas no poderia subtrair-
me a ele sem prejudicar-lhes o casamento . .' Aliviei de um grande peso
esse homem respeitvel,
respondendo-lhe que eu estava longe de o desaprovar, que no se devia
jamais atacar bruscamente
as ideias estabelecidas, que era necessrio deixar o tempo agir, e que
pouco a pouco ele traria uma
feliz mudana. Parece que essa ainda no chegou: pois o sr. Gardner, cuja
viagem  recentssima,
relata que foi recebido com a mais amvel hospitalidade em uma fazenda
onde eu prprio fora
dignamente acolhido mas no vira a senhora da casa. Tomada mais idosa,
essa senhora no
procurou esquivar-se aos olhos do viajante ingls, mas as suas filhas se
esconderam, como ela
tambm o fizera na sua mocidade". Ainda um episdio narrado por um amigo
de A. S. H., hspede
numa fazenda onde o fazendeiro estava doente: "Deram-me de jantar; mas
como a dona da casa no
queria se mostrar, deslizava com a filha por trs do engenho e
introduziam os pratos de comida por
um buraco".
H9


Das ajuizadas ponderaes do visitante naturalista, destaco isto: "No se
devia jamais atacar
bruscamente as ideias estabelecidas, que era necessrio deixar o tempo
agir, e que pouco a pouco
ele traria uma feliz mudana".
Seria possvel essa feliz mudana sem a revoluo feminista? Jamais.
Apesar de todos os equvocos
e deformaes decorrentes de qualquer revoluo, o desafio feito ao
universo feminino amadureceu
e explodiu inadivel. Inevitvel. As demagogias e os erros naturais da
experincia no prejudicam a
causa. "Estou nascendo", disse uma jovem universitria com cara de
Capitu. "Posso nascer
sossegada?"
Cabra-cega ' :
Era um jogo da minha meninice - ser que ainda brincam assim? Os olhos
tapados com um pano, as
mos tateantes. Os sustos. Os gritos. Tiro o pano dos olhos e me vejo de
corpo inteiro. To ntido
esse corpo que conheo to mal, como ele me escapa! Principalmente na
doena, quando no sei o
que fazer com ele - mas que corpo  esse? Como posso entend-lo se no
tenho a menor ideia do
que se passa l por dentro? you de cabra-cega, s apalpadelas, tateante,
o que em mim  realidade e
o que  aparncia? Corro at minha imagem e toco apenas no espelho.
O comilo
Gostava de ostras mas tinha preconceito, evitava olhar para essa coisa
que ia comendo apressado,
140


impaciente, a expresso de repugnncia mas a boca salivante de prazer.
Exigia as ostras vivas
porque ento o apetite ficava insuportavelmente excitado ao imagin-las
se contraindo na morte sob
o sumo do limo. Tambm gostava de putas.
12 de fevereiro
Me vejo dividida em duas, eu e a outra que se fragmentou e que est
tentando agora unir os pedaos
do que foi um todo e se repartiu. Pergunto se seria isso a loucura. Essa
impossibilidade de ordenar o
que se desordenou. Como o vento soprando numa mesa de papis avulsos que
se soltam no ar e se
perdem no cho, debaixo dos mveis, por entre os objetos - h um pedao
escapando pela janela,
cuidado!
A mente fragmentada. Ela est contida inteira neste fragmento que
consegui captar. Est neste
fragmento e est num outro l adiante, se dividiu, quero-a nica e ela
ficou mltipla, no se fixa. Ou
se fixa obsessivamente num s ponto, a ateno concentrada, cristalizada,
virou cristal de rocha.
Espero que ela mesma decida quando mas no pergunto por qu. Baixou o
olhar esquivo para
lonjuras que no alcano - ei! est me ouvindo? ei! - repito. Est me
ouvindo e no est, de novo um
fragmento de papel que o vento leva at a praia, ficou area, uma criana
quis agarr-la para fazer
um barquinho mas ela foi mais alto. Quando caiu no mar, entrou pela boca
de um peixe de prata e
se lembrou ento da histria do homem que ficou morando dentro de uma
baleia, seria BOM? ela
pergunta. Morar l dentro. com o leo da baleia podia acender uma
lamparina. Mas no fala nisso,
no convm ficar falando, as pessoas em redor andam desconfiadas, melhor
o silncio. O
141


silncio. Encosta a testa no vidro da janela, precisa se apoiar em alguma
coisa e se apoia nesse vidro
mas se assusta quando se v deformada, estou assim? Passo a mo na sua
face e com as pontas dos
dedos fecho a minha boca, foi s um reflexo, est tudo bem, digo e ela
fica vendo pela janela do
trem a paisagem correr l fora, corre paralela e em sentido contrrio, 
montono mas  belo, beleza
 mesmo isso, monotonia. Boceja. Ficou sonolenta. E comovida porque no
mesmo carro viaja a
antiga pajem preta, a Guiomar, brincavam de esttua. V tambm o amor que
morreu faz tempo, 
ele, sim! meio escondido na sombra, no distingue bem suas feies mas
ouve o seu chamado vindo
de longe, to longe, est me chamando com tanto carinho, Kuko!. . .
Enxugo os olhos, ah, se ele
pudesse ficar comigo, diz. Se ele ficar comigo, estarei salva salva
salva.
Me vejo lcida e me animo, puxo-a pela mo, imploro, volta! e ela me
beija e o seu sorriso  de
quem pede desculpas por estar enlouquecendo: voltei e no voltou nunca
mais.
A disciplina do amor (II)
Conheceu-a na penso alegre da Rosinha Ruiva e passou a procur-la aos
sbados, com hora
marcada. At que achou um desaforo esse negcio de marcar hora, por que
marcar hora? E se a
gente tiver vontade de ficar mais tempo junto? Combinou ento a noite
inteira mas continuou a
insatisfao, por que no v-la tambm nas segundas e quintas-feiras? A
semana era comprida
demais e podia pagar perfeitamente essas horas extras, no podia? Comeou
a ficar inquieto de
novo, s trs vezes por semana era pouco, queria todos os dias, sim
senhora, todos os
42


dias! Acabar com essa histria de dividi-la com a homenzarrada, mulher
tem que ser inteira s da
gente, era preciso botar um pouco de ordem nisso! Foram morar juntos no
Hotel Ls Vegas, perto
da Estao Rodoviria, mas s enquanto esperavam pelo quarto que um
colega de servio prometeu
desocupar quando viajasse para Gois. No chegaram a se mudar para esse
quarto porque antes da
mudana j tinham percebido que aquele amor de fogaru, beleza de amor!
estava acabado.
Ficavam a noite inteira deitados na cama de casal que tinham comprado
numa queima da Paschoal
Bianco e nada. At domingos inteiros tinham ficado assim, esperando que
acontecesse. No
acontecia. Ento acendiam um cigarro e ligavam o radinho de pilha no
programa de calouros. Ele s
vezes chorava, envergonhado, devia estar doente, dava murros na parede.
Ela o consolava, se dizia
culpada, chorava junto e iam depois tomar uma cerveja. Ou uma sopa na
casa de uma senhora
alagoana que fornecia marmitas, aos sbados tinha feijoada completa.
Passaram a falar muito e
essas eram conversas tristes, lembranas pesadas de ressentimentos que
vinham de longe, quando
ainda nem se conheciam. Ela lembrava a infncia ruim. O caso dele era
diferente, fora um moleque
alegre, depois  que a coisa azedou. Dormiam de mos dadas. Tinham
marcado o casamento para
maio, mas em abril, de comum acordo, resolveram se separar. Venderam a
cama e o criado-mudo,
repartiram o dinheiro, ela ficou com as alianas como recordao e no se
viram mais at junho,
quando uma noite ele foi dar uma espiada l na penso da Rosinha onde
tinha sido to feliz. O
corao comeou a bater feito louco quando deu com ela toda decotada,
bebendo com um tipo.
Arrancou-a da mesa aos socos, chegou a se atracar com o tipo que ficou um
tigre e depois riram e
choraram muito enquanto se amaram com abrasa-
43


dora paixo. Voltou a v-la todos os sbados. Prometendo que quando
passasse a ganhar uns extras
que tinha perdido na confuso da greve, ficariam juntos a noite inteira
mas por enquanto convinha
se sujeitar ao horrio da casa.
O mercrio
A febre. O termmetro escapa da minha mo, parte-se o vidro pelo meio e a
gota de mercrio
escapa e rola livre no ladrilho. Fico de joelhos tentando peg-la mas ela
foge rolia, densa, foge to
sagaz que me excito com o jogo, alcano-a l adiante mas ela entra
debaixo do armrio e agora me
espia com sua pupila prateada, luzindo no canto escuro. Estendo o brao,
toco-a de leve com a
ponta do dedo e ela vem resvalando pelo declive do ladrilho, vem vindo ao
meu encontro, inteira e
intacta, protegida pela impondervel pelcula de poeira que foi
recolhendo em sua fuga. Consigo
aprision-la, estou radiante,  minha! e a gota se fragmenta numa
exploso silenciosa e os estilhaos
- mil bolinhas de mercrio - escorrem pelos meus dedos e se perdem no
cho.
144


Essa histria  muito antiga, lembra? Joozinho e Maria foram levados 
floresta e l entregues 
prpria sorte (morte) pelos pais que planejavam o horror diante do fogo
com o caldeiro vazio. As
crianas ouviram a conversa, encheram os bolsos com gros e milho e
foram deixando cair os
gros - ntida trilha amarela marcando o caminho de volta. Inventei datas
que fui deixando cair por
estas pginas assim ao acaso e agora no sei quais so as inventadas e
quais so as reais. Debruo-
me sobre algumas para examin-las de perto e a proximidade as toma
singularmente mais distantes.
145



A LITERATURA COMO UM ATO DE AMOR
Ricardo Ramos
A nossa melhor ficcionista. A nossa maior escritora viva. A primeira dama
da nossa literatura
contempornea.
Lygia Fagundes Telles j foi assim chamada, e de maneira repetida, pela
crtica tendente s
precedncias, e classificaes. Isso, no entanto, por mais que importe,
nos limita. Se precisamos
situ-la, no nos confundamos com fases nem feminismos. E digamos,
simplesmente, que  um dos
nomes mais importantes da fico brasileira.
Na escritora, o que vem antes: a contista ou a romancista? Em outras
palavras: ela se realizar mais
plenamente no conto ou no romance?
Ainda uma vez, nos desviamos. Sem dvida podemos consider-la primordial
no conto ou no
romance, como tambm na sempre esquecida novela. E ento, de novo
classificatrios, perdemos a
sua fico como um todo. Pior, no chegamos  viso apropriada, entre
lcida e sensvel, capaz de
nos desvendar sua obra. Decerto altssima em termos globais de fico.
O crtico mais agudo ver que Lygia Fagundes Telles no se dispersa pelos
gneros ficcionistas, ao
contrrio, os unifica. A percepo de Eduardo Portella j nos falou da
sua "indiscutvel percia" no
romance, como do seu "espao muito especial" recortado no conto. Mas, e
principalmente, do que
nos
147


traz a escritora por inteiro: "Um realismo imaginrio, limitado ao norte
pela agilidade textual, pela
eletricidade discursiva, e ao sul por uma espcie de resistncia
subjetiva, difcil de ser encontrada
nos tempos da modernidade".
Por que lembramos, aqui e agora, tais controvrsias to marginais? Talvez
porque, apesar de
secundrias, elas se coloquem, viradas pelo avesso ou positivamente, em
termos deste livro. Pois A
disciplina do amor rene, na sua aparncia fragmentada, a Lygia Fagundes
Telles que sabemos: a
contista, a romancista, a novelista, com laivos de crnica ou dirio, de
anotao, de reflexo, a
enorme ficcionista que admiramos. Acima dos perodos e rtulos,
enigmtica, ela vai lendo mos e
cartas, de vidas e enredos, nos tecidos e tapetes de uma prosa iluminada
ou constelada pelos mais
claros cus noturnos. Essa mgica, misteriosa escritora. A nossa bela
feiticeira.
A propsito deste livro, ensaiemos uma outra aproximao. Deixando a
autora em segundo plano,
trazendo  boca de cena a sua matria, melhor diramos as suas achegas.
Naquilo de contatos,
imediatos e outros. Sigamos em frente.
Uma procura humilde, ou a humildade como tcnica. Foi Clarice Lispector
quem escreveu sobre
isso, preocupada com a nossa incapacidade de atingir, na indagao de
tudo aquilo que nos leve
mais depressa ao entendimento do leitor. Ela vai alm, se desenvolvendo,
confessa nunca haver tido
um s problema de expresso, mas sim de concepo, e diz falar do que
pode ou no ser alcanado.
Para concluir: "S se aproximando com humildade da coisa  que ela no
escapa totalmente".
Tal postura, que tem muito de ordenao, nos faz recuar at a velha
teoria das duas almas. Em um
dos, seus contos, Machado de Assis estabelece que
148


"cada criatura humana traz duas almus consigo: uma que olha de dentro
para fora, outra que olha de
fora para dentro". Uma alma exterior, sim, uma segunda alma, que tanto
quanto a primeira tem por
encargo transmitir vida. E que  mutvel, de natureza e de estado. A fim
de capt-la, tomou-se
necessrio  personagem colocar-se diante do espelho, examinar-se
observando, e ento "o vidro
exprimia tudo". Reproduzindo a figura integral.
Humildade e transparncia. Essas duas palavras, como atitude, como
inteno, nos foram
ressaltadas por este A disciplina do amor. Porque no sabemos de livro
que melhor exprima, na
busca de uma inflexo pessoal que  o trabalho do escritor, os acentos de
singela e transpassada
abordagem. A simplicidade no seu mecanismo de achar, posto que obrigao
interior de espelhar-
se, essa nos parece a norma essencial de Lygia Fagundes Telles. E nada
nos toca mais do que
tamanha verdade.
A disciplina do amor  uma reunio de contos, crnicas, confisses. Ou,
no passo mais largo, de
fragmentos de romance. De lembranas com pessoas, de flagrantes com
personagens, de vivas
paisagens pintadas. De sonhos e situaes e sinais que nos acordam, ficam
evoluindo na imaginao
ou na conscincia. So memrias, reflexes. Por entre choques e sustos,
vises e descobertas,
externos, interiores, esses caminhos perplexos.
Dito assim, pode parecer um livro dividido, ^racionado. Mas no, o
fragmentrio mostra-se
incidental e de superfcie. Pois existe a unidade de escrita, um dos
textos mais individualizados da
nossa prosa contempornea, feito de ciente preciso e agilidade elegante,
uma difcil graa fluente.
E, alm disso, temos harmonia maior: a personalidade de autor -
extremamente rica, onde se
marcam em
149


traos ntidos a descoberta emoo e o rigor controlado, o ser ao mesmo
tempo capaz da poesia, do
humor e da indignao. Sempre de maneira imprevista, posto que vindo
subterrnea e sutil at a
revelao.
Lygia Fagundes Telles escreve sobre enchentes e desfiles de escolas de
samba pela televiso,
passeio em praia de Ubatuba ou numa praa de Teer. Entretanto, h
meteoros e mistrios em uma,
jovens enforcados pendentes na outra. Menos fatos, mais temas, sobre a
coragem, a loucura,
religio ou liberdade. Variaes, visitaes. O diabinho ao despertar, o
instante que precede o sono,
uma levitao entre a vida e a morte. A gata Iracema, que tem um sentido,
a tiazinha que no viveu
e soube disso antes de morrer, que tem outro. As frases do caderno, os
lugares no esquecidos e
quem ou que os povoou, rostos, objetos, sentimentos. Penosos sentimentos,
aqueles pentimentos.
Ao termo de tudo, mais ambiguidades. Ou superposies, com as relaes
ntidas, mas sem chaves
de abrir. A criana perdendo o medo ao contar suas prprias histrias,
ela que apavorada as ouvia
da'empregada, iniciando-se no ofcio de amanh. E o seu reverso, o
processo de extino do
escritor, ele to finito quanto a rvore e o ndio. Ou no conhecemos o
nosso pas? Um lado e outro.
Entre os dois, um territrio de indagaes, meditaes. No conjunto, h
vrios traados, que se
cruzam, completam ou conflitam.  sempre assim, quando se busca entender.
"Particularmente,
quando se enfrenta a sucesso das nossas dvidas maiores, e sem
escamotear procuramos um porto.
Aqui no existe o trivial ou desimportante. Se guardamos de um trecho a
sensao de acidental, 
que no soubemos chegar ao cerne dele, seus acasos organizados. No centro
de tudo, Lygia
Fagundes
150


Telles se preocupa com a vida, o engano de vida, o que o tempo faz da
vida. Os desencontros, as
lacunas, os desequilbrios de viver. A busca que empreendemos, ainda que
sem sentir, a cada passo
do nosso roteiro. E o quanto nos perdemos, no chegamos, ficamos em pleno
mar.
Exemplo, exemplar: "'Por que no lhe disse antes? Apert-lo demoradamente
contra o meu peito e
dizer. No disse porque pensava que tinha pela frente a eternidade. S me
resta agora esperar que
acontea outra vez, vislumbro esse encontro - mas you reconhec-lo? E you
me reconhecer nos
farrapos da memria do meu eu? Peo que me faa um sinal e responderei ao
cdigo secreto na
noite e no silncio dos navios que se comunicam quando se cruzam no mar".
Sem perceber, ficamos. At que as marrecas selvagens, muitas delas,
escolham o fundo e suas asas
terminem pesando de tanto lodo.  uma escolha, sim. A da lucidez e no a
da trgua, porque uma
representa luta e outra ausncia, doena, mesmo que no o saibamos. Ou a
da prpria sensibilidade,
sem maior compreenso, porque existe isso de adivinhar apesar de
fagueiros. Verso e reverso. Sim e
no. No neste caso, no inteiramente, acreditamos. A escritora se
denuncia, ao longo de todo o
livro, portadora de um plano de coerncia que se pode exercer at na
incerteza, na suspeita, na
hesitao, mas talvez por isso mesmo seja to assombrosa e legtima.
Quem  o escritor? Volta e meia nos perguntam isso: Quem  voc? A
resposta, relativamente
simples em termos de entrevista, se complica no fundamental.
O escritor  e parece que , existe e representa, individualizada, se
multiplica. Autor e intrprete, ele
origina e se exercita, ao mesmo tempo o princpio e
151


o fim, mas ainda as variveis do processo. Ou seja, no popular: solta o
foguete e sai atrs da vareta.
Sendo assim uno e diverso, o escritor  um ser difcil de catalogar. Ou
de classificar. Quanto mais
ele for verdadeiro, mais sobram as reas de impreciso. Por qu? Porque a
explicao do escritor
est na sua escrita. Um universo de palavras, compondo um cho, um homem
e um clima, todos
difceis de determinar. Pessoais e intransferveis. Acima das
aproximaes, ou dos nivelamentos.
Quem  voc? O reprter pergunta, a gente deve bater pronto. Como o
jogador, em deciso de
campeonato, cobrado na base do pnalti. Quem sou eu?
Lygia Fagundes Telles nos responde, com este A disciplina do amor. Eu sou
esta, essa, aquela, sou
uma e sou duas, sou demais, repartida e inteira, sou tantas que nem sei.
Sou aqui, agora, amanh
no sou mais, sou imponderveis de mim, dos outros, que  que sou? Uma
viso, um feitio, uma
ressonncia. Ou uma espcie de filtro, que desejamos o mais fino, para
que o trabalho resulte
perfeito. De um outro ngulo, e mesmo que precrio, em trnsito, um jeito
de ver as pessoas, as
coisas, o mundo, tudo o que realmente importa. Eu sou assim.
E o livro, falando pelo escritor, nos diz mais. Que sem ser
autobiogrfico, antes se colocando na
carne dos outros, o autor segue projetando as suas inquietaes, os seus
desesperos, e todavia os
organiza com serenidade em plano definitivo. Que essa  uma tarefa de
recolha, em que se vo
juntando tenses e tormentos, descobertas e cintilaes, os cotidianos
achados e perdidos que se
fazem materiais de reconstruo harmoniosa. Que ns nos exercemos
dirios, e por isso assumimos
tantas inflexes, tantos sentidos e formas, temos de nos urdir
secretamente, disciplinadamente, sem
o que no renasceremos.
152


A diversidade, para Lygia Fagundes Telles, ser mais o reconhecimento do
nosso carter mutvel.
Fruto das muitas circunstncias que de certo modo nos conformam, ou da
prpria condio do
homem, do seu contnuo de avanos e recuos e pausas, estilhaado por
natureza, no entanto
querendo inteirarse. Como j nos advertiram: o bonito das pessoas  que
no esto acabadas, elas
esto sempre por terminar. E apesar disso, devemos encontrar aqui e ali,
como indicao de trao
pessoal, o fio condutor que as informa e distingue, individualmente. Os
seus momentos, que so
poucos, de constncia. Ou de coerncia.
Talvez por causa disso, dos seus motivos que humanamente so to
inconstantes ou mutantes, A
disciplina do amor nos chegue assim mvel, gil, tumultuado. Graas  sua
matria viva, repetimos.
Sob o ponto de vista da fico, examinadas atitudes da autora e expresso
em livro, temos
exatamente o inverso: equilbrio, rigor, simetria. A difcil unidade na
pluralidade.
A disciplina, do amor. Partindo do ttulo, escandido em ritmo, ou nas
suas conotaes de forma e
fundo, temos os dois lados do livro, fundidos na sua inteireza.
O amor como sentido, a disciplina como expresso. Esta depurando aquele.
Em modos e maneiras
de salient-lo, destac-lo, valoriz-lo. Pode haver proposta melhor?
Lygia Fagundes Telles percebeu, com a clarividncia do artista, que tudo
so confluncias ou
disperses, no adiantam os ds-de-peito isolados, mais valem os
cumulativos tons menores. E
ciente ordenou, ligou, demonstrou. Nunca obra conclusiva.
Wilson Martins destacou a ambiguidade na obra de Lygia "Fagundes Telles,
o fato de ela saber
153


projetar-se, entrar na pele dos outros, e de que nisso se aproxima de
Machado de Assis, ao livrar-se
da experincia pessoal e alar-se. Fbio Lucas distinguiu nela a
escritora que transita livremente do
real para o supra-real, aquela que evita o pattico e o melodramtico,
esses enfeites do cotidiano, e
alcana afinal o vasto territrio da magia ou da pura imaginao. Enfim,
Paulo Rnai viu em sua
prosa obras-primas, frementes de inquietaes e profundezas, que se
ordenam na clssica
mensagem de arte.
Eles so mestres de organizar o nosso pensamento. Sem dvida, nos guiam.
Do que nos falam,
decerto concordamos. Do que no falam, provavelmente intumos. Ou no
ser esse tambm papel
da crtica, alm de elucidar, nos levar pelo caminho das interrogaes?
No caso da escritora, so muitas as perguntas. Que acompanham nossa
leitura, e depois
permanecem, ou que vivem na sua obra, fazem parte dela, como um refratado
emblema. Muitas
delas j encaminham respostas. Qual a personalidade da autora, to vria
e mercurial, quais as suas
referncias particulares, to dispersas, ou assim extraordinariamente
ricas? leremos de procur-la
muito alm ao biogrfico, de acompanhar as transmutaes por que ela
passa, ao emprestar-se de
corpo e alma s suas personagens. Qual o mundo que a autora nos
transmite, um mundo de
contrastes e mudanas, um mundo que evolui prximo ou diferente do
imediato, que tem pouco a
ver com o que somos ou pretendemos? Teremos de busc-lo na recriao da
realidade, pois se o real
nos agride ns o reinventamos, loucamente, lindamente, em verdade o
aproximamos da nossa
imagem e semelhana. Qual o ponto de encontro, de equilbrio, entre as
escuras zonas de magia e
despegada claridade palpvel que a autora nos revela em meios tons?
leremos de encontr-lo na sua
capaci-
154


(
dade de equalizar, harmonizar, no seu talento surpreendente para o
amlgama.
As interrogaes se sucedem, pois a grande obra no se resolve em
certezas. Entretanto, se Lygia
Fagundes Telles oferece tantas faces, e to brilhantes, e que vibrando
nos seguem repuxando a
memria, nenhum outro livro seu  to conclusivo quanto este A disciplina
do amor. No plano geral
da fico, que nos remete ao essencial da escritora. E num plano mais
particular, que nos orienta
pelos seus temas e enredos, pelas suas opinies e atitudes.
Atravs dessas indicaes, que perpassam pelo livro com muito de
confisso modelar, chegamos ao
que ser a sua revelao maior: o como a autora v o seu ofcio. Como
Lygia Fagundes Telles
encara o ato de escrever, como ela se coloca diante da literatura. E aqui
no existem ambiguidades.
Nitidamente, escrevemos como amamos. Envolvidos, arrebatados, doadores. E
no entanto sem
perder de vista a beleza do que jazemos, ou vivemos. Que tem ou busca uma
explosiva simetria ou
harmonia. A literatura  um ato de amor.
Este  um livro belo e srio. De temtica decerto elevada, aquela
duradoura, mas abordada com a
requerida humildade, realizada com a necessria transparncia. E a
disciplina de Lygia Fagundes
Telles, essa amorosa da literatura. Em todas as suas gradaes: musa,
esposa, amante, e as suas
intermedirias, explcitas ou sugeridas. Hoje como ontem, como desde os
seus comeos, pois no se
trata de lanamento isolado, apenas um novo ttulo em sua bibliografia,
por mais notvel que ele
seja. A disciplina do amor assume a importncia de livro-chave,
descortinador, mapa e guia de toda
uma positiva aventura literria, o vasto mundo de uma admirvel
escritora. Na sua matria peculiar,
no seu tratamento
155


personalizado, na linguagem e atmosfera, no varivel dos veios e veredas,
nas tantas referncias que
marcam o feitio de to grande autora. Pelo muito que ela significa em
nossa prosa de fico, e no
somente ecoando uma crescente popularidade (obra adotada nas escolas e
universidades, adaptada
para a televiso, discutida nas mais diferentes esferas),  urgente que
se leia a disciplina do amor de
Lygia Fagundes Telles.
156


EU, LYGIA
Nasci em So Paulo, mas passei a infncia em pequenas cidades do
interior do Estado, onde meu
pai foi promotor pblico, delegado ou juiz: Sertozinho, Assis, Apia. .
. Foi uma infncia meio
selvagem, livre. Muito verde. Muitos bichos. Figura importante dessa
idade de ouro foi uma pajem
que me jazia confidncias e me contava histrias sinistras, apavorantes,
com lobisomens e antigos
mortos que se levantavam e l vinham com seu canto fanhoso at nossa
porta.
Eu ouvia e ficava tremendo de medo debaixo das cobertas. At que, certa
noite em que minha
pajem no pde ser a contadora de histrias, resolvi substitu-la e ento
fiz a descoberta: senti
menos medo quando passei de ouvinte para narradora. Enquanto contava,
deixei de tremer, me senti
poderosa porque transferia para os outros o medo que me aniquilava, sim,
me senti independente,
forte.
Meu pai (Durval de Azevedo Fagundes) era um homem meio desligado,
sonhador. Minha me
(Maria do Rosrio de Azevedo Fagundes) tocava piano, cantava e me parecia
muito comunicativa,
alegre. Mas vendo hoje seus retratos, descubro que sua expresso era
triste. Queria que eu fosse
declamadora, mas quando lhe disse que no gostava de recitar mas sim de
escrever, ficou animada.
Embora um tanto apreensiva: " uma profisso de homens", disse. "Mas
siva:
157


se voc quer, por que no?" E me contava a histria de uma antiga
tiazinha que era poeta. E ao
nosso parente Silva Jardim, um homem muito ilustre que caiu no Vesvio,
fiquei impressionada,
caiu dentro do vulco? "L dentro", ela repetiu. "Nunca ningum antes
caiu num vulco, no 
extraordinrio?" E achou que, com esses nomes to importantes na nossa
rvore, eu bem que podia
ter a vocao.
No sabamos, nem eu nem ela, o que era o feminismo, mas nesse estmulo
se revelou uma
feminista, inconsciente, embora. Mais tarde tambm ficou entusiasmada
quando lhe comuniquei
que queria estudar direito, me diplomar na mesma academia do Largo de So
Francisco onde meu
pai estudou: pois se vrios primos tinham estudado l, por que no eu, a
mais inteligente de todos
(me elogiava demais), no podia tambm ser doutora?
Quando a famlia se mudou para a capital, fiz dois cursos superiores, o
curso de direito e o de
educao fsica. Vem da minha disciplina e inclinao para os esportes,
gosto de nadar, fazer
ginstica. E ando quilmetros. Casamento. Um filho, Goffredo Telles Neto.
Meu segundo
casamento, com Paulo Emlio Salles Gomes (crtico de cinema, ensasta,
ficcionista e fundador da
Cinemateca Brasileira), me aproximou do cinema, fiquei fascinada com a
experincia de
transformar o texto literrio em imagem. Sou hoje presidente da
Cinemateca Brasileira. Exero
ainda a funo de procuradora do Instituto de Previdncia do Estado de
So Paulo.
Signo de Aries, domiclio do planeta Marte. A cor do signo  o vermelho,
mas aposto igualmente no
verde. Minha bandeira (se tivesse uma) seria metade verde, metade
vermelha. Esperana e paixo.
Fervor e clera. Alguns dos meus textos nasceram de uma simples viso,
imagem que retive na
memria. Ou de uma frase que ouvi.
158


Outros textos, ainda, nasceram em algum sonho. Mas a maior parte tem
origens obscuras; afinal, o
ato de criao literria  sempre um mistrio onde h magia.
Impossvel localizar criao e criatura. Separar a obra do criador. Sei
que h escritores que
conseguem se explicar to bem, esclarecer o lado escuro do ofcio. Eu
no. "Escrevo e esse corpo-a-
corpo com a palavra j me toma todo o tempo, que se faz mais curto neste
cotidiano devorador.
A funo do escritor? Ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade.
Escrever por aqueles que
no podem escrever. Falar por aqueles que muitas veies esperam ouvir da
nossa boca. a palavra que
gostariam de dizer. Comunicar-se com o prximo e se possvel, mesmo por
meio de solues
ambguas, ajud-lo no seu sofrimento e na sua esperana.
Lygia Fagundes Telles
Obras publicadas: "Praia viva" (contos, 1944); "O cacto vermelho"
(contos, 1949); "Ciranda de
pedra" (romance, 1954); "Gaby" (novela, na obra coletiva "Os sete pecados
capitais", 1954);
"Histrias do desencontro" (contos, 1958); "Vero no aqurio" (romance,
1963); "Histrias
escolhidas" (contos, 1964); "O jardim selvagem" (contos,
1965); "Trilogia da confisso" (em "Os dezoito melhores contos do
Brasil", 1968); "Antes do baile
verde" (contos, 1971); "Seleta" (contos, 1971); "As meninas" (romance,
1973); "Seminrio dos
ratos" (contos, 1977); "Filhos prdigos" (contos, 1978); "A disciplina do
amor" (ensaios, 1980);
"Mistrios" (contos, 1981).
Da autora, o Crculo j publicou: "Ciranda de pedra", "Antes do baile
verde" e "As meninas".
159
